9 de junho de 2017 | Saúde | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
A mágica da aceitação e do cabelo natural
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Cada vez mais temos escutado sobre transição capilar, no poo e low poo em blogs, vídeos do YouTube e sites voltados para cuidados com o cabelo. Um número cada vez maior de meninas tem deixado o secador, a chapinha, e o formol de lado para assumir seus cabelos naturais, sejam eles ondulados, cacheados, crespos ou mesmo lisos. E isso é muito legal.

Desde muito jovens, somos ensinadas sobre a forma ideal que o nosso cabelo deve ter, e isso é fortalecido pela mídia, segundo a qual o cabelo liso é o padrão de beleza; enquanto cabelos cacheados ou crespos são frequentemente associados a desleixo e falta de cuidado com a própria imagem. Essa ideia é muitas vezes cultivada dentro das nossas próprias famílias, dificultando a aceitação do cabelo e das formas que ele assume. O resultado da insatisfação é aquele que muitas de nós já conhecemos: o uso de produtos para modificar os fios, como progressivas e permanentes. Esses processos podem ter vários nomes diferentes, mas o objetivo é o mesmo: deixar o cabelo mais “organizado”, mais “baixo” ou mais “bonito”. Inúmeros estudos já mostraram os malefícios que químicas de transformação podem causar aos fios, variando desde alergias até a queda. Adotar o padrão de beleza pode custar caro e pode custar também o seu próprio cabelo.

Diante dessa situação, surgiu o movimento pelo cabelo em sua forma natural, sem uso de substâncias químicas para transformá-lo em algo diferente. A transição capilar é o momento de transição entre o crescimento do cabelo natural e a permanência do cabelo ainda com química. Esse pode ser um momento muito difícil para várias meninas, pois a existência simultânea de duas texturas e a incerteza sobre o novo cabelo provoca baixa autoestima e tristeza. Para enfrentar esse momento, existem técnicas de texturização que minimizam a diferenças entre as duas partes do cabelo e já nos acostumam ao volume e textura do novo cabelo que está nascendo.

Na mesma onda do cabelo natural, existem as técnicas chamadas de low poo e no poo, criadas pela inglesa Lorraine Massey – autora do livro “O Manual Da Garota Cacheada” – para cuidar do cabelo cacheado e crespo, e que também podem ser usadas por pessoas com qualquer tipo de cabelo. Na tradução para português, seria algo como “pouco xampu” e “sem xampu”. Essas técnicas defendem que devemos evitar algumas substâncias presentes em cosméticos e que podem danificar os cabelos. As principais delas são os sulfatos, substâncias detergentes que fazem uma limpeza profunda e produzem a espuma que vemos na hora do banho. Um exemplo de sulfato bem comum é o lauril sufato de sódio, presente em xampus e sabonetes. Além dos sulfatos, o low e no poo evitam os petrolatos e a parafina líquida, que criam uma barreira impermeável ao redor do fio e são apenas retirados com o uso de produtos que contenham sulfatos fortes, o que pode provocar maior ressecamento.

Além dessas substâncias, há uma lista de outras que devem ser evitadas de acordo com cada tipo de técnica. O no poo não utiliza nenhum tipo de xampu, apenas realiza a lavagem com condicionadores (chamada de co-wash). Já o low poo utiliza xampus, porém sem sulfatos.

Mas e aí, isso significa que o cabelo ficará sujo e sem limpeza? Não necessariamente! Existem opções para a formulação de xampus e condicionadores com agentes limpantes mais suaves, como o cocoamidopropil betaína, por exemplo. Ele é uma substância capaz de retirar as impurezas do dia a dia sem ressecar o cabelo como os sulfatos tradicionais. Para quem pensa em começar uma das técnicas, é importante ficar atenta aos rótulos dos produtos antes de comprar!

Ainda que úteis para várias meninas, as técnicas de low poo e no poo não são unanimidade e podem não funcionar em todos os cabelos. Existem alguns problemas de pele, como a dermatite seborréica, nos quais o uso de determinados produtos pode piorar o quadro e é necessário o acompanhamento de um médico.

Independente do uso de qualquer técnica de lavagem ou finalização, reconhecer a importância do cabelo natural é uma forma de aprendermos a gostar mais de nós mesmas e nos libertarmos dos padrões que nos são impostos desde pequenas. A mudança na forma de se enxergar e de se gostar tem que ser interna, antes mesmo de qualquer mudança externa. Obviamente existem meninas que se acham mais bonitas com o cabelo de um determinado jeito e isso deve sempre ser respeitado. O mais importante é que cada uma se sinta bem e feliz com sua própria aparência, mesmo que continuem a nos dizer como ser ou o que usar.

Ana Carolina Souza
  • Colaboradora de Ciências e Tecnomania
  • Colaboradora de Saúde

Ana Carolina tem 25 anos e é médica formada pela UFRJ. Atualmente faz doutorado na mesma universidade na área de Cardiologia. Ama tudo (tudo mesmo!) relacionado à ciência e sonha em se dedicar e incentivar a pesquisa no país.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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