4 de outubro de 2015 | Colunas, Estilo, Se Liga | Texto: | Ilustração: Julia Oliveira
A moda rosna, o estilo abraça

Não sei se vocês perceberam, mas, desde o novo design do site da Capitolina, trocamos o nome da nossa sessão de “Moda e Beleza” para “Estilo”. E não foi porque a fonte nova era muito grande e não caberia “Moda e Beleza” no nosso menu. É que algo parecia meio errado: por que “Beleza” se a gente fala mais em quebrar os padrões de beleza que qualquer coisa? Por que “Moda” se a gente levanta a bandeira do estilo pessoal? Aí mudamos. Só que eu tenho a impressão que, pra muita gente, “moda” e “estilo” são farinha do mesmo saco, então vale a pena a gente se debruçar um teco mais nestes conceitos pra esclarecer as coisas.

Um bom ponto de partida pra nossa discussão é uma campanha que a Anna Dello Russo, fashionista italiana, fez para sua campanha de acessórios para a H&M, grande marca de fast fashion.

Anna é super envolvida com grandes revistas de moda, e é exatamente o discurso destas revistas que está sendo reproduzido nesta “brincadeirinha”. Sim, é verdade que as revistas não representam o todo da moda, mas são uma parte significativa dela. Então, deixando de lado a música completamente irritante e viciante, a letra diz é meio (bem) bizarra. E, com sua licença, eu vou pinguepoguear algumas destas “lições” insanas pra mostrar porque sou #TimeEstilo:

“Lição número um: moda é uma declaração da sua própria liberdade.”

Moda não é liberdade, é aprisionamento. Moda não é para todos, é para quem tem dinheiro para comprar as coisas que estão na moda. E, certamente, elas um dia sairão de moda e novos objetos de desejo entrarão em seu lugar e rechearão páginas de revista e vitrines de lojas. Você não tem muita escolha: se não usar o que que a comunidade da moda estipulou como a moda do momento, você é excluído desse universo, é automaticamente considerada mal vestida.

“Lição número dois: entre estilo e moda, absolutamente moda.”

Se, entre estilo e moda, você escolhe a moda, você, novamente, se encontrará presa e jamais completamente satisfeita com a sua aparência. Eu abro as revistas de moda, eu vejo desfiles pela internet, mas não me vejo lá — nem assistindo, nem modelando. O que eu vejo é triste, é uma utopia dentro de uma redoma de cristal, que nós jamais alcançaremos. Mas nas ruas eu vejo gente que também não se vê na moda, gente estilosa pra caramba e confortável na sua própria pele, daquelas que você bate o olho e pensa “eu quero ser igual a ela quando crescer”. Por isso eu escolho estilo: porque ele é palpável, modelável e me faz sentir bem comigo mesma, enquanto a moda é inatingível.

“Lição número três: moda é sempre desconfortável. Se você se sente confortável, não consegue “O Look”.”

Bem, se você mesma disse, Anna, quem sou eu para negar? A moda é, de fato, desconfortável. Não necessariamente no sentido físico da coisa, tipo usar calças de couro e salto 15 todos os dias, porque você pode muito bem se sentir confortável com isso. O desconforto é mais no sentido de não se encontrar. Se eu supostamente gostar de usar barriga de fora e saia longa todos os dias e isso estiver em baixa na temporada, vão me chamar de brega, vão me gongar nos blogs, vão me colocar na sessão “certo ou errado” da revista como exemplo de suicídio fashion. A moda rosna e morde. O estilo, pelo contrário, abraça, faz cafuné e dá chá de camomila e bolo de maçã. Porque ele é controlado por você mesma, não pelos outros. E por isso mesmo ele leva em conta suas peculiaridades, te ajuda a se conhecer, respeitar, amar, ser confiante com seus gostos e sua personalidade.

“Lição número sete: você deve usar uma roupa somente uma vez.”

Mônica e Magali não curtiram essa lição. Quase não tenho forças pra rebater isso. Você acha que eu tenho árvore de granas? Acha que o planeta aguenta essa palhaçada aí? Sustentabilidade mandou um beijo. De novo é a moda criando expectativas irreais e falando com 0,000000001% da população mundial. A maioria das pessoas não tem tempo, dinheiro e disposição pra priorizar roupa tanto assim. E, mesmo que tenham, é simplesmente errado usar uma roupa por dia e tchau e benção. Roupa não é fralda descartável. Imagina como estaria o planeta se todo mundo vivesse sob essa lógica de não repetir roupas jamais? Nada bem, com certeza. Mas é essa vontade desnecessária que o mercado da moda tenta implantar em nós, para que compremos aquilo que não precisamos e continuemos a mover o moinho fashion (que deve ser cravejado de medalhinhas de ouro e cristais Swarovski).

A moda é uma arte incrível, mas uma arte muito mal assessorada. Existem, sim, coisas belíssimas e que valem a pena neste meio. O que precisamos é aprender a fazer com as próprias mãos uma curadoria dele, pra ver o que funciona e o que não funciona pra gente e pro nosso estilo pessoal.

Mas tudo isso que eu disse ainda é muito abstrato, né? Então, tá. Pra fechar, se eu precisasse dar lições práticas a favor do estilo, tal como fez Anna Dello Russo com a moda, elas seriam:

1) Tire os olhos das revistas, preste mais atenção nas ruas, no Instagram, nas suas amigas, no seu próprio armário.

2) Loja não é a única fonte de roupa. Organize feirinhas de troca com as amigas, descubra o brechó da igreja perto da sua casa, mande fazer peças da sua cabeça na costureira (ou, mais legal ainda, aprenda a costurar você mesma!).

3) Encontre inspiração em coisas não óbvias. Hoje você quer sair de sol? Massa! Amanhã você quer ser uma princesa lutadora  vivendo em mundo distópico de jujubas do século 22? Só vai!

4) Não deixe de usar nada porque alguém disse que não é pra você. Gordas podem usar cropped top. Meninas que não se depilam podem andar de pernocas de fora.

 

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Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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