24 de setembro de 2015 | Esportes | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
A mulher pode ser tão forte quanto quiser

Serena Williams não para de fazer história: além de romper barreiras em um esporte de elite, predominantemente branco, ela é uma das atletas mais vitoriosas da atualidade. Desde sua iniciação profissional no tênis em 1995, quando tinha apenas 14 anos, Serena já conquistou 21 torneios de Grand Slam simples e quatro medalhas olímpicas. Ela é uma inspiração para milhares de jovens atletas e iniciantes no esporte: sua fundação, a Serena Williams Foundation, distribui bolsas escolares para estudantes de baixa renda e também já construiu escolas no continente africano.

Mas as vitórias não foram suficientes para evitar críticas que a acompanham por toda sua carreira e que voltaram com toda a força em abril, depois de seu mais recente título em Winbledon. Redes sociais e sites de jornais conservadores foram inundados com comentários e artigos maldosos sobre a forma física de Serena. Todas suas conquistas, dentro e fora das quadras, foram questionadas com a intenção de validar velhas críticas ao corpo feminino. “Serena é musculosa demais”, “Serena é masculina”; Serena não pode ser um símbolo de força porque a sociedade decidiu assim.

Mas por que o poder do corpo da mulher incomoda tanta gente?

Desde a implementação da educação física nas escolas, seguindo a tradição de controle sobre o corpo feminino e sua funcionalidade maternal ou de submissão ao parceiro, às estudantes era negado o direito de escolher suas modalidades de preferência. Moças não podiam tomar parte em esportes de rapazes, sob o risco de ferir a sua única utilidade: a de gerar filhos.

O sexismo, no entanto, gerou frutos e em 1941 foi aprovado o Decreto-Lei n° 3.199, limitador da prática esportiva feminina. O artigo 54 deste decreto diz: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país.”

O artigo 54 caducou há décadas, mas a autoridade sobre o corpo feminino continua fortíssima.

Mulheres são incentivadas a praticar esportes e manter a boa forma, contanto que também mantenham a essência feminina. Independentemente das condições de treino e modalidade, temos que conservar a aparência impecável durante a atividade física: unhas feitas, pele perfeita, velhos padrões de beleza e elegância que são muito difíceis de serem alcançados.

Quando a regra é quebrada acontecem casos o como o de Caster Semenya, atleta sul-africana que foi submetida ao absurdo “teste de gênero” pois, depois ganhar uma medalha de ouro no Campeonato Mundial de Atletismo, teve seu gênero questionado pela Federação Internacional de Atletismo por não ser considerada feminina o bastante.

Serena e Caster são apenas dois entre muitos casos onde mulheres são impossibilitadas de praticar esportes ou humilhadas publicamente por não corresponderem a uma expectativa social.

Já ouviu algum conhecido comentar que mulheres não deveriam estar jogando Rugby ou lutando no UFC? Que os corpos das lutadoras são masculinos?

O estereótipo da constituição frágil feminina nunca deixou de ser usado para validar questionamentos relacionados à presença de mulheres no esporte. O corpo ainda é o fator determinante das perspectivas de desempenho nos esportes femininos: para a manutenção de padrões, mulheres ainda são discriminadas ao se envolverem com modalidades esportivas reconhecidas como ideais para a prática masculina. Permanecer em modalidades tradicionalmente femininas evita o desconforto, evitando também a evolução da mulher no esporte.

A misoginia está presente na base do esporte: federações e técnicos são os grandes responsáveis pela rejeição pública do aumento de peso e do ganho de massa muscular.  É do interesse geral que atletas permaneçam atraentes, mantendo a simpatia do público consumidor. Conservar a feminilidade é sinal de lucro em um meio onde a grande maioria das atletas bem sucedidas são consideradas símbolos sexuais. Quanto mais atraente, maior o interesse popular.

Para o opressor, é assustador que a mulher possa ser tão forte quanto quiser, que a força masculina não possa mais ser utilizada como fator intimidador diante dessas mulheres. O poder masculino tem um suporte muito frágil que vem sendo abalado todos os dias por mulheres corajosas, mulheres que estão redefinindo como enxergamos a capacidade feminina.

Apesar das adversidades, Serenas e Casters continuarão lutando, derrubando paradigmas, vencendo um desafio de casa vez e abrindo caminhos, servindo de inspiração para uma futura geração de atletas empoderadas.

Giulia Fernandes
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Esportes

Giulia Fernandes, 17 anos, Rio de Janeiro, estudante. Meus interesses são: film noir, batons roxos, criptozoologia, árvores centenárias, garimpar livros e LPs, colecionar caracóis e algumas vezes outras coisas também.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Gostei muito desse texto, me fez refletir muito sobre “o que afinal é ser feminino”, que é uma questão que devíamos pnsar constantemente na verdade. Parabéns!

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