18 de outubro de 2015 | Música | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
A música pop como empoderamento LGBT

Uma coisa que eu vejo muito e que me irrita bastante é quando as pessoas menosprezam o gosto das outras. Deve ser difícil aceitar que nem todo o mundo tem o mesmo gosto que você e que não há nada de errado nisso. Quando se critica no âmbito da música, é possível observar certos padrões: gêneros musicais de elite, como o jazz, a bossa e o erudito, costumam ser aplaudidos, enquanto gêneros populares, como o sertanejo, o funk, o rap e o pop, são constantemente criticados. Por hora, me interessa tratar especificamente do pop: um gênero musical que tange minha vivência de forma muito especial.

Eu poderia gastar meu tempo mostrando como o pop comercial também possui elementos musicais “refinados” e “inteligentes”, mas isso não tem importância nesse debate. Valorizar uma produção artística de acordo com elementos objetivos é egoísta e ignorante. Uma peça não perde seu valor por ser ou não ser produzida a partir de uma técnica ‘x’ ou uma finalidade ‘y’. Portanto, independente de acordes elaborados ou ritmos complexos, se uma música causa frisson, se ela induz emoções e sensações, se uma música é importante pra alguém, ela é importante. E é fundamental que as pessoas aprendam a respeitar os gostos dos outros, sem se utilizar de seus próprios subjetivismos pra invalidar a experiência artística do próximo.

Não pretendo advogar o diabo defendendo a indústria pop – mercantilista, hegemônica, padronista e objetificante. Podemos elaborar facilmente inúmeras críticas válidas à música pop, mas meu objetivo é questionar a maneira que a música pop é criticada a partir de justificativas elitistas e exclusivistas.

O pop é um gênero musical libertador. Chega franco aos nossos ouvidos, sem papas na língua ou moralismos, pronto pra nos cativar e nos entreter. Aborda sentimentos que todos nós sentimos, seja na música, seja nas letras. É fácil gostar da música pop, que não tem medo de satisfazer nossos anseios artísticos mais básicos. É uma música que abre espaço pra coreografias e “bate-cabelos”. É um gênero recheado de ícones femininos – mulheres multitalentosas, que se mostram empoderadas e donas da própria sexualidade.

Assim, o pop é um gênero que contempla a comunidade LGBT. É um grito de liberdade que chega ao ouvinte LGBT como uma mensagem de aceitação e amor próprio. Faz parte da nossa rotina e é um elemento essencial da nossa cultura, sempre presente nos espaços LGBT e no trabalho de artistas LGBT. É comum ouvirmos de LGBTs sobre a maneira com que o pop permeou sua infância – como foi com uma música da Britney Spears, um clipe da Anitta, ou uma coreografia da Beyoncé, que essas pessoas se descobriram (ou foram descobertos) LGBT. Essa identificação com a música pop muitas vezes se intensifica a partir da vivência LGBT na adolescência, quando “saímos do armário” e passamos a frequentar ambientes LGBT e a ter grupos de amigos LGBT, transformando esse gênero musical de um simples gosto a um marcador social e parte relevante do nossa personalidade.

E o pop dialoga de volta com a comunidade LGBT. Hinos de empoderamento, como ***Flawless, Stronger, I´m legit, BO$$, So What, Beijinho no ombro, Roar, e tantos outros, nos incentivam a termos orgulho de quem somos, e muitas vezes são essenciais no desenvolvimento da auto-estima LGBT. Os ícones do pop são conscientes disso, e muitos defendem os fãs LGBT com garra na mídia e nas redes sociais, e eventualmente nos oferecem homenagens como Really Don’t Care ou Born This Way, que tratam especificamente da nossa luta.

O pop é parte significativa da construção da nossa identidade, tanto individual como coletiva, e isso deve ser reconhecido. É importante que pessoas LGBT e nossos aliados saibam levar isso em conta ao construir seu discurso sobre a música pop e não deslegitimar nossa cultura e vivência.

Aria Rita
  • Colaboradora de Música

Travesti e feminista. Tem 19 anos, é gaúcha, mas de coração é brasiliense. Cursa Licenciatura em Música pela UnB. Aquarianíssima. Gosta muito mais de gatos e de comida do que de homem. Apaixonada pela cor vermelha e por flores. Costumava ser uma mocinha mansa e simpática, mas os hormônios e o feminismo a transformaram num animal selvagem (sim, ela morde).

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