19 de março de 2016 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Natália Schiavon
A pressão para fingir que não se importa
Ilustra Dont Care

Um dia eu decidi que, se um determinado cara não me mandasse uma mensagem até a quinta-feira seguinte, eu desistiria. E aí peguei um avião pra outro estado, só pra poder dizer, quando ele finalmente aparecesse, que tinha até esquecido que a gente ia se falar, que – sabe como é – tinha casualmente viajado com uma amiga, que fazia muitas outras coisas da minha vida. A palavra-chave aqui é “casualmente”. Não tem nada de casual nessa história, e provavelmente não tem nada de casual em nenhuma coisa que qualquer pessoa fez em nome de ser casual.

Geralmente, é possível perceber vários indícios desse tipo de comportamento desde o início da pré-adolescência. Todas as coisas mais bizarras que fizemos pra mostrar que na verdade não nos importamos, que está tudo muito bem, que nada nos atinge, que tudo é muito leve e fluido e tranquilo. Isso não vem do vácuo, seria impossível esse impulso de não se importar ter surgido espontaneamente em tantas garotas. O que aqui está em jogo é: em muitas relações, uma das pessoas se sente obrigada a fingir que não dá a mínima, e isso é uma violência estrutural. Em relações hétero, essa pessoa é geralmente uma mulher.

Não se importar é, no fim das contas, não exigir. Deixar claro como se sente pareceria dar poder à outra pessoa, mas é o contrário. Dizer exatamente o que quer, na hora que quer, é o melhor jeito de sair desse ciclo de se sentir humilhada e tentar ser casual pra não externar o sentimento. O mecanismo é assim: primeiro vem o sentimento de inadequação, depois a vergonha, e aí a vontade de sair desse lugar de inferioridade. Do nada você foi em festas só pra confirmar no Facebook, em bares só pra postar no Snapchat e, quando menos espera, está inventando datas limite imaginárias e pegando aviões pra outros estados. Talvez assim, no dia em que a pessoa venha te procurar e você possa dizer que nem se lembra, você ganhe.

Mas você já perdeu. Nessa hora, o poder de fazer precisamente o que quer na hora que quer já passou há muito tempo. Agora você faz o que você acha que parece independente fazer. A importância que essa relação tinha na sua vida acabou de aumentar, e muito. Deixou de ser apenas uma parte do seu dia a dia e passou a ser um motivador de todas as suas ações. A necessidade de não se importar consome tudo o que vê pela frente.

Suponho que isso tudo aconteça por uma mistura de fatores – desde a pressão de ser a cool-girl até a necessidade do outro de ter controle. Porque quando a gente impõe a nossa vontade, o outro precisa lidar com isso. Quando a gente já se sentiu tão diminuída que faria qualquer coisa pra sair dessa posição – mesmo que seja, na verdade, um sofrimento gradual –, é só mais submissão e obediência. Mais sensação de que demonstrar que se importa seria humilhação.

O único jeito de recuperar o respeito a si mesma é entender que você não se colocou nesse buraco por vontade própria. Uma outra pessoa te empurrou – com um forte auxílio de toda uma estrutura social que inferioriza mulheres e seus sentimentos. Pra se sentir com poder sobre si mesma, só se dando o direito de fazer o que realmente quer. E se não for bom o suficiente pra outra pessoa, é melhor sofrer de uma vez só do que ficar se perdendo aos pouquinhos. Talvez dizer “oi, essa é a minha vontade, é isso que eu estou procurando, e eu não vou aceitar menos” seja menos autodestrutivo do que dizer “nossa, tinha esquecido que a gente ia se ver, acabei viajando”, e passar mais semanas esperando ser procurada de novo.

Teresa Soter Henriques
  • Audiovisual
  • Vlogger
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Teresa tem 18 anos, estuda ciências sociais na UFRJ, é professora voluntária de geografia e assistiu a todas as temporadas de Law&Order SVU. Em seu tempo livre faz yoga, planos pra revolução e comida vegana. É principalmente má, mas aprendeu alguma bondade com Harry Potter.

  • Alê

    Esses textos que vêm na hora certa ❤

  • Cerahtonia Euf

    Caramba mana, que tiro. “Um dia eu decidi que, se um determinado cara não me mandasse uma mensagem até a quinta-feira seguinte, eu desistiria.” foi exatamente o que eu fiz, e me arrependo bastante. Obrigada por escrever isso. <3

  • Rayane Cardoso

    Mana, obrigada por esse texto <3 Que vontade de te abraçar por isso.

  • http://ruinamoral.blogspot.com.br/ Misa Palahniuk

    Que baque esse texto!
    Fazer o que parece “independente” me jogou várias vezes em vários buracos, mas o importante no fim era que ninguém soubesse que eu estava ali, não é mesmo?
    Estou pronta pra me libertar, mostrar logo o que sinto, porque não adianta nada ser livre se o teu coração continua preso, se a mente não muda.
    Saber se dizer o que sinto sem deixar de me impor, sem permitir abuso, e o mais importante, sem me destruir por ninguém.

  • http://instagram.com/natalianachos Nachos

    Que desrespeito contigo mesma pode ser maior do que não atender tuas vontades por causa de outra pessoa?

  • Giovanna Fialho

    “Deixou de ser apenas uma parte do seu dia a dia e passou a ser um motivador de todas as suas ações.” No meu caso foi igual, so que viajei pra outro pais, eu dizia esta ok, nao me importo, mas por dentro me revirava, cada foto, check in tudo era pensando “ele vai ver, tem que ver como estou bem e feliz e mais linda longe dele”. Ate que um dia eu cansei por completo de implorar atençao, de fazer as coisas , como voce disse, pensando no que ele ia achar. Ele nao tem que achar nada, na verdade quem tinha que achar era eu. Tinha que achar meu lugar de volta a superficie pra respirar ar puro e sem medo. Eu chorei muito naquele dia em um café perto de casa. Deletei , bloquiei, me forcei a pensar e agir por mim, nao por ele.

    Nao importa o que eu faça hoje em dia é pensando em mim.
    eu sou minha maior motivadora.

  • brunno

    Isso acontece com homens e mulheres. Lógico, você descreve o lado da mulher porque provavelmente esse texto surgiu de experiências próprias. Sejam elas vividas ou observadas. Afirmo que homens vivem a mesma coisa. Como esse cenário acontece com ambos, não posso aceitar que é culpa do outro. Quem vive e se coloca que é o responsável. Não dá pra responsabilizar outra pessoa por suas ações. Por favor, culpar o outro não resolve o problema. Assuma a responsabilidade e mude sua forma de lidar com essa luta pelo poder. Essa sim, criada por nossa estrutura social. Tudo na vida é sobre sexo, menos sexo. Sexo é sobre poder.

  • Gaía Passarelli

    “O único jeito de recuperar o respeito a si mesma é entender que você não se colocou nesse buraco por vontade própria. Uma outra pessoa te empurrou – com um forte auxílio de toda uma estrutura social que inferioriza mulheres e seus sentimentos. Pra se sentir com poder sobre si mesma, só se dando o direito de fazer o que realmente quer. E se não for bom o suficiente pra outra pessoa, é melhor sofrer de uma vez só do que ficar se perdendo aos pouquinhos. Talvez dizer “oi, essa é a minha vontade, é isso que eu estou procurando, e eu não vou aceitar menos” seja menos autodestrutivo do que dizer “nossa, tinha esquecido que a gente ia se ver, acabei viajando”, e passar mais semanas esperando ser procurada de novo.” Obrigada.

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  • Eliana Morais

    Que texto maravilhoso <3

  • Douglas Morais

    Teresa, que texto maravilhoso, parei para pensar, e esse tipo de atitude que venho tomando a algum tempo, é ridículo, e vem me tomando muita energia.
    obrigado por me ensinarem a ser uma pessoa melhor para mim mesmo meninas, parabéns pelo belos trabalhos.

  • Pingback: o que eu achei de bom por aí. | loveyourglasses()

  • julia

    Logo após o termino do meu namoro de um ano eu sai no final de semana e bebi, beijei, fiz loucuras pela qual eu não me arrependia… Ate que ele passou a me procurar e falar que estava preocupado comigo que eu estava bebendo por causa dele o que não era verdade, eu simplesmente fui tentar rir sem que ele estivesse comigo, mas agora eu não consigo mais, agora eu só fico pensando nele, e no que a gente tinha. Será que eu estou errada? Será que o que eu fiz foi pra me sentir superior a ele? Eu fico gastando tempo e neurônios com isso. O pior e que tem duas pessoas que realmente gostam de mim e querem se comprometer mas eu estou completamente travada, por conta de ficar pensando no meu ex e em tudo o que ele já me fez passar, eu posso até estar escrevendo um comentário desnecessário incoerente e etc mas o fato é: Como agir em relação a isso?

  • Sabrina

    É incrível a quantidade de vezes em que agimos em função do outro e nem nos damos conta do quanto estamos nos perdendo de nós mesmas.
    O amor é fundamental, acima de todos o amor próprio!!
    http://fibrillare.com.br

  • Renata Cedraz

    Que texto maravilhoso!!!!
    VOCÊ NEM IMAGINA O QUANTO QUE ELE VEIO NA HORA CERTA.

    MUITO OBRIGADA <3

  • Nayara Gil

    No meu caso eu me esforço para realmente parar de me importar, pq é bem desgastante você mostrar que se importa, que está afim de, no minimo, um dialogo e ser simplesmente ignorada. É doloroso, principalmente quando parte de alguém que até então dizia sentir o mesmo por você. Eu tento sempre manter a guarda alta, pq todas as vezes que baixei minha guarda, eu tive que fugir antes de ser tarde demais. É desgastante viver nessa pressão de demonstrar, mesmo quando o outro se faz indiferente. E se abro mão, saio como errada. É um dilema muito conflitante na minha cabeça

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.