1 de novembro de 2015 | Música | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
A relação entre artistas negros e premiações musicais

Começo esse texto falando que eu, como mulher branca, talvez não seja a melhor pessoa para discutir sobre o assunto. Mas é um assunto que deve sim ser discutido e, caso eu cometa alguma falha, já peço desculpas de antemão.

Já é sabido que artistas negros enfrentam um grande preconceito por parte da indústria fonográfica; o VMA, evento que premia videoclipes comandado pela MTV estado-unidense, por exemplo, demorou 11 anos para entregar o prêmio de melhor videoclipe do ano, o mais esperado da premiação, para um artista negro. Isso mesmo. A premiação começou em 1984, e a primeira vez que um artista negro ganhou o prêmio foi em 1995, com a música Waterfalls, da banda de garotas TLC.

Desde então, foram exatas 32 premiações. Oito artistas negros, em 31 anos, conquistaram o prêmio. Foram eles: TLC, em 1995; Lauryn Hill, em 1999; Lil Kim e Mya (juntamente com Christina Aguilera e Pink), em 2001; Missy Elliott, em 2003; OutKast,em 2004; Rihanna, em 2007 e 2012; e Beyoncé, em 2009.

Além disso, temos outros exemplos. Nenhum artista negro ganhou o prêmio de melhor videoclipe de Pop em quinze anos de existência da categoria. NENHUM. Mesmo com artistas como Beyoncé, Rihanna e Nicki Minaj, esse prêmio nunca foi entregue a um artista negro.

Em 2009, Taylor Swift, então pouco reconhecida, ganhou o prêmio de melhor videoclipe feminino, com a música “You Belong with Me”. No mesmo ano, Beyoncé concorria pela mesma categoria com o videoclipe de “Single Ladies”. Quando foi receber seu prêmio, foi interrompida por Kanye West, que disse que aquele prêmio deveria ser da Beyoncé e não dela. Lembro bem desse momento; vi a premiação ao vivo e me recordo de ter criticado Kanye West. Hoje, seis anos depois, eu consigo enxergar que a crítica dele não foi à Taylor diretamente, e sim à uma indústria que esquece artistas negros e que tende a valorizar somente o trabalho de artistas brancos. A fala dele não foi uma ofensa, e sim um protesto.

Alguns anos se passaram e, em 2015, quando os indicados à cada categoria foram anunciados, mais uma surpresa: “Anaconda”, de Nicki Minaj, não havia sido indicada para o prêmio de melhor videoclipe do ano, considerada por muitos a música do verão de 2015. A artista, revoltada, resolveu desabafar no twitter, fazendo uma série de posts apontando que, caso ela fosse branca, teria sido indicada. Em um deles, ela falou que se sente cansada por mulheres negras terem uma influência tão forte na musica pop, mas raramente serem recompensadas por isso.

No mesmo ano, Kanye West subiu ao palco para receber um prêmio de artista homenageado e, ao subir para recebê-lo, falou sobre a hipocrisia da indústria fonográfica e da mídia, sobre como premiações são ridículas e não premiam quem realmente merece os prêmios, e falou também sobre as reações em relação ao episódio ocorrido no VMA de 2009.

Fato é, já passou da hora da indústria e dos prêmios de música reconhecerem os artistas negros, não só nas premiações como fora delas. Muitos apontam que há um embranquecimento de artistas negros para que eles se adequem à indústria, e isso tem que parar.

Marina Monaco
  • Colaboradora de Música
  • Social Media
  • Audiovisual

Marina tem 25 anos, mora em São Paulo, é formada em Audiovisual e cursa Produção Cultural. É apaixonada pela cor amarela, por girassóis e pela Disney. Ouve música o dia inteiro, passa mais tempo do que deveria vendo séries e é viciada em Harry Potter (sua casa é Corvinal, mas reconhece que tem uma parte Lufa-Lufa).

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