6 de junho de 2017 | Ano 4, Edição #34 | Texto: | Ilustração: Raphaela Corsi
A revolução das narrativas feministas nas histórias em quadrinhos
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As histórias em quadrinhos são modificadas e readaptadas o tempo todo, e ainda assim, nunca a presença de artistas e personagens femininas foi tão grande.

As narrativas estão cada vez mais desconstruindo estereótipos, mostrando diferentes tipos físicos e personalidades, e promovendo novos meios de contar histórias: a partir do ponto de vista feminino.

Tudo isso parece mais do mesmo discurso feminista certo? Porém, as histórias em quadrinhos narradas sob novas perspectivas revolucionaram o conceito feminista, tanto quanto o próprio feminismo revoluciona mentalidades todos os dias.

Existem muitos fatos que comprovam essa revolução. Vou listar alguns dos que tiveram maior repercussão:

1- Se você curte HQs, já deve ter lido, ou no mínimo ouvido falar de Marjane Satrapi. Marjane é uma mulher iraniana, autora e ilustradora do livro em quadrinhos “Persépolis”, no qual conta sua própria biografia, vivendo em meio à Revolução Islâmica. Claro que, quando publicou o livro, estava morando na França, mas sua história já é um grande exemplo da mudança nas narrativas.

2- As HQs têm inúmeras vertentes. Se diversificam nos gêneros, formas de narrativa, e até mesmo nas plataformas onde são publicadas.

Sabemos que com a internet, criar e publicar seu próprio conteúdo ficou cada vez mais fácil, e por isso, alguns tipos de quadrinhos, como as tirinhas e webcomics ficaram mais populares. As tirinhas sempre foram famosas, mas na era da informação rápida e limites de caracteres, passaram a se destacar mais pela eficácia em transmitir uma ideia. As webcomics passaram a existir com a internet, e elevaram as HQs a outro patamar: permitindo histórias animadas em gif, vídeo ou flash e aumentando o alcance do público, que já não precisa ir até uma banca ou livraria para garantir um exemplar.

Por causa disso, mais mulheres começaram a escrever e ilustrar histórias, ganhando voz, aumentando a representatividade feminina e inspirando outras pessoas a produzir.

Alguns exemplos são Sirlanney (Magra de Ruim), Lovelove6 (Garota Siririca), Bianca Pinheiro (Bear e Dora), Bruna Morgan (Universo em Bolha de tinta), Cecilia Ramos (Cartumante), Rebeca Prado (Navio dragão), entre MUITAS outras.

3- Representatividade importa porque imagens valem mais que palavras. Conforme os movimentos LGBT, de luta racial e feminista foram ocupando espaços e ganhando voz, o termo “representatividade” passou a ser mais discutido. Se antes, o campo das histórias em quadrinhos era dominado por artistas homens, numa época em que a diversidade era reprimida, era costumeiro ver personagens femininas mal construídas (personalidade fraca e sem passado definido), hiper-sexualizadas e altamente estereotipadas, a busca pela representatividade veio como um jeito de derrubar os conceitos que estas narrativas se empenharam em construir.

A representatividade é difícil de ser explicada a quem consegue encontrar elementos com que se identificar, então vamos exemplificar um pouquinho: Ao se identificar com uma personagem que supera diversos obstáculos, uma pessoa se sente motivada a lutar contra os limites impostos e se superar. Se uma menina negra lê uma história onde todas as personagens consideradas heróicas são brancas, ela tende a dissociar sua própria imagem, ou buscar se projetar nas personagens, distorcendo a visão que tem de si mesma.

4- Nem todas estas novas formas de narrativas protagonizadas por mulheres são feitas por mulheres. Artistas homens, como Craig Thompson, e o brasileiro Liber Paz, exploram o ponto de vista feminino de forma sensível, distinguindo suas personagens das antigas personagens construídas de forma errônea, conforme já foi dito. Dos livros de Craig Thompson que abordam estas narrativas: podemos citar “Retalhos”, e principalmente “Habibi”, em que a protagonista se revela complexa e enfrenta dificuldades por conta própria. Assim como no livro “as coisas que Cecilia fez” de Liber Paz, no qual a protagonista foge aos estereótipos.

5- Não bastando as múltiplas inovações com que a ideologia feminista contribuiu para os quadrinhos, algumas discussões foram levantadas pelos próprios leitores da Marvel e da DC comics, tanto que viraram notícia há alguns anos. A personagem da Viúva Negra foi a única protagonista presente no filme “Os vingadores” que não teve um filme próprio. Hoje ainda há especulações quanto ao assunto. Mesmo Mulher Maravilha demorou muitos anos até poder ganhar um remake do antigo filme.

Outra discussão surgiu com a nova imagem da Batgirl, repensada pelos roteiristas Cameron Stewart, Brenden Fletcher e pela ilustradora Babs Tarr. Imaginada como uma adolescente moderna, atraiu novas leitoras mas dividiu opiniões quanto à história.

Em meio à tantas mudanças, o que podemos perceber é que sempre dá pra tentar um pouco mais. Há muito preconceito, mas também há muita gente empenhada em fazer as coisas acontecerem. Espero que você, mulher, se sinta representada por alguma personagem que te inspire, seja ela real ou fictícia. Espero também que você seja a personagem principal da sua própria narrativa.

Raphaela Corsi
  • Ilustradora

Raphaela Corsi, curitibana, formada em artes visuais, desenha desde que se entende por gente. É ilustradora mas também trabalha com pintura, escultura, graffiti, animação, quadrinhos, fotografia e o que mais tiver vontade. Publica seus trabalhos sob o pseudônimo Karmaleão. É leitora assídua de histórias em quadrinho e de assuntos esotéricos, refletindo tudo isso na sua arte.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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