11 de setembro de 2015 | Saúde | Texto: | Ilustração: Isadora M.
A saúde da mulher negra

Alguns podem não saber, ou talvez não se importar, mas o fato é: é mais que inegável que questões raciais e de gênero afetam, e muito, a qualidade de vida e bem-estar. Por conta disso, mulheres negras têm de enfrentar uma realidade de exclusões e privações. Menor salário, maior responsabilidade no sustento familiar, menor educação e maior índice de desemprego.

Algumas das consequências dessas barreiras são as dificuldades no acesso à saúde e o fato de que essas mulheres estão no topo dos piores índices nas questões como aborto e mortalidade materna.

Dentro de instituições da saúde, a discriminação já é percebida na recepção, sobrando para elas um atendimento desigual, causado por preconceitos perpetuados há séculos, que afetam a forma como são vistas pelos profissionais. Não são poucos os desabafos de mulheres que receberam menos anestesia do que deveriam, que deixaram de receber medicação adequada para diminuir sua dor e que demoram mais tempo para conseguir vagas em maternidades. E sabem o que costuma estar por trás disso? A preconcepção de que elas são mais resistentes às dores do que pessoas brancas e o fato de que, no geral, pretas e pardas tem menor escolaridade (e nós sabemos que um acesso maior à educação de fato diminui os riscos de um mau atendimento), causando para elas um acesso mais precário na atenção pré-natal e no parto.

Para ilustrar essas situações, podemos pegar estatísticas fornecidas pela campanha ‘’SUS sem Racismo’’:

60% das vítimas de mortalidade materna no país são negras

27% tiveram acompanhamento durante o parto. Em relação às mulheres brancas, esse número sobe para 46,2%

62,5% receberam orientações sobre a importância do aleitamento materno. Mulheres brancas, 77%.

Esses dados nos fazem ter ideia do que ocorre nesses ambientes, mas é importante termos em mente que isso vai além de corporações e instituições. Essa violência é também garantida pelo Estado. Quem de vocês acham que são as maiores vítimas da ilegalidade do aborto, por exemplo?

Se há um acesso desigual em saúde, as coisas pioram quando pensamos em mulheres que foram encaminhadas após passarem por um aborto realizado de forma insegura. Sabemos que não são essas mulheres as que têm maiores condições de realizá-lo de forma segura e eficaz.

Dá também para perceber que esse tema está em consonância com a questão da mortalidade materna, que é maior entre mulheres negras e indígenas. Certas regiões do Brasil revelam taxas que estão em equivalência com países pobres do continente africano.

É preciso reconhecer, analisar e lidar com essas questões de uma maneira que não seja superficial, levando em conta as especificidades dessa população, como o fato da probabilidade de casos de hipertensão, anemia falciforme e diabetes tipo 2 serem maiores entre a população negra.

Para finalizar, acho justo também trazer que estratégias têm sido implementadas para tentar mudar essas situações acima. Como já citei, além da campanha ‘’SUS sem racismo’’ (que, vale dizer, foi duramente criticada pelo Conselho de Medicina, porque, segundo a classe, é racista. Ora, quer dizer que reconhecer as disparidades entre negros e brancos é ser racista? E os dados, eles também acreditam que são forjados e que vivemos em uma democracia racial? Vamos acordar).

Temos também conquistas trazidas através de movimentos de mulheres e do movimento negro, que pressionaram e impulsionaram a criação de ferramentas como a Política Nacional de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PNAISM), a Atenção à Saúde das Mulheres Negras, criada em 2005, e a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, que implementa a discussão do racismo na saúde e fornece capacitação para os profissionais da área. (Dica: alguns desses cursos são gratuitos e online, eu até consegui fazer um deles esse ano.)

Reconhecer que não estamos em uma democracia racial é o primeiro passo para que possamos ser capazes de elaborar e também de cobrar políticas que tenham como objetivo a transformação dessa realidade. Pessoas negras importam, mulheres negras importam. Merecemos respeito, dignidade e, assim como todos, um acesso à saúde despido de preconceitos.

Para quem quiser mais informações acerca de dados citados acima, podem acessar esses links:

  1. http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,pretas-recebem-menos-anestesia-imp-,703837
  2. http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nac_atencao_mulher.pdf
  3. http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_saude_populacao_negra.pdf
  4. http://www.redesaude.org.br/home/conteudo/biblioteca/biblioteca/normas-tecnicas/010.pdf
Amanda Lima
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Se Liga

Amanda, 22 anos, mas com carinha de 15. Ama o significado de seu nome, mas prefere que a chamem de Nina. Psicóloga e militante feminista, sabe que conhece ainda tão pouco e por isso tem uma sede muito grande em conhecer mais. Mais da vida, mais do mundo, mais de tudo. Nutre um amor incondicional por Beyoncé e, nas horas vagas, sonha em poder mudar o mundo.

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