8 de fevereiro de 2017 | Se Liga | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
“A Seat At The Table” uma comunicação não violenta na perspectiva negra.

A Seat At The Table é o terceiro álbum de estúdio de Solange Knowles, com esse trabalho a cantora recebeu sua primeira indicação ao Grammy de Melhor Performance pela canção Cranes In The Sky, o álbum intimista e bem pessoal se torna praticamente uma prova que se voltando para nós mesmos conseguimos, nós negros, dialogar com o todo. Para negros isso cada vez se torna mais essencial: não basta a luta coletiva, é preciso vencer nossas batalhas pessoais psicológicas. Nós estamos doentes. Nós estamos cansados.

I’m weary of the ways of the world | Eu estou cansada dos caminhos do mundo.

Letra de Weary

Nós estamos cansados enquanto negros dos caminhos dos mundos. Nós estamos cansadas enquanto coletivo dos caminhos do mundo. Nós estamos cansadas enquanto indivíduos dos caminhos do mundo. O que mudou de anos para cá, em relação a exposição das mazelas raciais, é que mulheres negras não tem mais medo de se dizerem cansadas se a ideia da força que tanto nos persegue, também nos desumaniza. O que Solange faz em A Seat At The Table é usar nas cores, capa, tom de voz e melodia uma certa delicadeza e vulnerabilidade que não existe em suas letras fortes e diretas:

All my niggas let the whole world know. Play this song and sing it on your terms. For us, this shit is for us don’t try to come for us | Todos os meus crioulos, deixem o mundo inteiro saber. Toque esta canção e cante-a do seu jeito. Para nós, esta merda é para nós, não tente vir contra nós.

Letra de F.U.B.U.

O uso da palavra nigga não é à toa, não só pelo seu tom agressivo e pejorativo. Não é uma ressignificação de Nigga e sim a reafirmação da ideia pautada pela branquitude que essa palavra exprime: Todos vocês pretos. Ela reforça um sentimento de união e identidade coletiva obrigatório na vida de um negro numa sociedade racista. Por mais que sejamos indivíduos o racismo sempre nos enquadrou como coletivo a ser combatido, e é diante disto que negros entendem que apenas agindo coletivamente poderemos vencer essa sociedade. Mas, isso não pode negar nunca a nossa subjetividade. Esse é o caminho que vamos aos poucos trabalhando, e acho que o fato de Solange Knowles ter se apropriado de outra estética, ritmo e linguagem para dizer o mesmo que sua irmã a famosa Beyoncé Knowles diz em Lemonade. Diz como é possível coexistirmos com excelência de discursos nas nossas subjetividades que buscam o comum.

Diariamente nossas vidas são ceifadas quando se soma mais um número para os dados sobre genocídio, mas também quando se cria uma comunidade inteira de sujeitos que tem que estar sempre pronto para o pior. Falar sobre racismo se torna uma obrigação ao se nascer negro numa sociedade racista. E ao longo vamos criando maneiras de resistir e existir nesses contextos:

“Não chore na frente deles.”

Ao longo da sua vida negros aprenderam e entenderam que se mostrar forte é resiliência. Fingir que não nos importamos quando estamos exaustos é resistência. Contudo a premissa ensinada desde cedo por nossos pais e amigos negros é uma herança que tira nossa humanidade ao nos conferir a premissa de que somos capazes de lidar com tudo sozinhos e sem sermos impactados. A nossa respostas à desumanização e constante violência é entendida pela branquitude como AGRESSIVA e RAIVOSA. Em 1981 no livro Sister Outsider a intelectual e feminista Audre Lorde em seu texto “O uso das raivas: mulheres respondendo ao racismo” coloca:

“Minha resposta ao racismo é raiva. Eu vivi com raiva, a ignorando, me alimentado dela, aprendendo a usá-la antes de ela destruir minhas visões, durante a maior parte da minha vida. Uma vez respondi em silêncio, com medo do peso. Meu medo da raiva me ensinou nada. Seu medo da raiva irá te ensinar nada, também. (…) Mulheres respondendo ao racismo significa mulheres respondendo à raiva; a raiva da exclusão do privilégio inquestionável, de distorções raciais, do silêncio, maltrato, estereótipo, defensividade, errar nomes, traição e cooptação”.

Por muito tempo mulheres que partem de uma visão de privilégios e da branquitude vêm usando no feminismo de que as atitudes negras são deveras agressivas. O uso da então “comunicação não violenta” vem sendo espalhada como uma necessidade nos grupos de mulheres. Marshall Rosenberg é entendido como o “pai” da comunicação não violenta, nessa minha análise eu preciso pautar que a comunicação não violenta nasce portanto de um homem branco em situação de privilégio de classe. É fato que homens como Marshall gozam da possibilidade de não responder com violência a fatos e até de se dizerem empáticos na nossa sociedade, quando independente da sua atitude individual a estrutural social já lhes favorece em todos os sentidos. A concepção de que vivência é importante pautada no discurso de feministas, principalmente negras, é que infelizmente no fim tudo que pregamos sempre partirá também da nossa perspectivava pessoal sendo influenciada por tal.

Mulheres brancas e de classes sociais elevadas muitas vezes se dizem vítimas de uma opressão comum, que não nos afeta de forma igual. Então é claro que estando num outro patamar social elas vão gozar da possibilidade de não serem vistas como violentas e de se comunicarem de forma não violenta. É essa visão de que são tão oprimidas quanto as demais que também precisamos desconstruir, fato que a intelectual e feminista bell hooks crítica em seu texto Mulheres Negras Moldando A Teoria Feminista:

“O sexismo, como sistema de dominação, é institucionalizado, mas nunca determinou de forma absoluta o destino de todas as mulheres nesta sociedade. Ser oprimida significa ausência de opções. É o principal ponto de contato entre o oprimido(a) e o opressor(a). Muitas mulheres nesta sociedade têm escolhas (por mais inadequadas que possam ser).”

E continua identificando como esse é um comportamento de mulheres brancas com privilégio de classe:

“Se as mulheres negras de classe média tivessem começado um movimento em que designassem a si mesmas como “oprimidas”, ninguém as teria levado a sério. Se tivessem estabelecido fóruns públicos e dado palestras sobre sua “opressão”, teriam sido criticadas e atacadas por todos os lados. Não foi o que aconteceu com as feministas burguesas brancas, porque elas podiam apelar a um grande público de mulheres como elas, ávidas para mudar a sua sina na vida. Seu isolamento em relação a mulheres de outros grupos raciais e de classe não oferecia base comparativa imediata pela qual testar suas hipóteses de opressão comum.”

A comunicação não violenta se baseia em quatro pilares, como explica resumidamente esse texto. Sempre que me aprofundo sobre essa visão de possibilidade de ampliação do diálogo e empatia pela comunicação me vejo reproduzindo um pensamento que nasce de uma ótica branca e que não consegue interseccionar a realidade e vivência racializada. Ainda mais quando negros tem a possibilidade de histórico semelhante a de outros grupos raciais, mas que tem peculiaridades que nos fazem chegar aqui na situação em que estamos socialmente.

Por mais que eu me relacione com pessoas brancas, pelos exemplos históricos, eu sei que a possibilidade de uma pessoa branca em um situação de racismo me culpar é muito maior do que a possibilidade de apoio. E, infelizmente, isso até mesmo dentro de grupos familiares. A minha possibilidade plena de empatia vem de pessoas que passam por situações de racismo. Então, sim, Solange tem razão: Essa merda é para nós. E não poderia ser diferente. Comunicação não violenta funciona no grupo de iguais, mesmo que ela diga não ser para isso. Ela funciona quando estamos numa situação parecida e assim conseguimos dialogar sem culpa, sem julgamento e sem raiva. Numa sociedade de raça, classe e gênero moldando papeis sociais eu não me vejo facilmente dialogando com brancos sem ser vista como violenta, mesmo que não haja agressões da minha parte. A minha existência é violenta. E se torna mais violenta ainda quando saio do papel social imposto para a negra no racismo: o silêncio na subalternidade.

If this white man offer me a million dollars. I gotta be worth forty, or fifty. | Se este homem branco me oferece um milhão de dólares. Eu devo valer quarenta, ou cinquenta.

You know, going to the white lady’s house. Where my grandmother lived at. And say: Look, you don’t have to work here. No more Big Mama! We got more money. Than the people on St. Charles Street. | Você sabe, ir para casa da senhora branca. Onde minha avó morava. E dizer: Olha, você não tem que trabalhar aqui. Não mais, vovó! Temos mais dinheiro. Do que as pessoas na Rua St. Charles

Letra de Interlude: For Us by Us

Sendo negros, estamos a todo momento não só lidando com a hipocrisia e com cinismos, mas também com a raiva e a violência constante. A comunicação não violenta, para nós, é vendida como uma possibilidade de ampliação de diálogo. Mas, não é fato que nossa existência  mesmo que muda é vista como violenta numa sociedade que criou políticas públicas para nossa não existência, genocídio em massa e extermínio?

It’s such beauty in Black people. And it really saddens me. When we’re not allowed to express. That pride in being Black. And that if you do, then it’s considered anti-white. No! You just pro-black. | Há tanta beleza em pessoas negras. E isso realmente me entristece. Quando não estamos autorizados a expressar. Esse orgulho em ser negro. E que, se o fizer, então ele é considerado anti-branco. Não! Você só é pró-negro.

Letra de Interlude: Tina Taught Me

Solange usa da fotografia, cenário, figurino para reafirmar seu apreço e visão estética. O termo estética, de origem grega, nasce de uma perspectiva não negra e até hoje é reafirmada como tal. O que se entende como belo e quem ainda é visto como único possível por criar o belo são as pessoas brancas, dado a forma como a estrutura da branquitude age. É na estética, somada as melodias nos contam uma história que tem beleza, mas que não é só isso.

Ela não está fazendo isso para mostrar que consegue, mas para todos nós. É um presente para negros, já que nas letras  vai contando uma narrativa do que é ser negro atualmente, desde as questões psicológicas, afetivas, violências sistêmicas, o racismo que se mantém mesmo nos espaços de poder. Tudo interligado com frases de pessoas que ela admira, e que só reafirmam que Solange realmente acredita na beleza entre negros, que muitas vezes nem nós conseguimos apreciar e acreditar. Talvez esse presente dado por ela diz muito de como, nós negros, precisamos reafirmar entre nós a não violência. Uma comunicação não violenta nos moldes negros, para nós.

O uso da raiva como forma de defesa e comunicação com quem nós dá a raiva é, sem dúvidas, uma necessidade que ainda se mantém. Mas, a possibilidade de afeto, amor, troca, empatia e compaixão entre nós também. E não porque somos “irmãos”, mas porque dentro dessa sociedade em que o racismo molda nossa individualidade é só entre nós que conseguiremos a compreensão para isso. É preciso avançar escutando mulheres negras, ressignificando o que é ser forte, ampliando a nossas discussões sobre masculinidade, quebrando o silêncio para o que nos machuca, não tolerando a violência externa e interna que reproduzimos, e evidenciando que a emancipação negra só é possível se a violência entre nós também deixar de existir  um fato que muitos negam, mas que também nos ceifa, principalmente psicologicamente.

They don’t understand. What it means to me Where we chose to go. Where we’ve been to know. Eles não entendem.| O que significa pra mim. Por onde escolhermos ir onde estivemos que estar para saber.

                        Letra de Don’t Touch my Hair

Cada vez mais entre negros, vai se permitindo atitudes tóxicas e críticas pessoais violentas, que saem do campo da denúncia de comportamentos nocivos. E acabam deslegitimando e barrando, principalmente as mulheres negras, de avançarem mais no campo coletivo e individual. Dos ativistas aos não-ativistas, a nossa mentalidade continua colonizada e escravagista de uma forma que muitos acham que “negar” dinheiro, o espaço universitário, a acesso a informação e até a visibilidade é uma revolução e não o nosso lugar comum construído pelas estruturas que privilegiam o sujeito branco. É por isso que talvez uma das frases mais importantes se Solange seja:

Don’t clip my wings before I learn to fly. I didn’t come back down to Earth to die. | Não corte minhas asas antes de eu aprender a voar. Eu não voltei à Terra para morrer.

Letra de F.U.B.U.

Stephanie Ribeiro
  • Colaboradora de Artes

Arquiteta e Urbanista, ativista feminista e escritora. Contribui com textos e artigos para diversos meios, além de participar de palestras e eventos. Trabalha em seu livro a ser lançado pela Cia das Letras em breve.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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