17 de junho de 2014 | Ano 1, Edição #3 | Texto: , e | Ilustração:
O que pouco nos contam, mas precisamos saber: a vagina
Ilustração: Isadora Carangi.
Ilustração: Isadora Carangi.

Ilustração: Isadora Carangi.

*Texto de Bia quadros, Rebecca Raia e Isadora Maldonado

[N.E.: Nós aqui da Capitolina sabemos que nem todas as garotas têm vagina e que nem todas as pessoas que têm vaginas são garotas, e procuramos sempre respeitar e incluir pessoas trans* e não-binárias. Este texto especificamente, entretanto, trata de questões relacionadas à vagina (e, no primeiro tópico, sobre masturbação, falamos de garotas que têm vaginas), porque sentimos que publicações para jovens costumam tratar a vagina como assunto tabu, e que, numa edição sobre corpo, não podemos ignorar este tema.]

Masturbação, por Beatriz Quadros

Toda vez que uma menina de 12 anos passava a mão nas suas partes intimas sentia lá dentro, não se sabe aonde, uma sensação boa. Fazia escondido – sempre disseram que tocar naquele local não era bacana, era como se fosse uma zona proibida. E mesmo sentindo alguma coisa parecida com libido ao presenciar na TV alguma cena de sexo, se sentia na margem de suas amigas, que não falavam desta sensação estranha.  Então certa vez, sozinha, resolveu procurar o que lhe trazia prazer de vez em quando. Tocou, como se estivesse desvendando um mistério, naquela região proibida. E depois de 30 segundos sentiu uma energia passando pelo seu corpo, uma espécie de tremelique; seus músculos se contraiam de forma que não tinha como haver um controle. E, imediatamente, uma sensação de satisfação, parecida com aquela de comer chocolate ou ir ao banheiro depois de horas se segurando. Mas era diferente.

Para chegar lá, a menina não estava pensando em comer ou numa privada. Ela estava pensando, resgatando da sua memória, aquelas cenas de nudez que tinha visto escondido. E como a sensação era boa (e agora sabia de onde vinha), passou a fazer isso o tempo inteiro. Qualquer hora era hora para… bem, você sabe. E não precisava de estímulo visual, a imaginação voava longe.

Não, você não leu errado, estou relatando uma história de uma meninA. Normalmente, lemos/vemos sobre meninos, que, na idade entre 10 a 17 anos, é extremamente normal que haja este desespero todo de se masturbar a qualquer hora, que eles assistem pornografia o tempo inteiro. E as meninas? Ninguém fala, ou, se fala, é como se estivesse contando um segredo muito sujo. E quando são por um acaso descobertas (pelos pais, é o mais comum), há uma recriminação, de que isso é errado, que não pode, algo que com meninos não acontece (alias, até há um incentivo, comprando revistas de mulheres peladas, por exemplo). Mas por quê? Sempre é dito que, para a mulher se sentir satisfeita no sexo com seu parceiro, ela precisa se conhecer primeiro. E como isso acontece? É por penetração com os dedos? É esfregando em algum lugar? É com vibrador? Só se deve concentrar o conhecimento na região da vagina??? Não, ninguém ensina uma menina a fazer isso. Não há um manual justamente porque é constrangedor falar sobre estas coisas.

Para começar a falar do assunto proibido, deve-se entender que é extremamente normal você, menina, se masturbar. E que quase todo mundo tem um jeito de encontrar prazer. Ou seja, não há um jeito certo de se masturbar (como acontece com os meninos). Cada corpo feminino é diferente do outro. Tem aquelas que apenas esfregando as coxas numa na outra conseguem chegar lá. Outras que mexendo os dedos num ritmo constante no clitóris gozam. E aquelas que precisam de penetração, com um ou 2 dedos, no canal vaginal. Aí que esta a importância de se conhecer, porque só você saberá onde é o ponto certo de chegar ao orgasmo. Aquela coisa de “ponto g feminino” varia, sim, de mulher para mulher. Porque tem aquelas para quem o clitóris não é a melhor saída e tem aquelas que precisam ser um pouco violentas. Tocar-se é a melhor solução.

Claro que não se deve fazer isso em qualquer lugar, mas temos a vantagem de podermos ser discretas. Não é incomum aquelas que chegam lá apenas com o poder do pensamento (e uma esfregação básica nas mãos ou em algum outro lugar que dê para fazer isso). A nossa vagina tem um monte de terminações nervosas (o clitóris é o que mais tem por isso para a maioria das mulheres é o principal ponto de prazer extremo), então apenas se esfregando e flexionando pode se chegar a felicidade sem que haja a penetração. É importante ficar um tempo a sós, você e seu corpo, para descobrirem novas sensações.

No começo, o orgasmo não é claro. Como o canal da uretra é pertinho do clitóris, ao se aproximar da sensação de prazer dá uma enorme vontade de fazer xixi. Isso é extremamente normal. Não fiquem envergonhadas se, no momento que estão quase lá, a vontade de ir ao banheiro seja maior do que a de terminar. E o que pensar neste momento? Novamente, varia para cada menina. Não ache você que porque só consegue ir ao céu e voltar pensando numa situação (ménage, ficando com menina, sexo oral, transando no banheiro da escola) que é anormal, já que se ouve muito falar que a maioria só consegue pensar em alguma pessoa próxima dela. A sua fantasia é a sua fantasia, e apenas na prática encontra a certa.

Vaginismo, por Rebecca Raia

Vaginismo é a contração involuntária dos músculos do assoalho pélvico ao redor da vagina. Quando existe a tentativa de penetração, a mulher pode sentir dores, ardências ou pode ser até impossível o pênis entrar. Essas dores podem ser causadas por motivos não-físicos (medo, ansiedade, problemas de relacionamento…) ou motivos físicos: doenças pélvicas, traumas físicos e até falta de lubrificação.

Comecei a intimidade sexual com 22 anos, um pouco mais tarde do que a maioria das minhas amigas. Quando a penetração vaginal com o meu parceiro pareceu impossível, comentei com uma ginecologista que descartou que havia alguma coisa de errado, disse que era normal ser “apertado” no começo – o que é verdade. Mas eu (e meu parceiro) sabíamos que tinha alguma coisa acontecendo. Não era só apertado: era doloroso e parecia impossível.

Graças a ajuda de uma amiga que cursa medicina, fui encaminhada para médicos que me diagnosticaram com vaginismo e explicaram que afeta muitas mulheres. Algumas mulheres tem vergonha de sentirem dor, outras acham normal e outras desistem de sexo. O tratamento inclui terapia com psicólogo e psiquiatra, acompanhamento ginecológico e fisioterapia e tem altas chances de sucesso – no meu caso, por exemplo, houve sucesso depois de apenas alguns meses.

Durante o tratamento, eu aprendi a importância das preliminares para o desejo feminino, a importância de estar lubrificada (e, caso não esteja, usar lubrificante) durante a penetração e os formatos variados da anatomia feminina, que influencia em como funcionamos durante o sexo.

Se você se identificou com essa dor, mesmo que seja uma dorzinha: converse com a ginecologista. Sempre lembre que sexo é para ser prazeroso. Se alguma coisa parece errada, procure ajuda médica. Às vezes, a solução pode ser um lubrificante ou uma posição sexual diferente, mas se não for: respira fundo que o tratamento existe e é possível. :)

Ginecologista, por Isadora Maldonado

Mas e mais sobre o ginecologista? Não só o vaginismo, como uma variedade de outras questões, devem ser tratadas com esse profissional. O ginecologista é quem vai te ajudar a levar uma vida sexual saudável e segura e a escolher e receitar o seu melhor método anticoncepcional, além de ser um profissional que pode te tirar dúvidas, diagnosticar e tratar problemas com a sua menstruação, cuidar das suas vacinas (como a do HPV), pedir exames importantes. Por isso é importante ir ao ginecologista antes mesmo de começar a sua vida sexual!

Uma das dicas é pesquisar bastante. Talvez uma amiga ou parente possa indicar um profissional de confiança, talvez você se sinta mais confortável com ginecologistas mulheres, talvez não. O jeito é procurar. Se você não tem plano de saúde e não pode pagar por um ginecologista, procure postos de serviço à saúde mulher no seu estado ou cidade.  Um profissional em quem você confie é essencial.

Até achar essa pessoa, muitas meninas passam por situações bastante desagradáveis. Desde o constrangimento, desrespeito a sua orientação sexual ou moralismo e até quebra do sigilo médico-paciente. Também é importante que seu ginecologista preze pela sua saúde mental e é muito comum que isso não aconteça.

Se você se sentir desconfortável ou desrespeitada, ou se sentir que suas necessidades não estão sendo atendidas, não hesite em procurar outro profissional! Você também pode pedir que alguma amiga te acompanhe se você não se sentir segura na primeira consulta. O importante é não deixar de ir ao ginecologista.

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

Rebecca Raia
  • Coordenadora de Artes
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora Editorial

Rebecca Raia é uma das co-fundadoras da Revista Capitolina. Seu emprego dos sonhos seria viajar o mundo visitando todos museus possíveis e escrevendo a respeito. Ela gosta de séries de TV feita para adolescentes e de aconselhar desconhecidos sobre questões afetivas.

Isadora Maldonado
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Isadora N., 21.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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