28 de outubro de 2015 | Ano 2, Edição #19 | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
A vida acaba aos trinta?

Qualquer uma que já tenha enfrentado aquela crise de se sentir correndo contra o relógio da vida deveria assistir a Frances Ha. O longa dirigido por Noah Baumbach mostra a Frances do título já no finalzinho dos seus vinte anos. Dançarina, ela não está muito contente com sua vida: foi meio abandonada por sua roommate e melhor amiga, que resolveu morar no Japão com o namorado meio pateta e muito bem-sucedido, anda trabalhando em empregos mal pagos sem conseguir sucesso em sua profissão dos sonhos e, como cerejinha do bolo de fracasso, segue, como classifica um amigo meio escroto, undateable, ou seja, não-namorável. Certamente, a vida de Frances não está nada parecida com o que ela havia sonhado para seus vinte-quase-trinta anos.

Acho que ninguém curte muito um spoiler, mas vou ter que contar o final do filme – sem detalhes, juro – pelo bem narrativo deste texto: as coisas se ajeitam. Não, Frances não se torna milionária, não vira a maior bailarina do mundo, não se casa e não dá para saber se aquilo é um feliz para sempre. Mas ela se arranja, e encontra algo que não é aquilo que se ensina por aí como sucesso, mas que funciona para ela.

Nossos supostos prazos de validade são uma coisa que assusta qualquer um, né? Morrer vamos todos, claro, mas estou falando de uma coisa menos fatalista – essa ideia meio Super Mario que diz que precisamos passar por fases e derrotar chefões na vida, tudo no tempo certo, até que, em algum momento, a gente finalmente salva o jogo. Primeiro você fecha a fase alfabetização, aí você vai pra fase escola, depois pra fase faculdade, depois a fase trabalho, até que um dia – antes dos trinta, obviamente -, você é rica, com uma bela família e viaja pra Europa todo final de ano. Não conseguiu passar alguma fase, ou nem mesmo quis? Queridinha, a senhora é uma perdedora mesmo, hein?

Durante um bom tempo – e devo dizer que o pensamento ainda volta para me assustar dia sim, dia não -, eu pensei que, não importa o que você faça, só será genial se for feito até os vinte. Depois disso, não fez mais que sua obrigação. É claro, então, que passei meu aniversário de 21 anos me sentindo a maior bunda mole do mundo, né? Todo mundo cantando parabéns e eu só conseguia me perguntar “cadê minha fama internacional, sabe?”.

Ridículo, eu sei.

O mais chato nessa coisa toda de querer fazer apenas coisas gigantes é que a gente não vê o que fazemos de “pequeno” e superlegal enquanto a coisa maior não acontece. Pior ainda, a gente não vê que são justamente as coisas pequenas que vão fazendo a coisa maior acontecer. É um papinho meio meritocrático que parece chatíssimo logo de cara, mas que é, na verdade, bem reconfortante. Tem um momento incrível do Hora da aventura em que alguém diz que “ser horrível em algo é o primeiro passo para ser meio bom em algo”. Então, basicamente, completar coisas grandes pede um pouco mais de trabalho e tempo do que estima a galera do Instituto de Medidas Oficiais dos Marcos de Sucesso.

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Existe uma expressão em inglês de que eu gosto muito, apesar de ser meio intraduzível, que é “having your shit together”. De maneira tosca, é tipo um “ter a vida nos eixos” mais grosseiro e, literalmente, é algo parecido com “organizar toda a sua merda”. E meu carinho pela frase está justamente nesse arzinho desequilibrado que ela passa, que parece ser a melhor forma de falar sobre quando você não tem sua shit together. E por que que eu tô falando tudo isso? Pra explicar que não importa a idade, é perfeitamente aceitável não ter sua vida ajeitada. Tão aceitável que tem até uma expressão que passa o espírito da coisa com maestria. Não importa a idade, é ok não ter sua shit together!

Se você entra na faculdade aos dezoito, se forma aos 22, tem o emprego dos sonhos aos 25 e uma casa com carro, marido e dois filhos em escola particular aos trinta, sem nenhum percalço no meio do caminho, o que é que sobra? Não te soa meio tedioso ter tudo assim tão ajeitadinho em três décadas quando a expectativa de vida sugere que você ainda vai continuar nesse mundão por mais ou menos outros quarenta anos? E por que seguir, por pura obrigação, um caminho que foi determinado sabe-se lá por quem, se tem tantas outras coisas por aí pra fazer?

Além disso, sabe essa história de que tudo está em constante transformação, blábláblá? Papo de hippie? Um pouco. Mas a gente não é a mesma coisa sempre, e o que queremos também não. Então, sempre que você se perguntar se ainda dá tempo de mudar de ideia, lembre-se: só não dá depois que você morre – o que, como já disseram as estatísticas, deve acontecer lá pelos 75. Cumprir tabela na vida nunca garantiu a felicidade de ninguém, então, quando bater a bad do “ai, meu deus, eu já tenho __ anos e ainda não completei _____, como sou bunda mole!”, dê uma respirada fundo e vá seguindo (com moderação) o conselho do Chico Buarque: não se afobe não, que nada é pra já.

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

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