9 de março de 2017 | Ano 3, Edição #31 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
A vida e a luta de Leci Brandão

Leci Brandão da Silva, ou Leci Brandão como é mais conhecida, completou em 2016 quarenta anos de carreira. Debrucei-me sobre a trajetória de vida dela por aproximadamente três anos, nos quais tive a oportunidade de entrevistá-la algumas vezes. Entendendo a importância de reconstruirmos e conhecermos histórias de mulheres negras que desafiaram o lugar que era esperado por elas em uma sociedade machista e racista, mostrando que é possível ocuparmos outras posições que não aquelas trazidas pelas estatísticas, é com muita alegria que compartilho hoje um pouco da história dessa mulher inspiradora com vocês!

Nascida em 1944, Leci recebeu o mesmo nome que a sua mãe, Dona Lecy de Assumpção Brandão, e traçou uma trajetória peculiar quando comparada a outras mulheres de sua geração. Criada em bairros do subúrbio carioca, Leci conta que o seu pai, Antônio Francisco da Silva, a influenciou muito musicalmente, enquanto ficou com a sua mãe o papel de levá-la para os inúmeros ensaios da Estação Primeira da Mangueira.

Durante a infância, Leci recebeu uma educação rigorosa. A educação foi vista pelos seus pais como uma das saídas possíveis da vida que levavam. Como sua mãe era uma espécie de zeladora de escola, Leci a ajudava a limpar as salas de aula e a vender lanches para alunos e professores. Foi então educada em meio a salas de aula.

Gostando de estudar desde cedo, ao terminar o ensino fundamental, ela passou a estudar em uma das escolas mais tradicionais do Rio de Janeiro, o Colégio Pedro II. No entanto, em 1964, com a morte de seu pai, ter estudado nessa escola não foi suficiente para que Leci conseguisse um emprego.

Ela acabava sempre sendo reprovada naquilo que chamavam de testes psicotécnicos. Entretanto, depois de um tempo, ela entendeu que os anúncios que diziam precisar de mulheres com “boa aparência” estavam, na verdade, referindo-se a mulheres brancas. Ou seja, não eram os testes que a reprovavam, mas o seu pertencimento racial.

De acordo com ela, esse período de busca de emprego com o objetivo de ajudar sua família foi crucial para que Leci mudasse sua forma de ver o mundo.  Além disso, foi também nesse momento que ela vivenciou o amor pela primeira vez. Foi, então, com um misto de um olhar crítico direcionado à sociedade, que havia sido despertado pelas experiências que vivia, bem como por ter vivido as primeiras dores em decorrência da vida amorosa, que Leci Brandão começou a compor.

Suas composições envolviam e afetavam positivamente as pessoas que estavam por perto. Após a participação em alguns programas de calouros, em 1968, ela conseguiu ir para a segunda fase do programa “A grande chance”, que à época passava na TV Tupi. Após não ter sido aprovada na última fase, Leci acabou pedindo demissão do lugar no qual trabalhava e que havia prometido promovê-la pelo bom desempenho no programa da TV Tupi, sem tê-lo cumprido.

Depois disso, ela trabalhou por um período como operária de uma fábrica. Conhecendo, posteriormente, por intermédio de sua mãe, Dona Paulina Gama Filho, que conseguiu dar um emprego para ela na Universidade Gama Filho. Na universidade, ela conviveu com figuras como Lélia Gonzalez (1935-1994), importante intelectual, política, professora e antropóloga brasileira, que nesse período lecionava na Gama Filho. Lélia foi uma das pessoas que a influenciou a prosseguir com sua carreira artística. Nas palavras dela,

Ela era uma cabeça fantástica, uma mulher extremamente moderna para sua época. Sempre vi a Lélia sendo uma mulher que já discutia toda essa questão da independência da mulher negra, ela sempre foi uma ativista, já era uma grande ativista no início dos anos 70… ela sabia que eu ia em festivais da Gama Filho, tinha ido para o programa do Flávio Cavalcanti, ela me incentivava muito.  Me incentivava sobre ser mulher negra e compor. Ela sabia que eu fazia música de cunho social.

De festival em festival, em 1970, Leci acabou vencendo o I Festival de Música da Universidade Gama Filho. Quando obteve esse resultado, Zé Branco, que era tesoureiro da ala dos compositores da Mangueira e um amigo de sua família, teve a ideia de levar Leci para a ala de compositores da escola de samba.

Leci escreveu então uma carta para os aproximadamente 40 homens que participavam da ala de compositores. Na carta dizia que entendia a Mangueira como a Universidade do Samba e que ela gostaria de aprender com eles. Em 1972, após aceitar participar de um estágio escrevendo sambas para os compositores da Mangueira, ela foi aprovada. E entrou para a história como a primeira mulher a entrar na Ala de Compositores da Mangueira.

Essa entrada para a Ala de Compositores figura como um passo muito importante na história das mulheres no samba, pois é comum que existam divisões nesses espaços, que colocam mulheres e homens desempenhando diferentes papeis. Ao entrar para a Ala de Compositores, Leci acaba sendo uma das protagonistas da participação das mulheres no samba para além das posições de musas ou dançarinas. Ou seja, ela abre espaço para que outras mulheres sejam também compositoras.

Depois da entrada de Leci na Mangueira, ela acabou fazendo bastante sucesso. Suas músicas ganharam o público e logo ela assinou contrato com uma gravadora multinacional. Tal contrato foi rescindido em 1980, porque as letras da compositora passaram a ser vistas como demasiadamente críticas pela gravadora, mas Leci não aceitou alterá-las. Leci volta a gravar em 1985, sem mudar o cunho social de suas canções.

Dentre muitos feitos, é interessante apontar que as músicas de Leci Brandão, somadas à sua desenvoltura, acabaram colocando-a no lugar de vanguarda, trazendo à tona muitos temas interessantes e polêmicos ainda na década de 1970. Ela gravou canções, por exemplo, direcionadas ao público LGBT – ou gay people como se dizia na épocajá na década de 1970. Além disso, a desigualdade social e as questões raciais também estiveram – e seguem – presentes desde o início de sua carreira.

Leci mudou-se para a cidade de São Paulo de forma definitiva nos anos 2000, pois aqui acabava encontrando mais espaço para sua carreira. Em 2010, ela aceitou concorrer pelo PCdoB e foi eleita a segunda mulher negra a ser deputada estadual de São Paulo. Ao ocupar o cargo, Leci nomeou seu gabinete como “Quilombo da diversidade” e passou a encarar a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo como mais um espaço para que negras e negros disputassem o poder e os rumos da história da cidade.

Apoiando candidaturas de mulheres e homens negros, encontros sobre feminismo, a luta por cotas raciais nas universidades estaduais paulistas, respeito a todas as formas de credo e religião, greve de professores e medidas contra a homofobia, entre outros, Leci diz ser necessário que negros e negras ocupem mais espaço na história do país. Para ela:

O empoderamento da mulher negra é algo muito importante. Não é para sermos só da secretaria afro, temos que estar nas finanças, planejamento, nos ministérios… eles acham que a gente só serve para o samba, cara! Não é bem assim.

Nesse sentido, ao retomar sua história, pode-se dizer que Leci transformou a sua carreira artística em política e a política em arte. Mostrando que mulheres negras podem estar em todos os ambientes, desde que surjam oportunidades. E é para aumentar essas oportunidades que Leci tem lutado fazendo de sua música material com potência transformadora.

Para finalizar esse texto, deixo um dos maiores sucessos de Leci Brandão, Zé do Caroço, no qual ela fala de um líder popular, lembrando-nos da possibilidade da luta e das diferentes formas de lutarmos pelas mudanças sociais.

Por último, agradeço a Leci Brandão em nome de muitas mulheres, por ela ter aberto nossos caminhos e continuar abrindo-os até hoje!

 

Observação 1: Esse texto foi escrito a partir dos desdobramentos de pesquisa feita pela autora em sua pesquisa de mestrado intitulada “A filha da Dona Lecy: história da trajetória de Leci Brandao (2016), com financiamento da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Observação 2: se você quiser ler mais sobre Leci Brandão, você encontra minha dissertação de mestrado nesse link: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-19012017-112637/es.php

 

 

Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

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