7 de setembro de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
A vida experimental de Maya Deren

Esses tempos tenho conseguido manter algumas das minhas metas em dia (óbvio que sempre tem uma hora que tudo bagunça, mas se olharmos todo o quadro, é gritante o meu esforço por organização). E dessas metas que a gente faz em momentos específicos, pelo menos duas delas eu já tinha postergado pra lá de mês e sem motivo algum: voltar a ler livros e ver mais filmes. Peguei o primeiro livro da estante (por sorte era um livro da Virginia Woolf), catei uma lista de filmes que sempre quis assistir e sabe lá por qual razão eu nunca o fiz. Escolhi um compilado de filmes da Maya Deren. 
Há um tempo, na casa de um conhecido, lembro de ter visto o documentário sobre ela, mas acho que não conseguia entender a dimensão de tudo aquilo. Maya Deren bateu forte no meu coração e agora eu quero que bata forte no coração de todo mundo, porque ainda não é o suficiente.

Certamente Deren não foi a criadora do movimento experimental no cinema, mas foi ela que fez um dos filmes mais estudados, analisados e, até ouso dizer, um dos mais assistidos do movimento. Meshes of the Afternoon saiu em 1943, seu primeiro filme, foi feito com a ajuda do marido, Alexander Hammid, depois que Maya Deren juntou um dinheiro de herança e comprou uma câmera de filmar de segunda mão. 
Maya era incansável. Ela escrevia, dirigia, filmava e distribuía todos os seus projetos. Há quem diga que faltava consciência feminista em seus filmes (eu discordo), mas é inegável que ela foi a primeira autora e diretora de cinema da América que desafiou os seus contemporâneos naquele mundo tão sedimentado que era (é) o cinema americano, além de passar bem longe dos temas centrais hollywoodianos. 

Nascida na Ucrânia no significativo ano de 1917 como Elenora Derenkowsky, filha de um psiquiatra e uma artista. Saíram da Rússia por questões políticas direto para os Estados Unidos, assentaram-se em Nova York como os Deren. 
De família privilegiada, quando adolescente frequentou colégio interno na Suíça, onde aprendeu outras línguas e desenvolveu sua escrita. Na volta para Nova York, começou a cursar jornalismo e ciências políticas, e logo já trabalhava como assistente de Katherine Dunham, importantíssima no movimento negro, uma das maiores dançarinas e coreógrafas (e antropóloga, escritora, ativista e educadora) do mundo, grande fonte de inspiração nos trabalhos de Deren. Foi nessa época que Maya conheceu Hammid e fez o seu primeiro filme.  

Em Meshes of the Afternoon, de cara, Maya já quebra todos os paradigmas do processo de montagem de um filme, fazendo uso de múltipla exposição, dando a ilusão de vários personagens, experimentando de todas as formas os ângulos e o som.
O projeto foi todo financiado com seu próprio dinheiro, e mesmo que depois Maya tenha renunciado ao surrealismo, o filme não deixa nadinha a desejar perto das obras de Buñuel ou Dalí. Muito pelo contrário, o filme é como se fosse uma poesia sobre o ser, só que declamada com imagens. É como assistir a um sonho, por mais brega que essa frase possa soar.

Os anos seguintes a esse filme, Maya Deren focou em abordar temas como identidade, a psique feminina e sexualidade. Em 1944, lançou o seu segundo curta, At Land, onde ela mesma interpreta uma mulher que do mar, emerge para uma série de convenções sociais, jantares e uma partida de xadrez. Em 1945, ela se junta à dançarina Rita Christiani e a escritora Anaïs Nin para o filme Ritual in Transfigured Time, onde ela começou a trabalhar a relação entre os movimentos coreografados do corpo e os movimentos de câmera. É a partir desse ponto que Deren se aprofunda ainda mais na expressão corporal, se tornando a primeira diretora/autora de videodança, juntando nisso toda a sua técnica para fazer filmes que mais parecem alucinações, além de seu interesse por religiões de matriz africana, como o Vodu haitiano. Tanto que seus últimos anos foram voltados basicamente para o estudo da cultura do Haiti. Ela chegou a passar quase dois anos vivendo por lá, filmando rituais, danças, costumes. O seu último filme The Very Eye of Night foi lançado em Porto Príncipe, capital do Haiti.

Maya morreu em 1961, por conta de um derrame cerebral com 44 anos. Muito especula-se que a sua morte tenha sido causada por uso excessivo de medicamentos (as más línguas falam sobre uma maldição do Vodu).
Suas cinzas foram espalhadas pelo Monte Fuji, no Japão.

Para ler mais (e assistir também!):

Cinema: O uso criativo da realidade” – Maya Deren


Meshes of the Afternoon (1943)
At Land (1944) 
A Study in Choreography for Camera (1945) 

Ana Gabriela
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Audiovisual

Ana nasceu na Bahia em 1992. Ainda não descobriu o que vai ser quando crescer, mas aprendeu que isso não é motivo pra preocupação. Quanto mais tempo se descobrindo melhor. Gosta de ler a internet, escrever listas sobre tudo, de gatinhos e da sua cama.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos