7 de dezembro de 2015 | Cinema & TV, Colunas, Se Liga | Texto: | Ilustração: Laura Athayde
A vida segundo Jessica Jones

Atenção: esse texto possui leves spoilers.

Eu não vejo distinção entre Marvel e DC, pois sou da opinião de que ambos estúdios possuem personagens fortes e dignos de admiração. Porém, meu super-herói favorito sempre foi o Homem-Aranha (por motivos bem pessoais e específicos), então eu naturalmente tendo a defender a Marvel com um pouco mais de afinco.

Desde que fui atingida pelo ~raio empoderador~, entretanto, ficou muito difícil ser fã da Marvel e não é preciso ir muito longe pra entender o porquê, basta apenas ver o estúdio fazer aquele desvio quando o assunto são perguntas simples como “e os brinquedos da Viúva Negra?” Nesse sentido, a DC sempre esteve um passo à frente da Marvel, tanto com o novo discurso da Batgirl como com um manual de empoderamento para pequenas meninas.

Felizmente, no final de dezembro de 2014, ainda sob o nome de A.K.A. Jessica Jones, a Marvel anunciou que uma série sobre a heroína seria produzida e lançada pelo serviço de streaming da Netflix, ainda sem uma data certa. A série perdeu o “A.K.A.” e foi lançada no último dia 20 de novembro sob o nome de Marvel’s Jessica Jones.

Essa série é tudo que você poderia querer de girl power…

A história que conhecemos de Jessica começa em um ponto de sua vida onde ela já teve uma carreira de heroína que durou super pouco, e agora sua vida é a Alias Investigations, uma empresa que ela abriu como detetive particular. Sua melhor amiga é Trish Walker, uma radialista que já foi uma estrela infantil super famosa. A maior parte de seus trabalhos são feitos para Jeri Hogarth, uma poderosa (e ardilosíssima) advogada que está se divorciando de Wendy, uma médica super respeitada. Por fim, o caso principal que é a cola e o estopim para toda a temporada é o de Hope Shlottman, uma estudante desaparecida e que mais tarde é acusada de assassinato e depende de Jessica para sair da prisão.

Percebeu alguma coisa? Não, você não leu errado. As principais personagens da história e as que fazem a história acontecer são, isso mesmo, TODAS mulheres. E não são quaisquer mulheres: são mulheres que estão fazendo acontecer, mulheres que têm objetivos bem claros e que saem em busca disso, e especialmente, são mulheres que não precisam de cara nenhum.

“Isso quer dizer que não existe romance hétero na série, Duds?” Muito pelo contrário. Tem e tem romance bem intenso – a cama de Luke que o diga! –, mas além dele não ser o foco principal da série e existir com o único propósito de enriquecer a história e não desviá-la do seu enredo, as personagens fazem questão de lembrar que quem toma as decisões aqui são elas.

… e mais um pouco!

E QUE ENREDO, amigas. Esqueça toda a ação e extrema pancadaria sensorial que presenciamos em Demolidor. Esqueça as complexidades de Agents of S.H.I.E.L.D. Esqueça até mesmo o elegante bad-ass vintage que é Agent Carter. O carro-chefe da série criada por Melissa Rosenberg (The O.C., Dexter) é relacionamentos abusivos.

O jeito explícito, pesado e psicológico como a personagem de Jessica lida com o fato de ter passado pelo que deve ser o relacionamento mais abusivo já registrado, foi tão perfeitamente colocado que merecia um trigger warning no começo de cada capítulo. Cada declaração gritada vinha como um alívio – para mim, e para Jessica –, e me faziam pausar o episódio para dar aquela respirada. A interpretação sempre inexpressiva, sarcástica e durona de Krysten Ritter (Breaking Bad, Don’t trust the B.., Veronica Mars), que causou desconforto a uns, é bem explicada conforme vamos conhecendo sua história mais a fundo, e, ao final de 13 episódios, consegue nos convencer absolutamente de que Jessica é seu papel de ouro.

O vilão Kilgrave, um supervilão (nos quadrinhos conhecido como Homem-Púrpura) com poderes de controle da mente, é interpretado brilhantemente por David Tennant (Harry Potter, Doctor Who), e talvez um pouco demais. O vilão nos dá arrepios nas horas certas, parece estar absoluta e assustadoramente convencido de que tudo que ele faz é certo, é por amor, e vale a pena no final. O típico abusador.

Um personagem como Kilgrave em uma série tão importante que vai atingir tantas pessoas dentro de um universo cinematográfico e televisivo que está em constante expansão (e, atualmente, bem em alta) serve para fazer um alerta sobre o mundo que vivemos desde sempre, mas que tem sido “desmascarado” aos pouquinhos.

Falar sobre relacionamentos abusivos, estupro, aborto e casamentos homoafetivos foi uma aposta relativamente arriscada da Netflix, e que deu muito certo, ainda que certos estereótipos tenham sido mantidos (como o fato de Jeri ter um comportamento que por muitas foi considerado uma projeção do homem no relacionamento lésbico). É importante que esse tipo de assunto esteja presente na cultura pop para nos lembrar que ainda há muito o que aprender e há muito o que ensinar.

A romantização do abusador e o discurso da vítima

Como nem tudo são flores, a série serviu para que víssemos o quão perigoso pode ser esse tipo de abordagem. Conversando com uma das meninas aqui da Capitolina e até mesmo vendo coisas pelas redes sociais mais “libertinas” como Twitter e Tumblr, podemos ver uma romantização do personagem Kilgrave. Pode-se até dizer que a escolha de David Tennant para o papel tenha incentivado isso, já que o ator britânico é super simpático. “Como assim o David interpreta o vilão? Deve ter alguma coisa boa nesse personagem!”, “Mas não dá pra ver que ela até gosta em alguns momentos?” e “Coitado, ele ama tanto ela…” foram coisas que eu mesma li por aí. É super importante saber fazer esse tipo de abordagem de modo a deixar bem claro que não importa o quanto a pessoa possa parecer simpática e apaixonada, um relacionamento abusivo é doentio, perigoso e deve ser interrompido, sempre.

Para finalizar, se até agora eu não havia te convencido a assistir a Jessica Jones, é importante dizer que a série é um grito de alívio e liberdade para aquelas meninas que precisam de uma força a mais depois de terem passado por um relacionamento abusivo: o discurso de “não é minha culpa” e “não é sua culpa” é amplamente abordado, o que faz com que as personagens saiam ainda poderosas de toda aquela história, e assumindo o controle de suas próprias vidas. As personagens são inspiradoras, suas histórias são pesadas, e a resolução de cada uma delas é precisa na medida do possível, e sempre com decisões que partiram delas e apenas delas.

Duds Saldanha Rosa
  • Coordenadora de Esportes
  • Ilustradora

Duds Saldanha Rosa, 22 anos, bitch with wi-fi, so indie rock is almost an art. Não sou parente nem do Samuel Rosa, nem do Noel Rosa, nem do Carlos Saldanha, mas gostaria de ser. Sou paulista-paraibana, designer, ilustradora e seriadora avídua. Faço yôga para aquecer minha mente e escrevo no Indiretas do Bem para aquecer meu coração. Doutora em ciências ocultas, filosofia dogmática, alquimia charlatônica, biologia dogmática e astrologia eletrônica. Cuidado: femininja e aquário com ascendente em virgem. Você foi avisado.

  • Viih

    Tava querendo assistir mt, dps da sua dica vou concerteza ^^

  • http://www.frescurinha.com.br Julia Thetinski

    Duds! Jessica ensina muito. Tô encantada com tudo nessa série. Bjs
    Julia.
    http://frescurinha.com.br/

  • Sonia Amaral

    Pra convencer essa galera que acha q o Kilgrave ama ela de verdade – em nenhum nenhum momento Jessica se apaixona por ele. Nunca jamais ha reciprocidade no que ele chama de amor. Desde o inicio o que a tras pra ele eh o uso do poder dele, e ele usa sabendo. Ele comanda ela pra tudo e quando nao, ela tenta fugir. Nao ha amor, nao ha ilusao, ha dominio. Apenas dominio. Achei super acertada escolherem o David pro papel justamente pq estao nos carinhas mais apaixonantes os mais assustadores. Seria mto facil fazer Kilgrave um cara feio e assustador, coloca ele como um cara lindo e charmoso e sedutor e BAM vc tem a realidade, amigas. E a grande verdade eh q David Tennant eh um ator fodapracaralho (sim, sou suspeita, mas o fato de ter visto tudo q ele fez na vida dele praticamente faz de mim expert) e ngm melhor do que ele para fazer o q Kilgrave precisa ser. Um psicopata abusivo que vive em uma ilusao propria de que o q faz eh amor. Ponto.

  • http://www.bamoretti.com/ BA MORETTI

    tava atrás de um texto bom pra indicar sobre jessica jones (que série meudeus, que série) e tô aqui tomando vários tiros com duds dexxxtruidora ? thnkx! texto maravelhouuuuso ?

  • Marcela

    Que série maravilhosa! fiquei adiando pra não terminar

  • Giovana Meneses

    Acho que a escolha de David Tennant para o Kilgrave foi sensacional, justamente pelo fato do ator ser tão carismático. É importante mostrar que esse típico de cara, o abusador, muitas vezes se safa porque consegue que as pessoas de fora (e às vezes até a própria vítima) acreditem que ele tem algo de bom apesar dos seus feitos horríveis.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos