25 de junho de 2016 | Artes, Colunas, Literatura | Texto: | Ilustração: Isabela Zakimi
A voz narrativa silenciada: mulheres negras na literatura

 

Esse ano, muita gente comemorou a quantidade maior de escritoras convidadas a participar da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty – que, até então, desde 2003, apresentava um número reduzido de mulheres em relação aos homens convidados. Não há dúvidas que essa medida foi um avanço, mas não há também como ignorar que a ausência de escritoras negras na programação do evento, ainda mais num ano em que houve iniciativa de igualar o número de mulheres e homens, seja um fato gritante da marginalização da literatura produzida pelas mulheres negras.

Pensando nessa questão, a SOF Sempreviva Organização Feminista organizou um encontro no dia 23 de junho em São Paulo com as escritoras Bianca Santana, Jenyffer Nascimento e a pesquisadora Luciana Diogo para debater sobre a posição e a condição da mulher negra na literatura.

O debate questionou em certa medida a definição de literatura, já que poucos dos livros produzidos por escritores e poetas socialmente marginalizados integram o grupo de obras consideradas canônicas. Pouco também se estuda, nas escolas, autores e pesquisadores negros. Mulheres negras, então, quase nada. Esse questionamento, junto com a fala das escritoras, que diziam possuir certa dificuldade de entenderem suas obras como literatura, demonstrou um problema de representatividade de mulheres negras no contexto literário brasileiro.

Se toda a cultura e história negra foram durante tanto tempo e ainda são negligenciadas no país, não iria ser diferente com a literatura produzida por mulheres negras. Talentosas escritoras como Maria Firmina dos Reis, Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo são pouco citadas e mencionadas nos estudos de literatura brasileira e permanecem, dessa forma, silenciadas e esquecidas em estantes se comparadas com obras como as de Clarice Lispector e de Ana Cristina César.

A dificuldade revelada pelas escritoras no evento em compreenderem o que escrevem como literatura tem origem daí: como se identificar com um grupo de obras literárias que pouco contemplam a história e a cultura negra no Brasil? Como se identificar com as consideradas escritoras renomadas, se quase não há negras entre elas?

Embora haja esse movimento de exclusão das mulheres negras na literatura, a indiferença que recai sobre as autoras citadas não apaga a influência significativa dessas mulheres à nova geração de escritoras negras. Não há mais como retirar dessas jovens a caneta, a voz narrativa, o relato, o verso, o grito. Como revela Conceição Evaristo em seu texto “Gênero e etnia”:

“Gosto de escrever, na maioria das vezes dói, mas depois do texto escrito é possível apaziguar um pouco a dor, eu digo um pouco… Escrever pode ser uma espécie de vingança, às vezes fico pensando sobre isso. Não sei se vingança, talvez desafio, um modo de ferir o silêncio imposto, ou ainda, executar um gesto de teimosia esperança. Gosto de dizer ainda que a escrita é para mim o movimento de dança-canto que o meu corpo não executou, é a senha pela qual eu acesso o mundo”.

Escrever como ato de empoderamento é consequência do exercício dessas escritoras que, ainda que excluídas, resistem ao esquecimento quando registram em seus relatos, contos, crônicas e poemas a voz da mulher negra: a autoria conquistada de contar a própria narrativa, o poder de tingir as palavras com suas próprias dores, solidão e amores. Acessar o mundo, como diz Conceição Evaristo, e abrir as portas para que mais mulheres negras o integrem também.

 

 

 

 

Marina Lazarim
  • Colaboradora de Literatura

Marina nasceu em abril de 1993 em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Seu endereço é desmembrado: um pedaço lá em São José, um bocado na capital de São Paulo e o restante em João Pessoa. É estudante de Letras na USP e adora poesia portuguesa. Marina prefere o verão ao inverno, gosta de signos de água, não dispensa a sonequinha da tarde e não hesita em trocar qualquer refeição por uma bela sobremesa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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