15 de outubro de 2015 | Ano 2, Edição #19 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Abraçando mudanças

Desde os meus 9, 10 anos, minha mãe tentava me dar sutiãs para usar. De algodão, bem molinhos. Alguns coloridos, outros de florzinha. A intenção era, eu tenho certeza, de que eu fosse feliz e ficasse confortável, e que os meus seios tímidos não causassem nenhum tipo de comentário estúpido entre os coleguinhas de classe. Mamãe nunca tentou forçar a barra; era apenas um gesto de carinho. Ela provavelmente imaginava que algo como essa cena, de um comercial clássico dos anos 1980, se repetisse:

Mas todos ficavam marginalizados na minha gaveta de calcinhas, enrolados para que eu não pudesse vê­los frequentemente. Os meus pobres sutiãs eram um lembrete diário do inevitável, o repudiável: virar mocinha. O momento em que deixamos de sermos vistas como garotinhas e estamos passos à frente na estrada de nos tornarmos mulheres. É o momento, ali entre os 10 e os 13 anos, em que torna­se aceitável passar esmalte, a menstruação começa a bater cartão mensalmente nos nossos úteros, uns pêlos muito loucos começam a crescer por toda a parte, nós crescemos uns 10cm por ano. É a idade em que não mais nos consideram crianças, mas tudo o que você tem vontade de fazer é ficar em casa vendo Bob Esponja e comendo biscoito recheado em vez de ter as primeiras noções de álgebra.

A maior parte das pessoas abraça esse novo momento da vida alguma hora. É isso que
chamam de crescer, afinal — aceitar as mudanças físicas e psicológicas que acontecem com a gente e trabalhar para sermos pessoas melhores. Mas e quando você simplesmente se recusa a acatar essa transformação toda? Cruza os braços, faz bico, bate o pé e fala “NÃO VOU NÃO, VOCÊ NÃO MANDA EM MIM”?

Eu preciso que você me escreva a cada 30 segundos, dizendo que tudo vai ficar bem.

Eu preciso que você me escreva a cada 30 segundos, dizendo que tudo vai ficar bem.

Alguns podem chamar essa negação de Síndrome de Peter Pan, mas ela é geralmente atribuída a pessoas do sexo masculino que lidam com os compromissos da vida com imaturidade. Não estamos falando de imaturidade, isso é outra coisa. Estamos falando de se olhar no espelho e sentir incomodada por parecer tão adulta, porque no fundo você se sente despreparada para o que vem por aí. É você achar que não estão falando para ou sobre você quando mencionam faculdade, casamento, envelhecer. Afinal, você ainda se sente com 7 anos, e crianças de 7 anos não têm porque pensar em estudar pro vestibular (mesmo que, na verdade, você já tenha uns 16).

Esse sentimento pode se estender até a vida adulta e te acompanhar quando sua carreira começar, quando lidar com futuras chefes, talvez filhos, se você quiser tê­los, e as cobranças e responsabilidades aumentarem. Seus pais se sentem assim, suas professoras se sentem assim, suas médicas se sentem assim. Até a sua avó se sente assim! De vez em quando é normal ter vontade de ligar pra sua mãe e pedir um colinho, uma fatia de bolo com nescau e ignorar todo o mundo indo atrás de você. Isso não te faz uma pessoa fraca, infantil ou carente — trocar de pele é difícil, e esperar uma nova crescer pode ser dolorido.

hug (1)

Nicole Ranieri
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Vlogger

Nicole é Paulista de 22 anos, mas mora em todos os lugares e pertence a lugar nenhum. Estuda administração com foco em exportação mas é gente boa, não gosta de tomate mas é uma pessoa do bem, curte uma coisinha mal feita e não recusa jamais uma xicara de chá verde. Se fosse uma pizza, Nicole seria meia espinafre, meia cogumelo.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Parece que esse texto me deu um abraço

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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