16 de abril de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Abraços, Galeano

“ – O mundo é isso – revelou. – Um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.” – O mundo, in: O livro dos abraços

 

Nesta semana, dia 13/04, morreu Eduardo Galeano. O escritor uruguaio teve imensa importância para a literatura e a política da América Latina e do mundo. Como não podia deixar de ser, também foi marcante nas vidas da algumas de nós, colaboradoras da Capitolina, que o lemos durante nossas adolescências.

Eduardo Galeano, te saudamos!

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Helena Zelic:
Li algumas coisas do Galeano durante minha vida. Comecei com Dias e noites de amor e de guerra, passei por O teatro do bem e do mal e terminei, por enquanto, com O livro dos abraços. Digo “por enquanto” porque sei que ainda há muito o que ler e aprender. Sei também que preciso concluir As veias abertas da América Latina, do qual só li o primeiro capítulo para uma aula de espanhol.

Eduardo Galeano me ganhou porque se fazia entender e porque era terno. Claro que “hay que endurecerse“, disso nós sabemos, pois os tempos nunca foram fáceis. Ainda assim, suas histórias, historietas e causos são simples, se fazem entender e, mais importante: nos fazem sonhar. Galeano sempre esteve ao lado do povo e nunca escondeu sua posição, muito pelo contrário: pareciam a luta e a escrita quase indissociáveis para ele, mas nada assim panfletário, vomitado. Era verdadeiro e fazia sentido, todo o sentido do mundo.

Lembro quando Hugo Chávez deu a Obama um exemplar de As veias abertas, num misto de ousadia e diálogo. Escolheu este livro porque, imagino eu, via ali um retrato incrível de uma América Latina com uma história de exploração, de colonialismo, de saqueamento brutais, mas também de muita resistência e luta.

Se na adolescência descobri que queria lutar ao lado das mulheres, ao lado do povo, por uma América Latina soberana, por uma sociedade igual, justa e livre, por um mundo menos doído e violento, com mais possibilidades, com certeza foi porque entendi: é preciso sonhar.

Dora Leroy:
Lembro muito bem do momento em que comprei meu primeiro livro do Eduardo Galeano. Eu tinha entrado em uma livraria da Paulista para passar o tempo enquanto esperava a minha mãe chegar. Olhava as estantes sem pensar muito, buscava um livro com uma lombada bonita para me servir de companhia durante a espera. Eis que aparece uma lombada sem graça, mas com um título aconchegante: O livro dos abraços. Peguei na mão, vi o autor. Acho que conheci o Eduardo Galeano através de algum amigo da faculdade (como tenho muitos amigos estudando literatura de língua espanhola, não era de se surpreender que em algum momento alguém iria falar dele). Sabia que o seu livro mais célebre chamava As veias abertas da América Latina, um tipo de literatura que não me chama muito atenção, raramente leio livros que não são romances ou teoria literária (confesso que sou meio monotemática com o gênero de livro que leio). Quando folheei o livro, vi aqueles contos pequenininhos, histórias independentes com ilustrações lindinhas em todas as páginas. Ainda tenho na memória o primeiro continho que li. As veias abertas da América Latina pode não ser o meu tipo de literatura, mas O livro dos abraços é exatamente o tipo de coisa pela qual sou apaixonada. Comprei o livro, li tudo no mesmo dia e assim terminou a minha historinha de amor.

Clara Browne:
Conheci Galeano não por seus textos, mas por uma conversa informal que foi gravada. Ele estava na praça Catalunya, em Barcelona, e eu estava na sala de aula do meu colégio. Naquele momento, em que ele falava que nosso mundo estava grávido de outro mundo, algo em mim mudou. Reapareceu um brilho nos olhos, que havia sido perdido em meio aos estudos sem fim para o vestibular e recuperações. Depois desse dia, fui adiante nas pesquisas sobre Galeano. Baixei O livro dos abraços, o qual a versão impressa mais tarde foi presente de uma amiga minha; mergulhei em suas entrevistas no YouTube; li o começo de Veias abertas da América Latina, mas nunca terminei; mais tarde comprei Vagamundo y otros relatos; minha vida mudou.

Eu tinha 16 anos quando reconquistei meu direito de sonhar. Durante toda minha vida os adultos me disseram que aquilo era bobagem, que sonhar não dava em nada, e eu acreditei. Mas, aos 16 anos, Eduardo Galeano me lembrou para que serve a utopia e tudo mudou. Em um piscar de olhos, eu, que era fogo-fátuo, trepidei no coração, fui tomada e envolvida pela certeza de que o material de nossa realidade é e sempre será o sonho conjunto. E, assim, acabei entrando nessa vida louca daquela gente que acredita que o mundo pode ser mudado. Mudado por nós mesmas.

Não foi Eduardo Galeano em si que me ensinou o pensamento de esquerda, que me ensinou a poesia ou o sonho. Essas coisas são aprendizados de muitos anos, desde os tempos antigos do útero de minha mãe. Mas, de certa forma, foi ele a faísca para essas recordações.

“Recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração.” – Prólogo de O livro dos abraços

Com ele, percebi a necessidade dos pequenos causos. Parte da revolução que há em nós surge daí: quando algo ou alguém acontece de forma extremamente óbvia e, portanto, inesperada. Seus contos são assim: a surpresa do cotidiano. E mesmo que não seja o maior pensador que o mundo teve, um homem perdido entre a teoria, a literatura e a revolução, é ele, Eduardo Galeano, o despertar de nós mesmos em frente ao mundo.

Foi com Galeano que entendi que nossa luta deve ser assim: dura e terna, como a (sua) poesia. Somos todos vagamundos, hermosos y terribles. E temos que abraçar nossa condição. Nossas veias estão abertas, e o que sai de nós é paixão, e também amor. Tornamo-nos leves, libertamo-nos, somos plenas: um mar de fogueirinhas, faíscas do universo.

Mesmo ido, Galeano continua aqui, alumiando as filhas e os filhos do dia.

 

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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