16 de abril de 2016 | Ano 3, Edição #25 | Texto: e | Ilustração: Beatriz H.M. Leite
Absorventes: devemos mencionar?
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Menstruar faz parte da realidade de muitas pessoas, e por mais que elas ainda tenham vergonha de falar nesse assunto, ele é tão natural quanto respirar e piscar os olhos. E, se menstruamos, isso significa que precisamos de algum item que retenha nosso líquido. Sim, estamos falando de absorventes e copos menstruais. Apesar de ser completamente normal e fazer parte da vida de todas as garotas, durante nossa adolescência é comum nos sentirmos mais envergonhadas em relação a esses assuntos constrangedores. Mas, com o passar dos anos, percebemos que é absolutamente sem sentido sentir vergonha de estar menstruada. A maior responsável por isso é a sociedade, que nos faz acreditar que menstruar é algo sujo, ruim e que deixamos as pessoas ao nosso redor com nojo de nós. Em algumas culturas, já foi normal (e em outras ainda é) homens não poderem tocar as mulheres quando elas estão menstruadas pois “é sujo”. Bom, já dá pra entender que não é à toa que nós sentimos vergonha de estar menstruadas, né? Quando, ao longo dos anos, a cultura nos rotula como “sujas” quando sangramos, é normal que a gente tenha isso arraigado no fundo da nossa mente.

Mas, se falar de menstruação e das alterações que ela causa no nosso corpo às vezes é tão complicado, imagina falar de absorvente?

A função de um absorvente é bem simples e faz com que não nos sujemos, já que a menstruação não é uma coisa que podemos controlar. Então, por que às vezes ficamos com vergonha de sermos vistas segurando um? Qual é o problema de indicarmos que estamos menstruadas? E na tentativa de esconder esse item que remete aqueles dias do mês usamos toda a nossa criatividade: escondemos no casaco, dentro da manga do moletom, saímos com uma bolsinha, fazemos altos esquemas.

Normalmente quando somos mais jovens o assunto é um tabu. Na escola, é padrão esconder o absorvente no bolso do moletom e ter medo dos colegas de sala verem que estamos indo ao banheiro trocá-lo. As autoras do texto passaram por situações diferentes: a Carol já sofria bastante com piadinhas dos colegas na escola, e tinha absoluto pavor de que isso virasse mais um motivo para rirem dela. Já a Natasha nunca passou por isso, porém, não saía andando com o absorvente por aí, mostrando pra todo mundo!

No entanto, com o passar dos anos, sentimos que isso deixa de ser algo tão secreto e vemos que não faz nenhum sentido ter vergonha de menstruar. Mas, para algumas de nós, continua difícil conseguir pegar um absorvente e naturalmente ir ao banheiro trocá-lo sem medo dos olhares que recairão sobre nós. E nosso inconsciente coletivo ajuda a perpetuar essa característica de ~aquilo que não deve ser mencionado~, com todas aquelas publicidades de absorventes externos e internos que mostram tudo de forma discreta, tratam a menstruação como “aqueles dias”, mostram mulheres sorridentes de roupas brancas usando absorventes que reduzem odores e não marcam a roupa – tudo isso para esconder uma fase natural de nosso ciclo, pela qual passamos TODO mês. Assim não dá, né?

Colocamos essas questões para nossas colaboradoras da Capitolina e todas disseram que hoje em dia não têm vergonha nenhuma de aparecer com absorvente ou de estar menstruada. Mas nem sempre foi assim pra Lola, pra Marina e outras meninas, que escondiam quando eram adolescentes. A vergonha às vezes também rolava na hora de ir comprá-los.

Na casa da Fernanda, eram quatro mulheres menstruando e o pai dela sempre comprava uma caixa enorme com absorventes de cor laranja e ela não deixava passar batido quando algum menino queria fazer algum tipo de piada ou tirar sarro dela. Já a Laura foi chantageada por um colega aos onze anos de idade porque ele tinha visto um absorvente na mochila dela. Ela acabou passando a lição de matemática em troca, mas foi um caso isolado e, desde então, ela não tem mais nenhuma vergonha.

A Laura Manzano (17 anos) até a oitava série dava um jeito de esconder o absorvente, mas depois desencanou e acredita que as pessoas precisam aceitar o fato de que as mulheres menstruam e que isso é algo natural.

Talvez nos sentirmos mal por estarmos usando absorventes ou coletores menstruais diga muito sobre nossa relação pessoal com nossa menstruação. Por exemplo, é compreensível que uma menina que tenha muitas cólicas, diarreias e vômito durante alguns dias todo mês não adore usar absorventes porque eles remetem a tudo que vem junto no pacote. Além disso, muitas meninas começam a menstruar bem cedo e isso pode fazer com que elas se sintam diferentes das amigas e dos amigos, o que pode se tornar um empecilho em algumas situações (por exemplo, entrar em piscinas ou praticar esportes –  sem falar que muitas pessoas não entendem que as mudanças causadas pela menstruação podem afetar a vida das mulheres de diversas maneiras).

Mas quando o mal-estar surge por conta daquilo que parte do olhar dos outros em relação à nossa menstruação, é possível que seja um pouco mais fácil desconstruir essa imagem negativa dos absorventes e perder um pouco a vergonha e vontade de esconder!

Nós só queremos que vocês lembrem de algumas coisinhas:

1. Menstruar é normal.

2. Se você não menstrua ou fica longos períodos sem menstruar pode ter alguma coisa acontecendo com seu corpo.

3. As pessoas não podem te fazer se sentir culpada por uma reação natural e não controlada do teu corpo.

E se você sentir que precisa responder aquele comentário babaca que ouvir, responda! a pessoa pode ficar constrangida e pensar duas vezes antes de abrir a boca pra falar besteira novamente.

Saber como nosso organismo funciona, como é a fisiologia do nosso sistema reprodutor, é essencial para enxergar “aqueles dias” como uma consequência natural de termos ovários operando normalmente e estarmos vivas! Tudo isso que parece às vezes uma coisa horrorosa é o reflexo de sermos mulheres (no caso, estamos falando de mulheres cis, que têm ovários e útero, claro).

Perceber que a menstruação é apenas uma implicação natural de ser uma mulher cis pode te ajudar a aceitar melhor estar menstruada e ter menos medo de mencionar isso para as pessoas ao redor. Quando a gente se aceita melhor, o mundo parece aceitar mais a gente também!

Respeite seus limites físicos e emocionais e, quem sabe, a partir de agora, absorventes e menstruação não serão mais aqueles assuntos “você-sabe-quais”.

Carolina Sapienza
  • Colaboradora de Relacionamentos e Sexo
  • Revisora

Carol nasceu em 1991 e mora em São Paulo. Bióloga que queria ser de humanas, gosta de escrever sobre ciência mas mantém o caderninho de poemas sempre na bolsa.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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