10 de março de 2018 | Ano 4, Edição #43 | Texto: | Ilustração: Raphaela Corsi
Acolher imigrantes é um dever humanitário
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“O que te faz ser brasileira ou brasileiro?”

Essa pergunta é bastante subjetiva, ela envolve o conceito de nacionalidade, um sentimento de pertencimento a um determinado grupo social. Cada pessoa tem uma relação diferente com essa definição e isso nem sempre envolve questões territoriais. Nacionalidade muitas vezes tem relação com a língua que se fala, com a história das famílias e com as tradições que alguém decide seguir.

Contudo, por conta do modelo de organização social em que estamos inseridos na atualidade, divididos em  Estados/países, a geografia se torna grande parte desse conceito. Ser considerado nacional de um determinado país garante a você uma variedade de direitos naquele território, aqui no  Brasil, por exemplo, o direito simples de cadastrar chips de telefones celulares em operadoras depende da posse de alguns documentos que apenas brasileiras e brasileiros possuem, em um primeiro momento. Essa é a razão pela qual  migrar, segundo o dicionário “entrar em região ou país diferente do seu para aí se estabelecer”, é algo tão complexo.

Ser complexo, no entanto, não significa ser incomum: o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da Organização das Nações Unidas (ONU) lançou em 2016 um relatório que afirma que no ano anterior existiam 244 milhões de migrantes internacionais ao redor do mundo. Migrar envolve deixar para trás o status de “nacional” e adquirir o  status de “estrangeiro” e para além das questões jurídicas/burocráticas que isso envolve, como o caso dos documentos brasileiros, existem inúmeros preconceitos que se estabelecem como barreiras ao imigrante, muitas pessoas ainda os vêem como uma ameaça à segurança nacional e a sua própria nacionalidade, já que o migrante internacional, na visão dessas pessoas xenofóbicas, estaria ocupando um espaço que não é seu por direito.

Justamente, pelos preconceitos enfrentadas pelos migrantes, essa é considerada uma população prioritária da agenda de desenvolvimento econômico, social e ambiental da ONU, conhecida como Agenda 2030, composta por 17 grandes metas, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), e que tem como mote “não deixar ninguém para trás” na corrida por um mundo melhor. Buscar por políticas sociais voltadas para a integração dessas populações e plena garantia de seus direitos humanos é, portanto, um dever de todos os países que assinam essa agenda, inclusive do Brasil, que tem cerca de 700 mil imigrantes registrados, das mais diversas nacionalidades, e nos últimos meses recebe um grande fluxo migratório da Venezuela.

Pensar nessas questões apenas como “coisas de governo” é bastante comum, mas além dos acordos internacionais e das leis sobre imigração, partes essenciais desse processo, existe também a necessidade de uma mudança da sociedade como um todo sobre o olhar em relação ao imigrante. Humanizar essas populações, não usando termos como “ilegais” para se referir àqueles que ainda não tem documentos regularizados no país, não tratar como sujo um hábito que é apenas diferente do seu ou não se apegar a estereótipos quanto aos mais diferentes países é um grande passo no cotidiano e a única forma de construir relações de aprendizagem mútuas sem hierarquização de culturas ou nacionalidades.

 

** Pequeno glossário do assunto: Migrante x Imigrante × Refugiado

Migrante: todo aquele que se deslocá de sua terra natal

Imigrante: Aquele que reside em um país estrangeiro

Emigrante: Aquele que sai de seu país de origem

Refugiado: Todo aquele que correndo perigo precisa se deslocar de seu país de origem para outro. Todo refugiado é um imigrante, mas nem todo imigrante é refugiado.

Ester Borges
  • Colaboradora de Educação

Desde 1997, Ester anda pelo mundo e o experimenta de forma curiosa. Talvez seja por isso que estuda relações internacionais na USP e tenta se convencer que é uma pesquisadora. Frequentemente considerada otimista, ainda não tem grandes conquistas, porém acredita que descobrirá entre o amor ao próximo e a militância política algo que fará a humanidade se relacionar melhor. Provável que já tenha lido ficção demais.

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