10 de setembro de 2015 | Esportes | Texto: | Ilustração: Kiki
Afinal, futebol é coisa de mulher?

Já que dividimos o berço esplêndido desse Brasil varonil com ninguém menos que a melhor futebolista do mundo, assim eleita por cinco vezes consecutivas, nada mais justo do que abrir a nossa primeira mesa-redonda capitolínica falando de futebol e nós, mulheres, e como essa tabelinha é puro sucesso. Como esse é um assunto que rende muitas horas de discussão sobre diferentes ângulos, e já que esse é só o começo dessa editoria maravilhosa, vamos começar no sapatinho – ou seja, já chegando naquele carrinho maldoso: afinal, futebol é coisa de mulher?

A resposta simplificada é: sim, mas que pergunta!

Mas ela pode ser prontamente rebatida com contra-argumentos igualmente simplórios, que descreditam nosso interesse na modalidade justificado, por exemplo, na menor frequência de mulheres ativas nessa prática. A questão é que a minoria feminina no universo futebolístico é sintoma de uma construção sócio-histórica de longa data. O que nada tem a ver com o nosso interesse e habilidade em entender o jogo e praticá-lo, sacam? Assim, compreender essa construção é fundamental para pensarmos melhor a nossa presença, como mulheres, não só no futebol, mas nos esportes como um todo. Então, simbora!

Ao longo da história da humanidade, os esportes serviram a um propósito muito específico na organização da convivência em sociedade: domesticar e disciplinar seus praticantes segundo uma cartilha de valores, considerados naturais e típicos de “homens de verdade”. Esses valores andriarcais (ou seja, valores do macho, não apenas da figura paterna) e tradicionais de masculinidade, como a virilidade e a força bruta, eram, então, transmitidos também através dos jogos de bola, comumente praticados nas escolas destinadas a rapazes.

Assim, o contexto esportivo e, neste caso em particular, o futebol, se desenvolveram como espaços de socialização do que é ser homem, ensinando, construindo e perpetuando maneiras de ser e identidades sexuais. Não precisamos ir muito para trás na linha do tempo para entender como esse processo se dá na prática: qual o presente clássico que meninos recebem ao nascer ou fazer aniversário? Bola de futebol. Assim, os guris já entram em um ciclo de naturalização da modalidade em suas vidas, aprendendo a engatinhar e a andar conduzindo uma bola, fazendo escolinha, escolhendo um clube do coração, etc., e, enfim, vão construindo sua trajetória de vida macho em torno desses elementos.

O problema maior não está em ensinar tais valores andriarcais, mas tê-los como verdade absoluta e positivados em negação aos seus antônimos, que orbitam o campo semântico da fragilidade e são tradicionalmente relacionados a uma suposta feminilidade e, portanto, taxados como algo indesejável, do qual todos devem se afastar e negar.

Agora fica claro por que é muito corriqueiro mulheres amantes do futebol precisarem justificar o seu gostar e legitimar a sua presença nesse meio: porque esse espaço é intrínseco à formação do que é considerado ser homem para a sociedade ocidental, particularmente a brasileira. Estar ciente disso já é meio caminho andado para desconstruir essas ideias e tornar esse lugar menos hostil para nós.

Pela maioria de nós ser simplesmente socializada longe dos certames, vivenciar o universo futebolístico é, sim, uma conquista. A nossa presença no futebol sempre será questionada, sutilmente ou não, pois ela não deixa de ser uma transgressão ao imaginário social patriarcal brasileiro. E é. Alguém aqui está ligando pra isso? Acho que não. E pelo futebol ser amplamente considerado por esse mesmo imaginário social como um elemento-chave da identidade nacional do nosso país, já passou da hora de aprofundarmos as reflexões sobre nós como personagens ativas nesse espaço, aumentando nossa participação nessa esfera para além da espetacularização dos nossos corpos – quem nunca ouviu que os estádios ficam muito mais bonitos com a presença feminina? Miga, não tô no catálogo da Tok&Stok, vamos melhorar? Vamos evitar que esse 7×1 se propague ainda mais? Vamos sim, e só estamos começando.

Carolina Walliter
  • Revisora
  • Colaboradora de Esportes
  • Colaboradora de Literatura

Beatlemaníaca que gosta de sambar diferente com o Molejão, gosta de carnaval e de futebol mais que o recomendado pela OMS. Carioca da gema e cidadã do mundo, tradutora, intérprete, historiadora, mochileira, nômade digital, rabiscadora compulsiva em moleskines (não necessariamente nessa ordem) mas, antes de tudo, uma contadora de histórias, sobre si e sobre os outros. Escreve sobre o cotidiano da tradução em: http://pronoiatradutoria.com/

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