18 de outubro de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração:
Afinal, o que é família?

Família. Esse é um conceito estruturante da nossa sociedade. Muito das nossas vidas gira em torno desse tipo de relação e, se pensarmos rapidamente, pode até parecer que há uma definição consensual entre as pessoas do que isso significa. No fim das contas, se a gente para pra realmente refletir sobre essa palavra que nos diz tanta coisa (e, principalmente em época de eleições, que essa palavra surge pra defender tantas ideologias), a gente percebe que como tudo nesse mundo, existem visões diversas sobre o assunto. Para tentar escrever e refletir melhor sobre “família”, eu perguntei para várias pessoas conhecidas a resposta delas para essa pergunta: Afinal, o que é família pra você? As respostas foram diversas e interessantíssimas, eu mostro pra vocês ao longo do texto.

Resposta 01: “São as pessoas com as quais estabelecemos uma forte relação de afeto e dependência sentimental/emocional, através de um convívio constante.”

Resposta 02: “Meu pai, minha mãe, minha irmã, meu irmão e minha sobrinha.”

Resposta 03: “Pra mim, família é quem mora com você e com quem você passa o Natal. Acho muito belo esse papo de ‘família é quem você escolhe’, entretanto acho bem falso porque família é uma instituição, assim como a escola. Não necessariamente algo ruim.”

Resposta 04: “É o amor como esperanc?a poe?tica de transformac?a?o.”

Procurei, também, definições nos dicionários.

Do Aurélio:

1. Conjunto de todos os parentes de uma pessoa, e, principalmente, dos que moram com ela. 2. Conjunto formado pelos pais e pelos filhos. 3. Conjunto formado por duas pessoas ligadas pelo casamento e pelos seus eventuais descendentes. 4. Conjunto de pessoas que têm um ancestral comum. 5. Conjunto de pessoas que vivem na mesma casa.

Do Michaelis:

1. Conjunto de pessoas, em geral ligadas por laços de parentesco, que vivem sob o mesmo teto, particularmente o pai, a mãe e os filhos. (…) 3 Pessoas do mesmo sangue ou não, ligadas entre si por casamento, filiação, ou mesmo adoção, que vivem ou não em comum; parentes, parentela. 4 fig Grupo de pessoas unidas por convicções, interesses ou origem comuns. (…) 9 Quím V grupo. F. conjugal, Sociol: grupo constituído por marido, mulher e filhos menores ou solteiros. (…)  F. paternal, Sociol: grupo constituído por um casal, todos os descendentes masculinos e seus filhos menores. F. patriarcal, Sociol: tipo da família governada pelo pai, ou, na antiga Roma, pelo chefe varão mais velho: o patriarca. F. tronco, Sociol: grupo constituído por marido, mulher e um filho casado, com sua prole, vivendo todos sob o mesmo teto.

Ao pensar nas estruturas da sociedade, não é muito fácil conseguir enxergar a sua organização de uma forma muito diferente do que temos hoje, mas o esforço é necessário. Aceitar um molde de organização pode significar a reprodução de conceitos limitadores e que nos prendem em caixas nem sempre grandes o suficiente para todos nós.

Hoje, a família predominante na nossa sociedade segue uma definição patriarcal, sendo constituída pelo par homem-mulher, em que o homem é colocado como centralidade se sobrepondo à mulher. Mas nem sempre as coisas aconteceram dessa forma e o surgimento desse tipo de organização familiar pode ser melhor compreendido historicamente.

Em “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, Engels classifica o período pré-histórico e nos mostra que no período definido então como Selvagem, as pessoas se relacionavam em grupos, em que homens e mulheres eram ligados a mais de um marido ou esposa e os filhos eram criados de forma coletiva. A descendência era, portanto, garantida apenas pela mulher e homens e mulheres tinham relações de igualdade tanto nessa família como no trabalho. A partir do momento em que se estabelece a propriedade de animais e terras, o trabalho é dividido de forma diferente e o homem é o responsável pela garantia da propriedade e dos meios de produção. Sendo assim, a certeza da paternidade e a fidelidade da mulher por um único homem passam a ser necessárias para que a propriedade permanecesse nesse núcleo familiar, colocando a mulher em um lugar inferior nesta organização social.

Essa organização é bem semelhante ao que temos hoje, não é mesmo? Núcleos familiares, pai, mãe e filhos, propriedade. Mas será que é e precisa ser sempre assim? As relações sociais são tão diversas e deveriam ser tão livres que determinar como devemos nos relacionar parece algo longe da realidade. E aí, a percepção de cada um faz surgir uma diversidade enorme de famílias.

O que importa, afinal? Sangue, descendência, divisão de um mesmo espaço, convivência, sentimento ou uma definição construída historicamente, porém, mutável? Cada um irá enxergar o que é família de uma forma diferente e será influenciado mais ou menos pelos moldes criados na sociedade. Mas, o que não me entra na cabeça é alguém achar que pode dizer a outro alguém se o tipo de relação que ele ou ela tem é ou não familiar. Dois homens ou duas mulheres ou homens e mulheres com seus filhos, biológicos ou não, são menos família do que um homem e uma mulher com seu filho biológico? Pessoas que vivem juntas, independente de gênero, sem filhos, são menos família? Um grupo de amigos que constrói uma relação profunda de troca é menos família? Um homem ou mulher com filho que constrói uma relação com outro homem ou mulher, é menos família? Ou qualquer outra configuração que eu não consiga ter citado, mas que se identifica como família, é menos família? Eu acredito que não. E o seu animal de estimação? É da sua família?

No fim das contas, eu acredito que o que mais importa é o tipo de relação que se é construída, o sentimento, o dia a dia, o saber que pode contar com a(s) pessoa(s) independente do que vier, o conseguir superar dificuldades pela vontade de estar por perto, a troca. Nem todos têm a oportunidade de ter esse tipo de relação com alguém que tenha laços biológicos e isso não faz dessas pessoas menos família. O importante, talvez, seja tentar responder à pergunta lá de cima, olhar ao redor e identificar quem são as pessoas que trazem a resposta.

E mais algumas visões de família foram:

 Resposta 05: “Eu acho que vai muito além da sua família de sangue, que muitas vezes pode nem representar mesmo uma família pra pessoa. Acho que está muito mais ligado ao amor, às pessoas que você ama e que te amam de volta, às trocas de carinho, amizade, etc. Faz parte da sua família quem você quer perto de você sempre (mesmo que a pessoa não possa estar).”

 Resposta 06: “Ohana quer dizer família, família quer dizer nunca mais abandonar, ou esquecer”

Resposta 07: “Quando penso em família, num primeiro momento, pra mim vem de algum laço de parentesco. Não tenho o apego pelos conceitos de ancestralidade e linhagem porque não fui criado com isso. Mas é meio inevitável o laço sanguíneo estar presente no conceito. Tem a ver com amor e respeito mútuos e uma troca de experiência que marcam a personalidade do outro e uma ligação da qual você não tem como evitar considerando esse laço sanguíneo por você ter sido posto no mundo pelos seus pais, uma ligação biológica talvez soe melhor. Entretanto, família ao mesmo tempo é uma relação de troca e convergência de gostos, hábitos, costumes, crenças em comum. Acho que você pode criar um vínculo com um grupo que não seja sanguíneo e gerar uma nova família, seja ela um casamento, um grupo de amizade, e por aí vai.”

Resposta 08: “(…) Quando eu penso em família eu penso em um texto que li sobre moradores de rua… E tinha a história dessa mulher que acabou indo morar na rua porque perdeu todas as economias e não tinha ninguém com quem contar, não tinha família, não tinha amigos e aí eu parei pra pensar que isso era muito louco! A pessoa não tinha ninguém no mundo, sabe. Ninguém! E pensei – e fiquei muito feliz – que isso não ia acontecer comigo porque não só eu tenho família como tenho laços super fortes com amigos. Então, é clichê, mas acho que família é o vínculo básico, o mais primordial. É, no mínimo, o fundo do poço que não te deixa cair infinitamente. E quando penso nisso, não tem a ver com laços de sangue, sabe. Eu tenho, mas sei de muita gente que não tem e que também não ia parar na rua se perdesse tudo.”

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Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

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