20 de agosto de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
África(S)? – sobre Arte Africana Contemporânea

Como primeiro texto para a coluna de Artes, fiquei pensando sobre qual tema poderia iniciar. Como de uns anos pra cá meus interesses convergiram principalmente para estudos sobre arte africana, afro-brasileira e latino-americana, a proposta dessa primeira escrita é trazer essas discussões para que possamos refletir juntas e juntos novas perspectivas.

Em São Paulo temos alguns pontos culturais que nos permitem ter maior proximidade com artes que fogem ao padrão dito tradicional. Um dos espaços que contribui com um outro olhar para arte africana, afro-brasileira e indígena é o Museu Afro Brasil, localizado no parque do Ibirapuera. Até o dia 30 deste mês, a exposição África Africans, realizada em parceria com o Museu e a October Gallery, localizada em Londres, compartilha com o público um recorte de artistas africanos e suas obras contemporâneas. A exposição conta com cerca de cem obras de mais de vinte artistas, além de uma coleção de arte africana. No geral, a proposta dessa exposição também vem no sentido de abrir nossos olhares para um continente africano, sobre o qual, infelizmente, temos um entendimento muito limitado devido ao fator midiático.

O artista Yinka Shonibare, por exemplo, trabalha com estampas conhecidas como “Dutch Wax”, famosas por serem relacionadas com um símbolo africano, todavia criadas pelos holandeses e posteriormente colocadas na dinâmica do continente africano. O artista colocou grande parte dessas estampas como capas de livros, numa grande reprodução dentro do museu da British Library de Londres. Cerca de 6225 livros compõem essa obra, trazendo no dorso dos livros nomes de pessoas, algumas delas imigrantes africanas, para ressaltar a discussão sobre imigração africana na atualidade.

The British LIbrary, Yinka Shonibare (2014). Foto por Nigel Green.  Fonte: House Festival.

Yinka Shonibare, The British Library (2014).
Foto por Nigel Green.
Fonte: House Festival.

Já a artista Nnenna Okore realiza um trabalho delicado com sacos alimentícios e outros materiais reutilizáveis; ela os desmancha e coletivamente constrói-se as tramas com muitas cores, de vários tamanhos, compartilhando no nosso olhar percepções  que vão além da materialidade – desde pequenas e delicadas flores até gigantescas teias de aranha. A nossa imaginação vai longe, com muito agrado.

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Nnenna Okore

Gostaria de me desdobrar sobre cada artista, suas especificidades, e propor mediações entre elas, mas acho mais interessante instigar os leitores a pesquisar e/ou visitar a exposição. Quero, antes de prosseguir, apresentar algumas de minhas inquietações: o que seria uma arte contemporânea africana? Qual a importância de uma exposição como essa no espaço do Museu Afro Brasil? Essas questões me deixam reflexiva, pois, conhecendo um pouco mais da discussão, observarmos que nos circuitos de arte que nos cercam pouco se vê como referência artistas africanos em exposição, ou alguma obra de arte que faça referência a um continente africano contemporâneo.

Muito do que observamos em relação à arte e à África é um recorte temporal à uma arte tradicional que funciona muito bem para o mercado, que restringe nosso entendimento de arte africana à uma ideia que se estagna em um tempo, em uma forma, em uma tradição. Infelizmente somos induzidos a reduzir a importância e diversidade do continente africano na sua contemporaneidade, o qual possui pessoas produzindo, criticando, dialogando a todo instante. A mídia nos limita a uma única história, que perpassa inclusive pelas artes visuais.

Uma exposição no Brasil que viabilize como referência artistas do continente africano é um diferencial, que perpassa por grande resistência, pois infelizmente temos ainda um referencial que não abrange a multiplicidade que existe no continente africano e mais, sua intersecção potente com os lados de cá… Para entender mais sobre é preciso desvelar para conhecer outras histórias, conceitos, culturas.

Ainda dá tempo de visitar!

Site da exposição aqui.

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Mirella Maria
  • Colaboradora de Artes

Filha do seu Benedito e da dona Sonia, artista visual, educadora militante, colecionadora de amigos, fazeres e saberes.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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