2 de setembro de 2015 | Edição #18 | Texto: | Ilustração: Izadora Luz
Alcançamos o objetivo… Mas e aí?

Borboleta sempre quis ser atriz. Já sabendo como seria difícil alcançar a tão sonhada profissão, fez cursos livres antes de completar dezoito anos. Depois, fez uma faculdade de teatro, peças pequenas para cumprir currículo, muitos curtas sem ganhar dinheiro com a promessa de contatos, muitas festas para conhecer diretores, muito trabalho ganhando pouco ou às vezes nada. Mesmo com todas as dificuldades, Borboleta estava certa de que era isso que queria na sua vida adulta, ver seu reconhecimento, sua estrela, seu esforço no que sempre quis.

Então, quando finalmente lá estava, numa peça realmente grande, num teatro respeitado, num papel de destaque, algo parecia errado. Tinha tudo; múltiplos motivos de orgulho para mostrar nas redes sociais, o reconhecimento de todo seu esforço, glórias ao seu nome, sucesso de crítica, mas pensamentos pessimistas apareciam na sua cabeça.

“Não, isso está errado, tenho que estar feliz, estou conseguindo tudo o que eu sempre quis, por que estou assim, triste?”. Tenta se convencer de que é para ficar feliz o tempo todo, afinal, foram anos de luta, muito desânimo, mas sempre olhando a luz no fim do túnel. Mas algo estava deixando Borboleta não tão satisfeita como imaginava que ficaria caso conseguisse o que tanto queria.

Este sentimento não é incomum. Eu já senti, você também, ou um dia o sentirá. Passamos tanto tempo pensando nos finalmentes, no objetivo final, que, quando chegamos lá, não sabemos o que fazer. Ou não era isso que pensávamos, ou não era nada demais.

No filme Click (2006), o personagem de Christopher Walker (Morty) conta uma história ao obcecado pelo sucesso profissional, Michael Newman (interpretado por Adam Sandler). Num comercial de TV de cereais, um cara quer sempre um pote de ouro; porém, ao chegar lá, vê que na verdade eram apenas cereais. Seria mais ou menos isso que acontece com as nossas conquistas. Acabamos por colocar num pedestal e almejar tanto aquilo que, ao chegar lá, é só um “pote de cereal”.

Então devemos parar de querer alguma coisa, viver sem sonhos e apenas nos preocupar em morrer? Não, claro que não. É para isso que estamos aqui, para conquistar o que queremos. Temos os nossos desejos, queremos conquistá-los e isso é óbvio. Às vezes será exatamente aquilo que queremos. Às vezes não será. E o que fazemos depois disso? Bola para frente. Tudo bem mudar de meta, isso não te faz uma má pessoa.

Claro, desapegar do que há muito tempo trabalhamos para conseguir é difícil. E vai haver momentos que você mudará de alvo antes de chegar no fim apenas por entender que aquilo não te faz bem. É errado querer trocar? Não. Somos metamorfoses ambulantes, querendo ou não. Experiências nos são somadas, conhecimentos em algo que não sabemos também, e isso faz com que comecemos a criar novas metas a partir da antiga. E assim vamos vivendo sem entrar no tédio. Importante é não se sentir culpada quando isso acontecer. Se conheça, saiba quando algo não está mais te contemplando e faça uma nova lista de conquistas.

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

  • Laíza Helena

    Eu acho que o que nos deixa meio frustradas é que nos concentramos muito no final sem prestar atenção no caminho. Às vezes o que vale mais a pena é o percurso…

  • Kim

    Olá, Bia.

    Interessante o assunto do seu texto, tenho me questionado a respeito disso também.

    Diferente da Borboleta, no meu caso foi com a fotografia e o cinema. Mas tenho me perguntado, será que a solução é mudar de profissão mesmo? Como será que a gente percebe isso?

    Adoraria ouvir sua opinião a respeito, de boas mesmo, sem o peso de ter que me dar as respostas da vida, rs.

    Abraço!

  • Brenda

    A parte mais difícil da vida deixar de criar expectativa :/

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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