30 de julho de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Além dos pontos e das estrelas: quatro games gratuitos que não são sobre competir

Quando a maioria das pessoas pensa em videogames, normalmente o fator “diversão” é a primeira coisa que vem à cabeça. Afinal, jogos não são para a gente se entreter, dar umas risadas e depois seguir com a vida?

Mas videogames, com sua interatividade e capacidade de fazer mundos digitais complexos, podem produzir mais do que simples experiências para matar o tempo. Existem jogos que querem te fazer pensar sobre determinado tema, empatizar com algum tipo de questão que você sequer imaginava ou até mesmo aprender – o que pode ser prazeroso, mas não do jeito como normalmente entendemos “diversão”. Por isso, selecionamos quatro joguinhos gratuitos e rápidos que, cada um a seu modo, são uma boa pausa das competições pela pontuação mais alta.

Loved

Imagem: reprodução.

Imagem: divulgação.

Loved é um jogo sobre relacionamentos abusivos, o que talvez não fique claro logo de cara. Ele segue o clássico esqueminha de jogos de plataforma, no qual o personagem se desloca pelo cenário pulando, evitando buracos e inimigos até o fim da fase (a série Mario é o exemplo mais famoso do gênero), e conta com uma “voz” que, como um típico tutorial, diz ao jogador o que deve fazer em seguida.

Até aí, mais um joguinho. Mas o que torna a mensagem de Loved muito poderosa é como ele distorce uma mecânica consolidada e a usa para contar sua própria história. A “voz”, sempre tão confiável na maioria dos jogos, aqui talvez não queira seu bem. Talvez ela apenas queira que você obedeça sem questionar (o que estamos dispostos a fazer na imensa maioria dos games). E se você não fizer isso, bem… ela provavelmente tem algumas palavras duras para dirigir a você. Mas isso não importa tanto quanto ver o mundo ganhar cores (literalmente!) quando se percebe que essa voz mandona e agressiva não é lá tão grandes coisas assim.

Esse é um jogo bem rápido. Dá para terminar em 15 minutinhos e depois jogar mais uma vez, de modo diferente, para ver como ele se adapta às suas decisões. Foi produzido por Alexander Garcia, designer e animador, que tem um currículo bastante extenso e não restrito aos joguinhos. Na página dele, dá para ver de graça outras produções, que vão de belos curtas de animação a instalações interativas que requerem webcam. Super recomendado.

Today I Die

Imagem: reprodução.

Imagem: reprodução.

Criado pelo desenvolvedor indie argentino Daniel Benmergui, Today I Die brinca com as palavras, seus sentidos e a maneira como dão soluções a situações, a princípio, insolúveis. O jogo começa com um versinho (que não é nenhuma Cecília Meireles, mas paciência): “Mundo morto/Cheio de sombras/ Hoje eu morro”, acompanhado da imagem pixelada de uma moça que parece se afogar. Ter um tempinho para interagir com os elementos do cenário sem pressa é essencial porque, de forma singela, esse é um game de exploração – e você logo vai perceber que trocar certas palavras de lugar muda completamente as condições da fase.

No fim das contas, Today I Die é um game muito rapidinho sobre depressão e esperança. Embora, pessoalmente, eu não curta muito o final oferecido, o uso de palavras como mecanismo para dar as soluções ao game é bem legal e original. Daniel Benmergui parece gostar muito de explorar as mudanças de significado provocadas por alterações na ordem dos fatores, como dá para ver em seu I Wish I Were the Moon e no futuro Storyteller. Vale a pena uma conferida em sua página também.

Ah! E o game está em português, então sem desculpa para não jogar 😉

dys4ia

Foto: reprodução.

Imagem: reprodução.

Já falamos sobre a Anna Anthropy, criadora de dys4ia (lê-se “disforia”), em mais de um artigo na Capitolina. E este não deve ser o último. O jogo é provavelmente a primeira autobiografia em formato de videogame (se não a primeira, a mais emblemática), e conta a experiência muito pessoal de sua criadora de se submeter  à terapia de reposição hormonal.

Mulher trans, Anna usa a linguagem dos videogames para expressar a frustração de se sentir fora dos padrões. Afinal, que mídia melhor do que a dos joguinhos, com seus game overs e níveis de dificuldade, para falar de decepção e conquista?

Com “fases” breves com menos de 5 segundos cada, dys4ia faz a narrativa de uma jornada de aceitação que passa tanto pelo terreno do físico quanto do psicológico. Embora talvez seja mais fácil para pessoas trans se identificarem com os desafios superados por Anna, os jogadores cis também se beneficiam muito dessa experiência tão rica e podem, pelos 5 minutinhos que dys4ia dura, entender melhor e se sensibilizar com desafios que até então nunca tivessem lhe passado pela cabeça. É o tipo de coisa que só a experiência pode mostrar, ainda que de forma fragmentada.

 The End

Foto: reprodução.

Imagem: reprodução.

Dos jogos dessa lista, The End é o que tem a cara mais “normal”, além de ser o mais longo. Mecanicamente, é um platformer como Loved, e, como é comum no gênero, ele te pede para colecionar moedinhas e troféus. Mas, deixando essa parte óbvia de lado, esse é também um jogo sobre… o fim. Ou melhor, sobre como o mundo – com suas crenças, opiniões e valores diferentes –, é rico e fascinante. Em suma, The End é menos sobre a morte e mais sobre a vida. E, de quebra, ele ainda te faz aprender sobre um monte de coisa legal.

Sabe aqueles testes do Buzzfeed que a gente faz para descobrir que personagem de Harry Potter você é ou se sobreviveria a um apocalipse zumbi (provavelmente não)? Então, The End é meio como a versão longa de um teste que tenta identificar com que personagem histórico você mais se parece e qual é a sua filosofia de vida. Para isso, ele te dá uma série de fases onde, no final de cada uma, você responde a uma pergunta de sim e não. São coisas muito pessoais, como “Você acredita que animais entendem o que é a morte?” ou “Acha que alguém pode ser feliz vivendo apenas no momento?”.

De Darwin e Maquiavel a Amelia Earhart e Gandhi, dá para aprender um bocado diferentes formas de se ver o mundo, religiões, culturas e pessoas interessantes. E o mais legal é que tudo isso é opcional.  O jogo nunca vai te obrigar a engolir uma porção de informação que você não quer. Em vez disso, ele vai deixar as informações ali, para você pegar quando e se quiser.  Como o jogo é supercarismático e nada infantilóide, calha que a gente sempre quer. O estilo nonsense e positivo da animação e os quebra-cabeças de cada fase são outros pontos que tornam The End um game gratuito que vale a pena dar uma olhada.

Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

  • Gabriela

    to louca pra jogar todos!

  • Murilo Souza

    Na minha ‘To do List’ desse fim de semana.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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