5 de agosto de 2015 | Edição #17 | Texto: and | Ilustração: Bia Quadros
Alergias e intolerâncias alimentares: como lidar?

Vamos combinar: comer é uma das coisas mais maravilhosas da vida! Afinal, é em torno das refeições, lanches e belisquetes que a nossa vida social se desenrola por aí, no colégio, em casa ou em outros espaços, encontrando velhas amizades, cultivando novas, celebrando a vida. O papel social determinante da comida nas nossas vidas é inegável, e ter alguma restrição alimentar pode ser um pouco complicado, sim. Então, hoje, para desmistificar esse bicho de sete cabeças, vamos conversar um pouquinho sobre o que é alergia e intolerância alimentar (sim, são duas coisas diferentes!), contando para vocês um pouco sobre as nossas experiências pessoais com as restrições alimentares.

Iane:

Oi, meu nome é Iane, tenho 25 anos, e nunca provei uma Fanta. Também não lembro o gosto de camarão, e sofro de saudades crônicas de paçoca. Ok, vamos definir melhor: não posso ingerir nada com corantes artificiais, camarão, frutos do mar e oleaginosas em geral (como amendoim, nozes, etc.), pois todos me oferecem risco de ter sérias reações alérgicas. #AjudaEu

Fui um bebê com alergias, uma criança com alergias e sou uma adulta cheia de alergias. O medo de “empolar” me seguiu desde sempre. Muitas vezes, mesmo achando que estava a salvo, não estava. Por exemplo: o presunto utilizado em algumas pizzas pode ser de qualidade inferior, daqueles que recebem muitos corantes para parecerem apetitosos. Eu olhava a pizza, pensava: “não tem problema”, e a diversão terminava mais cedo.

Hoje meio que já me acostumei com as restrições, afinal, você vai se “adestrando” com o que pode ou não pode se envolver. Porém, as alergias alimentares são uma grande tortura quando se é criança ou adolescente. Quando criança a gente não entende muito bem, o coleguinha oferece um Cheetos, a gente acha tão atraente, uma tia sem noção diz “é só um pedacinho” e te passa um doce colorido escondido… É realmente injusto com os pequenos, que se veem privados de todo um mundo de delícias sem entender bem o porquê. Depois você passa supermal e seus pais até tentam explicar que é porque você comeu algo que não devia, mas você continua sem entender plenamente o que se passa, só sabe que deve obedecer.

Já na adolescência, quantas vezes enfrentei meus pais, reclamando: “então não vou comer nada, né? Vou viver de fotossíntese!”; me revoltava e, às vezes, encarava o que não podia só para desafiar o mundo. O resultado era quase sempre o mesmo: crises com manchas e coceiras pela pele (urticária), inchaços, cólicas e os mais variados tipos de mal-estar. Nunca sofri um edema de glote (reação alérgica na qual a garganta se fecha, obstruindo a respiração), e talvez, por minhas reações serem “toleráveis”, eu achasse que valesse a pena passar por essas crises para comer uma coisa ou outra, especialmente para não parecer estranha na frente dos colegas, que viviam caçoando do meu lanche, quase sempre levado de casa. Depois de um tempo entendi o quanto isso era bobo, que eu só saía perdendo e continuava “a estranha que não pode comer nada” ou “a esquisita cheia de manchas na pele”, de uma forma ou de outra.

Uma coisa importante de ser ter em vista nas alergias alimentares, e que me causaram um bocado de constrangimento na vida, é que urticária NÃO É CONTAGIOSA. As doenças de pele em geral trazem sempre muito sofrimento para os seus portadores porque todo mundo pensa logo “não toca nele que isso pega” e, vai por mim, isso é mega preconceituoso, migs. Que tal conversar com a pessoa, entender a condição dela e desconstruir essa visão ultrapassada? Você vai se informar e, de quebra, apoiar alguém que, com certeza, já foi bastante segregado. O apoio dos familiares e dos amigos é fundamental, não só para não se sentir um monstro cheio de manchas vermelhas, como para encarar as restrições alimentares de uma forma mais deboas. É muito mais simples lidar com uma dieta restritiva quando não tem amiguinho caçoando, alguém dizendo que é frescura ou um parente insistindo que “só um pedacinho não faz mal”. Vai por mim, faz mal SIM! E pode até matar. Se alguém te diz que não pode comer algo, respeite. Com certeza há um motivo. E mesmo que não houvesse, o que afinal os outros têm com isso, né?

Para quem não tá muito por dentro, as alergias são reações indesejáveis do sistema imunológico (responsável pela defesa do nosso organismo) e, no meu caso, são provocadas pela ingestão de determinado alimento ou aditivos alimentares (como os corantes), mas as alergias podem ser causadas por diversos fatores externos, como picadas de insetos, medicamentos ou ácaros. Os motivos para se desenvolver alergias ainda não são muito conhecidos, mas os sintomas são os mais diversos, desde dor de cabeça e vômito até o tão temido choque anafilático, no qual a pressão arterial e a frequência cardíaca caem e/ou as os canais respiratórios são obstruídos, podendo levar à morte caso a pessoa não seja socorrida rapidamente. Qualquer um pode desenvolver algum tipo de alergia no decorrer da vida. Da mesma forma, em alguns casos, o caso pode ser revertido naturalmente, o que permite que a pessoa volte a ingerir o alimento do qual tinha tanto medo. Em geral, as crises alérgicas são tratadas com medicamentos antialérgicos, a maioria à base de corticoides, um grupo de hormônios esteroides que podem provocar muitas reações colaterais graves, por isso sua utilização deve ter sempre acompanhamento médico.

As alergias alimentares são especialmente complicadas no caso de contaminação cruzada. Por exemplo, eu vou a um restaurante e como um peixe com pirão. Daí o cozinheiro achou que não tinha problema fazer o pirão na mesma panela que o molho de camarão sem antes limpá-la devidamente, e pimba! Crise alérgica sem nem saber o porquê. Ser alérgico e tentar ter vida social é viver num campo minado e, por essas e outras, ressalto que a compreensão e apoio dos amigos e familiares com a nossa “paranoia” é tão importante. Recentemente, desenvolvi uma nova restrição, intolerância à lactose, e minha vida social alimentar (que já não era simples) ficou ainda mais difícil.

Apesar de ter sintomas muitas vezes parecidos, a intolerância, diferente das alergias, não é causada pelo sistema imunológico, e consiste numa reação indesejada devido a não absorção de determinada substância (no meu caso, a lactose – açúcar do leite e derivados). Nas alergias alimentares o organismo combate aquilo que foi ingerido como um agente agressor, rápida e exageradamente. Mesmo uma pequena porção de determinado alimento pode causar uma reação alérgica grave. No caso da intolerância, o que acontece é que o corpo não tem a capacidade de digerir o alimento, e aí ele vai se acumulando. Esse acúmulo provoca uma série de sintomas inconvenientes, como dor, gases, diarreia e vômito, que podem não ser instantâneos (como em geral ocorre com reações alérgicas), mas não são nada desejáveis, especialmente se você está numa festa ou saindo com os amigos.

Por essas e outras, e por muitas experiências ruins, diversas vezes carrego marmitinha ou já saio alimentada de casa, e se a Iane de dez anos atrás achava isso um grande mico, hoje me sinto segura e feliz de dar mais importância ao meu bem-estar do que à opinião dos outros.

Carol:

Se a Iane chegou agora ao bonde dos intolerantes à lactose (traduzindo: QUEIJO NO MORE, #comolidar #comofaz #ajudacapitolina), eu já estou nessa há três anos, e não é tão ruim assim quanto vocês pensam. Vem comigo!

A intolerância é um distúrbio menos imediato que as alergias alimentares, o que é bom por um lado (muitas vezes dá tempo de comer aquela bomba e chegar em casa para passar mal no conforto do lar), mas bem ruim por outro: a intolerância é silenciosa, vai te maltratando aos pouquinhos e, quando você descobre que aquele mal-estar tem nome e sobrenome, sua saúde já está mais comprometida do que deveria. Falo por experiência própria: eu passava mal várias vezes ao mês e sempre procurava um culpado (a comida do restaurante a quilo, o bandejão universitário, etc.), só que cada vez menos eu tinha quem culpar por tanta sofrência gastrointestinal. Além disso, passava por cada situação constrangedora (leia-se: dor de barriga incontrolável nos lugares menos convidativos) que olha, não sinto saudades!

Antes de descobrir que era intolerante à lactose (já descobri mais  velha, aos 22 anos), eu não estava nada em paz com meu corpo e, para não adoecer ou desenvolver algum transtorno alimentar, procurei acompanhamento nutricional. Nunca tive dificuldade em seguir planos alimentares e já estava ficando frustrada por meu esforço não resultar em um emagrecimento saudável. Foi aí que a nutricionista sugeriu que eu procurasse um gastro, que me solicitou uma bateria de exames (exame de sangue de tolerância à lactose, raio-x do abdômen e endoscopia). Não deu outra: INTOLERANTE À LACTOSE em letras garrafais e piscantes. Na hora meu mundo caiu: como assim viver sem QUEIJO?! A boa notícia é que hoje existe toda uma linha de produtos sem lactose (incluindo queijo!) para suprir essa necessidade, afinal, os derivados do leite são pau pra toda obra e estão em muitos pratos que consumimos aqui no Brasil. No mais, o médico receitou dois medicamentos (Lactosil, em pó; e LactAid, em pílula) para eu tomar quando realmente valesse a pena meter o pé na jaca. Em suma, esses dois remedinhos são uma dose de lactase, a enzima que o meu corpo não produz/produz em pouquíssimas quantidades, para quebrar e digerir a lactose (açúcar do leite). Para mim, os dois medicamentos só suavizam e retardam os sintomas consequentes da ingestão de lactose: eu não passo mal, mas sinto meu estômago pesadíssimo, como se tivesse comido um boi; dores de barriga e dores de cabeça no dia seguinte também são bem frequentes.

Apesar de todos os pesares, hoje entendo que descobrir a intolerância foi algo bom para mim. Segundo o médico, minha saúde estava sendo silenciosamente comprometida, pois o organismo de um intolerante não consegue absorver corretamente os nutrientes de outros alimentos. Além disso, resolvi encarar a intolerância como um convite para conhecer melhor o meu corpo, me observar mais e, com isso, aproveitar melhor minha vida social: hoje sei que não vou passar mal se comer uma fatia de bolo; já se for uma pizza, passo longe!

Fazendo coro ao que a Iane disse, o apoio dos familiares e amigos é imprescindível para aprendermos a lidar melhor com essa condição. Aquece o coração quando chegamos a uma festa e a anfitriã diz que tem coisinhas sem lactose/sem corante pensadas especialmente para você! Agora, na Páscoa, sempre ganho uma caixa de bombons sem lactose da minha madrinha, uma cozinheira de mão cheia, e todos são uma delícia! Quem não gosta de um carinho desses?! No início, eu achava que essa preocupação era um fardo para os outros, mas aos poucos fui vendo que se trata de um gesto muito simples de demonstrar que “Ei! Seu bem-estar é importante para mim”. E, por fim, leve a sua condição de intolerante e/ou alérgico na boa: ria, faça piada, brinque! Isso desarma qualquer pensamento ruim, seu ou dos outros.

Iane Filgueiras
  • Colaboradora de Saúde

Iane Filgueiras, 25 anos, de São Gonçalo - RJ, é mestranda em mídia, com pesquisa voltada para comunicação e saúde. Tem vários desejos, pouco dinheiro, e muito trabalho. Sentimental, faladeira e ansiosa até o último fio de cabelo. Prefere um bom filme/série na TV com balde de pipoca e edredom a quase qualquer coisa. Tem gostos ~~infantis~~, mas é com eles que se sente mais feliz. Sonha em ir à Disney, mas nunca quis ser princesa.

Carolina Walliter
  • Revisora
  • Colaboradora de Esportes
  • Colaboradora de Literatura

Beatlemaníaca que gosta de sambar diferente com o Molejão, gosta de carnaval e de futebol mais que o recomendado pela OMS. Carioca da gema e cidadã do mundo, tradutora, intérprete, historiadora, mochileira, nômade digital, rabiscadora compulsiva em moleskines (não necessariamente nessa ordem) mas, antes de tudo, uma contadora de histórias, sobre si e sobre os outros. Escreve sobre o cotidiano da tradução em: http://pronoiatradutoria.com/

  • vanda

    Parabens Iane e Carol..por passarem suas experiencias .dividir e divulgar e fundamental!as vezes a pessoa nem sabe dw suas intolerencias ou alergias…ate o dia q a crise e tao grave q e necessario medidas drasticas..internacao e etc…e digo q nessa historia a familia q ajuda e fundamental..a mae q descobre novos pratos…o pai q ja nao pede aquela pizza ou os irmaos q nao ficam desfilando com refrigerantes e salgadinhos!!!bjs pras duas!!!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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