28 de junho de 2014 | Ano 1, Edição #3 | Texto: e | Ilustração:
Alices no país do espelho
Ilustração: Heleni Andrade.
Ilustração: Heleni Andrade.

Ilustração: Heleni Andrade.

Texto de Beatriz H.M. Leite & Clara Browne.

Olhar-se no espelho e ver-se gorda. Pode parecer uma imagem clichê, mas não deixa de ser a realidade (bastante conflituosa) de muitas garotas e pessoas por aí. Olhar-se no espelho e não ver a imagem real de si, na verdade, é o que acontece com quase todas as meninas. Ou com quase todas as pessoas, porque ninguém consegue se ver inteira e “puramente” como “realmente” é. Se desse para se ver assim, não seriamos humanos: cheios de subjetividades e camadas de experiências que influem nosso modo de enxergar e interpretar as coisas. Mas nós, garotas, somos tão pressionadas com essas imagens de mulheres perfeitas nas revistas que, ao olharmos para nós mesmas, só conseguimos ver o quão diferentes somos delas e, por consequência, o quão horríveis somos, já que nos é imposto que elas é que são bonitas e que, portanto, devemos ser iguais.

Essa história de colocar um padrão louco que devemos seguir causa inúmeros problemas de autoestima em nós, mulheres mortais como é o que devemos ser, e muitas vezes também pode causar doenças sérias, que afetam nossa saúde física e mental. E isso pode parecer longe – seja porque você se sente bem com o seu corpo, seja porque você tem consciência de que a mídia só mostra uma única imagem feminina –, mas a verdade é que pessoas com transtornos alimentares estão muito mais próximas do que imaginamos. Pode parecer um exagero falado assim, mas a realidade é muito mais maluca que a ficção e a real é que é muito comum que garotas (principalmente adolescentes) tenham transtornos alimentares. Pessoas que, às vezes, nem desconfiamos podem ter algum transtorno ou já ter passado por ele. Quando esta pauta foi sugerida na Capitolina, por exemplo, descobrimos que muitas de nós passaram ou ainda passam por algumas dessas doenças. Assim, fizemos um bate-papo sobre o assunto e, baseado nele, eu e a Clara vamos falar um pouco mais de transtornos alimentares.

Primeiro vamos desenvolver um pouco do que significa usar a palavra “transtorno”? Bom, quando falamos “transtorno”, estamos nos referindo, entre outras coisas, a um diagnóstico feito por médicos ou especialistas (ou de algo parecido com isso). O que também quer dizer que se você tem um transtorno, então, tem também o que se pode entender por “doença”. Tendo isso em mente, a gente pode pensar algumas coisas sobre “doença”: é algo que não tem a ver com um desejo pessoal (não é voluntário), não se pode controlar, amenizar ou curar se não for pelo tratamento adequado (existem muitas maneiras de tratar um transtorno e se deve procurar a mais adequada para cada pessoa – é bom lembrar que nem sempre se chegará a melhor maneira de primeira) e é algo que te prejudica física e/ou emocionalmente.

Quando a gente fala de um transtorno alimentar, a gente está falando de uma doença psíquica. A raiz do problema nesse tipo de doença mora num lugar muito mas muito mais complicado que as outras: nossa cabeça. E, de novo, não é por isso que temos controle sobre o que acontece com a gente quando temos um transtorno e também não somos culpadas por tê-los. Você não pode se forçar a ter um transtorno alimentar: isso simplesmente não está nas suas mãos. Por quê? Porque é uma do-en-ça que tem raízes dentro das ~profundezas~ mentais, emocionais e tudo que há dentro de nós: tem a ver com MUITO mais que um desejo – e talvez pouco ou nada a ver com o que conhecemos por “desejar”.

Ah, claro, se envolve tudo que há dentro de nós, envolve também tudo que absorvemos do mundo e que nos tocou (conscientemente ou não – principalmente o “não” conscientemente inclui família, a dinâmica em casa, escola, instituições diversas que influenciam nas nossas vidas e, claro, o padrão de beleza vigente. É importante lembrar que nenhum desses componentes tem influências iguais em cada pessoa, assim como é o conjunto de tudo isso que pode levar a um transtorno alimentar (não é só o padrão de beleza, por exemplo – até porque existem relatos de transtornos alimentares desde antes de Cristo).
Então a gente pode ficar, agora, com essa ideia básica de que um transtorno alimentar é muito complicado mesmo, tem muitas raízes que não são as mesmas pra cada um e, além disso, não se reduz a um mero desejo.

Se não é voluntário e também não dá pra controlar, fica difícil pensar que é questão de futilidade ou valores próprios simplesmente. O desejo de emagrecer realmente só vem de um puro e “inocente” descontentamento com o corpo que poderia ser solucionado com mais “profundidade” nos valores? Queridas pessoas, aqui nessa revista nós acreditamos que nunca é permitido diminuir ou esvaziar a dor de quem sofre um transtorno alimentar, e também não é permitido reduzir algo infinitamente complexo `a “futilidade”. Ponto final.

COMO É SOFRER UM TRANSTORNO ALIMENTAR

O transtorno alimentar (qualquer que seja) é, por assim dizer, uma relação muito conflituosa e “anormal” que alguém estabelece com a comida (o que influi na forma de se alimentar). Existem inúmeros transtornos alimentares e são todos uma grande variação de formas muito peculiares e não saudáveis (pra cabeça e pro corpo) de lidar com a comida – que, lembrando, não estão direcionadas por um simples “desejo” pessoal de emagrecer ou “querer comer uma guloseima”, e tampouco podem ser controladas pela pessoa.

Detalhe: até um bom tempo enquanto eu vivi meu transtorno alimentar (anorexia nervosa), eu tive a sensação de que estava controlando tudo a ver com minha alimentação – porque esse era o ponto, né?, fazer uma dieta – e não tinha nenhum problema com isso. Até o dia que eu tentei voltar a comer algo que não me permitia comer a tempos e… não consegui. Minha cabeça foi a mil olhando para aquele alimento e foi impossível colocá-lo no meu prato e comer. Foi quando eu percebi que não tinha nada sob meu controle. Algumas pessoas vivem outros transtornos e o processo pode ser inverso: não conseguir deixar de colocar mais e mais no prato (compulsão).

Como que alguém pode não controlar a forma que lida com a comida? Bom, agora a gente está falando de uma parte bastante complicada e muito importante do transtorno: pensamentos obsessivos. É a paranoia. A paranoia é “quem controla” a pessoa que sofre o transtorno e não o contrário. Os pensamentos obsessivos são uma sequência (sem fim) de pensamentos que não têm conexão com a realidade quando analisados de fora, mas para quem sofre disso, são como pensamentos cotidianos, bastante frequentes e que, mesmo que pareçam não ser muito lógicos (tipo 1 + 1 = 5 ao invés de 2), a pessoa que os tem sofre de extrema dificuldade para contrariá-los ou evitá-los. É tipo assim: “eu SEI que 1 + 1 = 2 mas eu não posso deixar de colocar um 5 no final dessa equação!! aaaah! socorro 1 + 1 = 2; 5 ; 2 ; 5…”. Depois de um tempo, a pessoa desiste de “saber” que 1 + 1 = 2 e prefere ficar com o 5 mesmo – ou, no meu caso, desejar pesar 43 quilos achando que isso resolveria todos meus problemas. Isso quer dizer que eu canalizava todo mal que eu sentia comigo mesma pro meu corpo. O outro problema dessa atitude, é que eu queria definir a minha imagem e meu conforto a partir de um número: algo que não conversa nenhum pouco com a linguagem corporal. Um número é completamente abstrato (o corpo não) e, para além disso, cada um tem suas própria formação genética. Para mim 43 quilos é insustentável, mas existem pessoas que podem pesar isso ou 70kg e estarão ótimas. Hoje em dia eu não me peso e não faz diferença, porque meu conforto e desconforto tem que estar em como eu me sinto com meu corpo sem nenhum intermediário. Meu corpo é meu, eu converso com ele, nada e ninguém mais além de mim deve fazê-lo.

Os pensamentos obsessivos também são muito cansativos. Eventualmente, você não quer escrever uma bíblia mentalmente antes de fazer uma refeição (ou depois, ou durante ou em todos esses momentos, vulgo 24h). São infinitos cálculos para evitar que o “pior” te aconteça (no meu caso, era engordar, mas em outros casos pode ser o medo de passar fome) ou a sensação de total perda de controle “o pior está acontecendo e eu não sei o que fazer”. Pequeno problema: quanto mais tempo com o transtorno, pior ele fica, então mais longe da realidade você fica, pior ficam suas nóias. Por isso, quanto mais rápido se identifica e trata de um transtorno alimentar, menos dolorosa será a recuperação.

No meu caso (Clara), o que aconteceu foi que eu simplesmente parei de ter fome. E, se eu não tinha mais fome, eu não comia – mesmo que passasse o dia inteiro sem colocar nada na boca. Eu achava que, com isso, estava me controlando (até porque eu sempre tive tendências a comer muito – o que é mais próximo da compulsão alimentar ou do binge -, então, não comer, me parecia como uma forma de conseguir controlar os meus “instintos”). Passei uns dois ou três meses comendo o mínimo e, durante esse tempo, é claro que emagreci muito. Meus colegas, meus professores e até mesmo meus familiares viviam dizendo “nossa, como você está bonita!” ou “caramba, como você emagreceu! ‘Cê tá linda!”, o que me fazia acreditar que eu estava indo pelo “caminho certo”. Oras, se antes eu comia e ninguém dizia nada e agora eu não como e todo mundo me elogia, eu devo estar fazendo a coisa certa, né? Errado. Se uma pessoa não come, ela perde as vitaminas do corpo; e o que aconteceu foi que um dia, eu acabei desmaiando. Foi por um breve momento, mas foi o suficiente para me alertar e perceber que eu estava desenvolvendo algo que não era saudável. Por isso, insistimos aqui: estar magra não é sinônimo de estar bonita, estar magra não é um elogio a nada. E isso custa a aprender por causa daquele padrão de beleza que nos é imposto.

Outra coisa que podemos tirar sobre esses pensamentos que tentam evitar que o “pior” te aconteça é que você não pode evitar que te aconteçam coisas ruins. De fato, não existe fórmula alguma de se safar intacta das coisas desagradáveis que às vezes a vida nos traz, nem fórmula de controlar tudo que te acontece em geral. O que isso tem a ver com comida? Diretamente, nada. É por isso que o transtorno alimentar é só uma das diversas formas que a nossa cabeça encontra de expressar alguns dos nossos problemas: o medo de sofrer, a vontade de controlar loucamente tudo a sua volta, etc.

Às vezes a gente quer controlar, acalmar ou organizar alguma coisa dentro da gente porque fora tudo parece um caos – e pode ser que a gente saiba que não dá pra fazer nada com esse caos externo, mas parece que dá pra fazer algo com nós mesmas. Às vezes, parece que tudo dentro da gente é um caos, e tentamos encontrar alguma coisa que podemos “organizar”, “mudar”, “melhorar” em nós mesmas. Às vezes, essa “coisa” é o nosso corpo. O que é difícil de entender é que não podemos controlar, organizar e concertar as coisas em nós mesmas sempre como gostaríamos. O que melhor podemos fazer é nos aceitar e não travar uma guerra entre quem somos (e não vamos deixar de ser nunca) e o quem achamos que deveríamos ser (quem é o idiota que fica me falando que eu ~deveria~ ser alguma coisa que não eu mesma?!).

Como é ter um transtorno? É viver num mundo paralelo da sua própria cabeça que, gradualmente, vai te consumindo sem que você perceba – depois é muito difícil sair. De repente, todos os seus dias são ocupados com o medo de engordar, ou a tentação por alguma comida, dependendo do que você tiver. O ponto é: podemos perceber que há algo muito maior que “simplesmente não comer” (ou vomitar sua comida, ou comer demais, etc.) quando vemos que o transtorno te afasta cada vez mais de si mesmo e do mundo.

O TRATAMENTO

Eu descobri que tinha um transtorno alimentar sem querer. Eu realmente não sabia que tinha aquilo que um dia vi na TV (em um programa do Discovery Channel, especificamente) chamado “anorexia nervosa”. Sei lá, essas garotas eram loucas e estranhas e muito mais magras que eu (ah! pera! eu tinha distorção de imagem! eu nunca ia me ver magra como gostaria! muito menos magra como elas, mesmo que eu já fosse) e tipo, eu? Doente? Não. Até que a minha mãe ficou tão preocupada e desequilibrada com o que via em mim, que soltou um dia “é fazendo essas dietas loucas que cês ficam anoréxicas”.

Busquei na internet algumas coisas e encontrei um texto com o qual me identifiquei TOTALMENTE. Falava EXATAMENTE o que eu vivia. E só no final, dizia “isso é anorexia”. Depois dessas três palavras, eu comecei a chorar como um bebê, sem entender mais nada, nem mesmo porque eu estava chorando.

Esse foi o início da minha recuperação. Foi importante eu entender que realmente era doente. Não porque alguém me disse e eu “acatei” (o que é bem raro de acontecer nesses casos), mas porque eu tive essa chance do acaso de cair num texto que me fez enxergar, através do que eu sentia e sozinha, que eu tinha um problema.

Foi um pouco depois disso que minha mãe me levou numa psiquiatra que não deu certo pra me ajudar, e depois em outra que, sim, funcionou. Eu fiz um tratamento que consistia em consultas na psicóloga, psiquiatra e nutricionista. Assim, em um processo que durou mais ou menos dois anos, me curei e me livrei dos demônios que um transtorno alimentar traz à luz dos olhos. Eu me livrei desses demônios e, em troca, pude me enxergar com mais clareza (por dentro e por fora).

Eu me entendo mais. Eu me odeio menos. Eu ainda tenho conflitos comigo mesma, eu ainda tendo a fugir de alguns monstros que vivem em mim (e que talvez nem sejam tão monstruosos assim, mas prefiro não saber) – mas como qualquer pessoa que tem um pouco de cabeça e coração. E de quebra, eu não vivo mais só dentro da minha própria cabeça: o mundo continua um inferno, mas eu já entendi seu jogo (mais ou menos). Meu corpo ainda me parece imperfeito, mas isso é porque essa é a natureza de todas as coisas. A diferença é que minha imperfeição não me dá tanto medo assim.

Ao contrário da Beatriz, eu, Clara, nunca fui de fato diagnosticada com um transtorno alimentar. Depois do dia em que eu tive o breve desmaio, percebi que o caminho o qual estava traçando estava errado e comecei a me obrigar a comer, pelo menos, nas refeições principais do dia. Aos poucos, recuperei o apetite. Isso só deu certo, porém, porque ainda não estava completamente imersa naqueles pensamentos do transtorno. Quando, mais tarde, comecei a achar que poderia estar com binge (quando você sente uma fome avassaladora em um momento específico do dia e, por causa disso, come uma quantidade absurda de coisas), fui ao médico, o qual disse que aquele não era meu caso, me explicando medicamente como se dá cada transtorno e como não é o meu caso atual. Apesar disso, decidi começar a visitar uma nutricionista.

Uma coisa importante de quando se vai ao médico ou ao psicólogo é não mentir sobre o seu estado. Falo isso porque quando fui ao médico e comecei a contar o meu caso, tive medo de ele me julgar. Quando contei para ele que, em um ataque de ansiedade, comi 18 barras de Twix e ele disse “Isso é muito”, eu fiquei nervosa, achando que ele estava me julgando gorda e descontrolada. O mesmo pode acontecer ao contrário, quando a pessoa diz que “isso é pouco”. É muito fácil se envergonhar por estar “fazendo algo errado”, mas tenha em mente que um transtorno alimentar é uma doença e, se você não contar a verdade para o seu médico ou psicólogo, ele não poderá te ajudar. Pode ser difícil querer sair do transtorno dependendo até onde você foi com ele, mas é possível encontrar a força que se necessita para pedir ajuda. E essa força vai te ajudar para o resto da sua vida.

Se você sofre de um transtorno alimentar ou conhece alguém que possa sofrer de um, busque ajuda. Não se perca, não deixe que essa pessoa se perca. Ir contra si mesma é muito mais doloroso do que se descobrir, porque, garantimos, todas temos muitas coisas boas dentro de si, e o corpo, essa caixinha que nos carrega, também pode ser uma delas – sem sofrer nenhuma tortura.

Beatriz H. M. Leite
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Beatriz H. M. Leite, 21, é paulistana e mora em Buenos Aires. Além de cartas não enviadas, coleciona cartões-postais e histórias dignas de novela mexicana.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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