3 de outubro de 2015 | Edição #19 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Amadurecer: meninos x meninas

2004, São Paulo. Numa sala de aula qualquer, estava numa aula de inglês, na sétima série. Atividade em dupla, minha melhor amiga estava sentada ao meu lado e, atrás de nós, havia dois colegas da turma. Tudo estava correndo bem até que um deles bate com o dicionário na parte de trás da cabeça da minha amiga e todos caem na gargalhada. Com minha amiga se desfazendo em lágrimas ao meu lado, eu grito para a professora, esperando que ela repreenda os meninos, e a resposta dela é: “Ah! Esses meninos! São assim mesmo.”

Espera aí, volta tudo. Será mesmo?

Quantas vezes já ouvimos que as mulheres amadurecem mais cedo que os homens, que meninas gostam de se relacionar com meninos um pouquinho mais velhos pois os colegas de classe delas são muito infantis? Esse é um discurso muito comum em nossa sociedade e não tenho dúvidas de que existem diferenças biológicas entre a forma que o cérebro de meninos e meninas funciona. Porém, eu acredito que já até tenha passado da hora de tentármos entender um fator importantíssimo para essa diferença de maturidade entre meninos e meninas: a construção social. O que isso quer dizer? Desde cedo, nós meninas somos cobradas das mais diversas formas: ajudar no trabalho doméstico, portar-se direito, falar baixo e não usar palavrões, sorrir, cruzar as pernas ao sentar. São tantas cobranças e pressão social para que nos encaixemos naquele perfil de “boa menina” que alguém criou e achou uma boa ideia espalhar por aí. Espera-se que sejamos maduras. Os pais e familiares ressaltam: “Que menina madura! Tão adulta para a sua idade!” E, enquanto isso, o que seus irmãos e primos estão fazendo? Jogando futebol, videogame, vendo TV ou lavando louça e tentando mostrar como são maduros para a idade deles? Infelizmente, na maioria dos casos, a cobrança para que os meninos amadureçam cedo é menor.

Quando somos educadas, ao longo do anos, a opinião dos adultos influencia muito nossa percepção do mundo pois eles são nosso ponto de referência. E, por conta disso, nossos pais, familiares e professores nos transmitem os estereótipos de gênero presentes em nossa cultura. Com o tempo, vamos absorvendo tudo isso e passamos a acreditar que existem comportamentos “certos” e “errados” para cada gênero. Não é fácil fazer com que as pessoas enxerguem que não é saudável pensar assim, que não está certo as meninas sempre serem cobradas desde cedo e os meninos sempre serem perdoados pelas bobagens que fazem.

E como combater esses estereótipos de gênero? Que tal mostrar aos pouquinhos que os meninos não devem ter essa carta branca para fazer e falar besteiras, e que eles podem ter tanta maturidade quanto nós? Podemos plantar uma sementinha de dúvida na cabeça de nossos professores quando eles reforçam esse tipo de mito, perguntando se eles realmente acreditam que os meninos são mais infantis ou se a sociedade permite que eles sejam assim. Ser menino não é desculpa para agir de forma infantil e é importante que a gente guarde isso no fundo da alma e mantenha em mente nas várias vezes em que enfrentaremos situações assim. E, se aqui em 2015 eu pudesse daqui mandar um recadinho pra mim e pra professora naquela longínqua manhã de 2004, eu diria: migos, melhorem. Professora, melhore. Vamos conversar sobre isso?

Carolina Sapienza
  • Colaboradora de Relacionamentos e Sexo
  • Revisora

Carol nasceu em 1991 e mora em São Paulo. Bióloga que queria ser de humanas, gosta de escrever sobre ciência mas mantém o caderninho de poemas sempre na bolsa.

  • Fernanda

    Aplaudindo de pé. Até que enfim alguém toca nesse assunto! Obrigada Carol, obrigada Capitolina. Tenho vontade de esfregar essa revista no meu corpo nu, é muita lindeza. Seria mágico se tivesse uma versão impresso. Eu me imagino pedindo pro jornaleiro a capitolina do mês, ó que emoção. Acumulando as revistas na minha escrivaninha para ler e reler e reler…

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos