7 de janeiro de 2019 | Ano 5, Edição #45 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Amanhã vai ser outro dia

Pode ser uma traição; uma grande frustração escolar ou profissional; a morte de uma pessoa querida; uma doença inesperada; a ascensão de ideias políticas que ameaçam nossa liberdade e nosso corpo: às vezes, ao longo da nossa caminhada, acontece alguma coisa que abala tudo, seja no mundo material, seja no nosso mundo interno. Em consequência disso, se abalam nossas motivações e nossas forças para arregaçar as mangas e seguir adiante.

Quando estamos no olho do furacão – ou mesmo contemplando os destroços deixados após a passagem do furacão –, é muito comum que nossos olhos se fixem sobre este cenário e mandem para nossa mente a informação de que ele é imutável, de que a bagunça é grande demais para que seja possível sair dela. Então, bate o desânimo, o desespero, uma vontade louca de se esconder ou de fugir. Mas a verdade é que o olhar que nos provoca esses sentimentos é um olhar de lupa, que amplifica e congela um pontinho muito específico da nossa trajetória. Se nesse momento, no meio do furacão, conseguirmos remover a lupa e substituí-la, digamos, por um olhar panorâmico lançado sobre nossa vida a partir de um local muito, muito alto, veremos que, para além do momento presente, se estende, atrás e adiante, uma estrada cheia das mais diferentes curvas, subidas e descidas, levando a múltiplos lugares e experiências.

A gente pode e precisa sentir o presente, é claro. O fato de que o tempo passa e traz mudanças não invalida ou diminui a dor. Mas a gente não é a dor. Nossa vida não se restringe ao momento do sofrimento. Por isso, ele não deve nos paralisar ou guiar nossa visão de futuro. Em uma conversa com a Jout Jout, Gustavo Gitti[1] falou sobre o “e-mail do dia seguinte”, observando a possibilidade de que, um dia após uma pessoa cometer suicídio, chegasse para ela uma mensagem que mudaria tudo. A saúde mental é um tema complexo, que merece ser tratado com muita prudência, conforme suas especificidades, mas o que nos interessa nessa imagem é seu sentido metafórico, que nos lembra da natureza impermanente da vida humana. Gitti pontua que “o problema é não ver saída”. O sofrimento existe, a vontade de desistir existe. Mas também existe o dia seguinte.

A história pessoal de cada um de nós é uma história de “dias seguintes”. Todos já passamos tanto por tristezas profundas, como por alegrias intensas, que hoje não nos afetam como afetaram no momento em que estavam sendo vividas. Pode até ser que ainda nos afetem, mas não nos impediram de seguir vivendo e de experimentar outras alegrias e tristezas. A história das civilizações e do Brasil também são histórias de “dias seguintes”. Nas décadas de 1960 e 1970, os “presidentes” brasileiros eram ditadores que perseguiam e torturavam. De 2011 a 2016, a presidenta brasileira foi uma mulher perseguida e torturada em sua juventude por esses mesmos ditadores. Chico Buarque não poderia estar mais certo quando cantou que “apesar de você / amanhã há de ser / outro dia”[2].

A música e a poesia, mensageiras da verdade, valiam no Brasil de então e continuam valendo no Brasil de agora: estamos em tempos difíceis, tempos de luta, certamente haverá muito trabalho a ser feito. Trabalhemos, então. Com um pouco de fé e com muita força, a gente pode desinventar a tristeza e ver o novo dia raiar.

[1] Você pode conferir o vídeo completo da conversa e um texto sobre “o dia seguinte” em: http://www.gustavogitti.com/o-dia-seguinte/. Acesso: 14 dez. 2018.

[2] Você pode ouvir a música completa em: https://www.youtube.com/watch?v=HVLK-Xep9-o

Leandra Postay
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Sociedade

Leandra Postay é capixaba nascida e criada no mar. Mora em SP e estuda literatura brasileira, pesquisando sobretudo patriarcalismo e violência. A única coisa que sempre quis e continua querendo é escrever. Aprende muito com os livros, mas aprende mais com a yoga e a cozinha. Acredita que um mundo melhor começa dentro de nós.

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