14 de junho de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração:
Amantes Anônimas: a dependência dos relacionamentos.
Ilustração de Bia Quadros

Ilustração de Bia Quadros

Os passos que rondam o início de um relacionamento são quase sempre os mesmos: a atração por outra pessoa, os encontros e desencontros pelos quais passamos para nos relacionarmos com ela – e aí bota uma boa carga de situação engraçadas, desagradáveis, inesperadas, apaixonantes e por aí vai – até atingirmos uma almejada estabilidade na qual podemos dividir, finalmente, nossos sentimentos, rotina, fofurices e muuuitos beijos e abraços.

Cada uma de nós passa/vai passar por rotas diferentes até afirmar que sim, está em um relacionamento. Para isso, podemos ter ajudas de amigos, mãe, pai, vizinha e até mesmo do bichinho de estimação: seja na hora de aconselhar ou de nos ouvir em nossas decepções e novidades. Mas quando o namoro realmente se firma, passamos a ter uma vida totalmente diferente. Explico melhor: nossas atitudes diárias passam a mudar drasticamente. Sabe aquela amiga para quem você ligava todas as manhãs ou puxava qualquer papo no chat? Sabe aquele tempo vago no fim de semana, depois dos deveres da escola ou da faculdade, em que você geralmente se reunia com os amigos para qualquer programa divertido? Sabe aquele círculo vicioso de amigos para quem você sempre se abria para contar qualquer coisa da sua vida? Então, tudo isso pode (e provavelmente vai) mudar, pois a pessoa com quem você está se relacionando irá entrar em cada um desses espaços.

Poder mudar não significa que, de fato, irá mudar. Há meninas que conseguem manter suas relações incluindo o parceiro ou parceira em seu círculo de amigos (muitos casais, inclusive, se formam nesses círculos; anos de amizade que acabam terminando em romance), sem que sua rotina tenha uma mudança drástica. Mas também há meninas que, por inúmeros motivos, passam a encaixar o namorado em qualquer lugarzinho disponível em suas vidas – substituiriam até o ar por suas presenças, se isso fosse possível – gerando um sentimento pouco saudável: a dependência.

Depender de um relacionamento ou, mais especificamente, da pessoa com quem você se relaciona, pode agregar muitas coisas ruins à sua vida de inúmeras maneiras. Sabe aqueles exemplos que eu citei acima (sobre a amiga com quem você conversava todas as manhãs, suas saídas aleatórias e o grupo de amigos para quem você sempre desabafa)? Pois é, é exatamente aí que pode morar o problema. Não é errado, de forma alguma, você inserir na sua vida a pessoa que ama como confidente, parceira de rolês ou qualquer outro papel que seus amigos tenham na sua vida. O problema é você subestimar e acabar deixando de lado suas relações antigas porque, de repente, arrumou um outro alguém. Você não faria isso se, por exemplo, tivesse conquistado uma nova amizade, certo? De certa forma (e acima de tudo) é o que conquistamos com o amor também – uma nova amizade -, o que nos dá espaço pra pensar que nenhuma das pessoas importantes em nossas vidas deve ser esquecida ou ignorada por conta de um novo relacionamento.

Ok, mas aí você percebeu que sim, você realmente acabou substituindo seus amigos por conta do seu namoro. Aliás, já até recebeu algumas declarações de amigos, bem chateados com o seu comportamento dos últimos tempos, afinal, há tempos em que você não escreve, não dá notícias ou pergunta como é que eles estão. E agora, o que é que eu faço? Bom, perceber e aceitar que você está absolutamente dependente do seu parceiro ou parceira para tudo que faz na vida (ir ao cinema, ao teatro, a um show, conversar, ligar de madrugada, comentar sobre aquele livro maneiro etc) já é um grande passo, pois quando nos relacionamos tendemos a achar que aquela pessoa “é nossa vida” e que ela deve participar de tudo que nos diz respeito. Mas também é bem legal a gente dividir isso de modo a entrar em contato com nossa própria privacidade e gostos pessoais: sair com os amigos (aqueles, que você possivelmente esqueceu e que possivelmente estão morrendo de saudades), com a família, fazer coisas diferentes com pessoas diferentes – coisa que não só fará com que você saia da esfera amarrada que é a vida a dois (ou a três, quem sabe), mas também que te faça adquirir outras experiências para si mesma. Além de tudo, essa atitude faz com o que o próprio relacionamento respire; com novas experiências você pode agregar novas conversas com seu(ua) namorado(a) e outras visões de mundo que vocês não tinham antes. E também dará espaço para que seu(ua) parceiro(a) faça o mesmo, ampliando as experiências dele(a) também! E, para isso, confiança e respeito são coisas que você deve ter em acordo com quem partilha este namoro – e essas são coisas que só você e ele(a) podem problematizar, discutir e chegar a um comum acordo.

Ser independente no relacionamento significa muitas coisas, mas adianto: todas elas são incríveis e boas! É bom a gente se deparar com o fato de que podemos amar alguém e mesmo assim manter nossos próprios compromissos, coisas, vida pessoal e, no fim, ainda termos alguém para encher de carinhos, carícias e muito amor! Além de manter seu relacionamento num patamar extremamente saudável, você acaba por evitar possíveis desgastes e sofrimentos futuros. Já pensou que chato seria você perceber que é totalmente dependente do seu relacionamento apenas quando ele chegar ao fim? Aí será muito cruel: você sentirá falta de alguém que passava praticamente 24 horas do dia com você e de todas as atitudes dessa pessoa, o que fará com que essa experiência não seja das melhores (ok, vamos ser sinceras: será péssima) e com que você tenha dificuldades de restabelecer sua antiga rotina ou construir uma nova, achando que jamais será capaz de continuar a viver sem essa pessoa. Pois eu digo, com todas as letras e em caps lock: SIM, VOCÊ VAI CONTINUAR VIVENDO, FLOR, E MAIS DO QUE ISSO: VOCÊ E SÓ VOCÊ DEVE (E PODE!) BASTAR A SI MESMA. Não nascemos e morremos sozinhos? Pois então: não há nada nesse mundo que não podemos fazer de tal forma!

E que fique bem claro: negar a dependência do amor não significa negar o amor! Significa regrá-lo de uma forma desregrada, livre e autossuficiente… Seja lá o que isso queira dizer. =)

 

Ilustração de Bia Quadros

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Má Dias
  • Coordenadora de Social Media
  • Coordenadora de Literatura
  • Colaboradora de Artes

Má Dias, 21 anos. Mora em um Rio de Janeiro, mas ama uma São Paulo. Estuda Comunicação Social na UFRJ, aceitou o árduo (e feliz) caminho de ser jornalista e foi parar no incrível mundo das redes sociais. Adora uma bagunça, ler, criar e inserir livros novos na sua estante: tudo culpa do Aquário com ascendente em Capricórnio. Segue firme e forte encarando o 7x1 de cada dia.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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