12 de dezembro de 2015 | Relacionamentos & Sexo, Sem categoria | Texto: | Ilustração: Isadora Maldonado.
Amar não basta…

Talvez tenha sido essa uma das constatações mais difíceis de chegar em minha vida. O que está, de algum modo, relacionado ao fato de sermos educadas para idealizar o amor. Então, temos amigos e achamos que independentemente do que eles façam estaremos ao seu lado. Ou começamos a nossa vida amorosa achando que quando amamos necessariamente aceitamos tudo o que vem da outra pessoa. Os defeitos e as qualidades.

Mas será que é assim mesmo?

Bem, se estivermos pensando em defeitos como apertar a pasta de dente no meio ou esquecer de tirar a toalha molhada de cima da cama, até pode ser, mas não são bem esses os defeitos que costumam nos incomodar profundamente — pelo menos não a mim, se tiver um/a virginiana/o lendo o texto vai saber, rs…

O que incomoda de forma profunda geralmente está associado a algo que nos faz mal.

Então faz mal conviver ao lado de alguém que o tempo todo comete grosserias, não elogia nada que fazemos, acha que precisamos encarar o mundo da mesmíssima forma que ele faz, que precisamos gostar das mesmas pessoas, não nos dá nenhum suporte ou só traz mensagens negativas como “você não vai conseguir” ou nos manda mensagens bizarras quando estamos mal, porque ficam felizes de não serem as únicas pessoas a estarem mal.

São esses apenas alguns exemplos do que pode nos incomodar.

O mais interessante é pensar que esses incômodos não vêm apenas de pessoas que nos relacionamos de forma amorosa.

Essas reclamações constantes sobre a nossa forma de fazer nossas tarefas ou do modo que decidimos viver/enxergar o mundo e as relações que aqui estabelecemos pode vir de muitas pessoas diferentes: namorada/o, pais, amigos, primos, tios, irmãos…

É curioso pensar o quanto está em voga falar de relações abusivas entre casais, mas muitas vezes não conseguimos perceber que o abuso pode estar presente em qualquer tipo de relação.

Então, é importante frisar que quando não há respeito, empatia, cuidado, afeto e reciprocidade, ao mesmo tempo em que há muitas exigências, defeitos apontados o tempo todo, transformação de nossos ombros em um muro de lamentações ou do nosso colo no lugar em que se despeja todos os problemas — sem haver sequer um contrabalanço do compartilhamento dos momentos felizes —, podemos estar diante de fortes sinais indicativos de que precisamos repensar nossas relações.

Amar está inerentemente relacionado a se importar, para mim. É óbvio que cuidar de si mesmo é uma tarefa muitíssimo importante, no entanto, saber que aquelas pessoas que amamos se importam com o que passamos e demonstram sempre que possível que estão ali, caso façamos uma ligação de madrugada ou precisemos de um chá no meio da tarde, é muito importante para sairmos de alguns buracos que nos metemos de vez em quando.

É claro que estar ali para o outro não pode fazer com que não estejamos ali para nós mesmos. O que quero dizer com isso é que as relações exigem reciprocidade de cuidados, então não podemos fazer do outro um muro de lamentações constante sem considerarmos o que aquela pessoa também está vivendo. Não podemos querer que o outro nos carregue em seu colo, se no colo dele também estão transbordando problemas, dilemas e irritações.

É preciso, portanto, que haja um contrapeso do que acontece naquela relação, que não deixemos ninguém nos transformar no lugar em que se chega, se despeja tudo que se sente e vai embora. Ao mesmo tempo, também não temos o direito de fazer isso. Em vez de transformamos pessoas em nossas muletas, precisamos agir de modo a formamos redes de apoio mútuo, nas quais fortalecemos pessoas, mas também somos fortalecidos. Isso porque uma relação saudável liga-se estritamente ao respeito pelos momentos que o outro está passando. Respeitar é uma palavra-chave para um bom relacionamento, seja com a família, amigas/os ou namoradas/os.

Mas, diante disso, a pergunta que fica é: o que a gente faz quando constata que, por mais que amemos alguém, aquela pessoa nos faz mal? Ou, em outras palavras, quando percebemos que não se tratava bem de amor — pelo menos amor envolto de reciprocidades —, mas era mesmo uma cilada?

A forma ideal de reação parece exigir que conversemos. O diálogo pode ser importante, retratar a forma que aquele indivíduo faz com que nos sintamos. No entanto, às vezes, ao notarmos o que o outro faz com a gente, não há disposição para conversarmos com aquela pessoa ou a conversa pode apenas resultar numa confirmação do que já sabíamos, isto é, que aquela pessoa passa longe de uma figura que queremos que esteja ao nosso lado dali em diante.

Entretanto, mesmo constatando tudo isso, o sentimento não vai sumir de repente. E se há sentimento, precisamos tentar agir de modo a não chegar em extremos. Bom, eu gostava de uma pessoa x, arrastava um bonde por ela, aí percebo que ela não daria uma volta sentada no bondinho que eu estava arrastando, e aí? Como ficamos?

Perceber isso pode ser dolorido, provavelmente será. Mas pensar que poderíamos passar a vida inteira sendo amigas ou nos relacionando emocionalmente com alguém que não se importa de fato com a gente me parece muito pior. É preciso aprender que amar também significa ir embora. Porque sempre que for preciso escolher entre si mesmo e uma outra pessoa, a escolha deverá ser o eu. É porque nós somos de fato a única coisa que levaremos para sempre, junto de todas as relações que construiremos, é verdade, mas também com os rompimentos que forem necessários no caminho. Então, ao constatar que alguém te faz mal, que não há reciprocidade na relação, respeito ou que de algum modo aquela pessoa te fere e não faz nada para remediar, afaste-se.

Não precisa ser um afastamento dramático, não precisa haver cartas ou ligações, nem precisa ser brusco. Mas é importante aprendermos que por mais que as relações sejam complexas, elas só continuarão valendo a pena se nos fizerem felizes e nos trouxerem algum grau de encontro de si mesmo no outro. Só valerá a pena quando houver mais alegria que tristeza, pois o amor sozinho não sustenta nada.

Amor para ser vivido requer esforço, esforço para que o outro esteja bem ali. Esforço para que o envolvimento não seja superficial, para que conheçamos e façamos do outro também um pedacinho de nós. Se não há nada disso, apenas o sentimento que pulula dentro da gente, é melhor aprendermos a ir embora. E ir embora pode nos levar a outras estradas em que sentem no bondinho com a gente e possamos viver acontecimentos maravilhosos, de fato compartilhados.

Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

  • Kathleen Rech

    ” Mas é importante aprendermos que por mais que as relações sejam complexas, elas só continuarão valendo a pena se nos fizerem felizes e nos trouxerem algum grau de encontro de si mesmo no outro. Só valerá a pena quando houver mais alegria que tristeza, pois o amor sozinho não sustenta nada.”

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