14 de fevereiro de 2018 | Ano 4, Edição #42 | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
Amigo ex é melhor que ex-amigo

Ao perguntar a várias pessoas o que é ser um bom amigo, recebi respostas das mais variadas, porém todas elas tinham algumas coisas em comum. Basicamente, as pessoas concordam que para ser um bom amigo você precisa ser empático, cultivar carinho, confiar, se fazer presente e respeitar as escolhas e defeitos de outro ser humano. Muita gente me falou também o que não deveria existir em uma boa amizade: na visão delas, quando se está entre amigos não há espaço para egoísmo e competitividade. Acredito que estas são respostas que todos nós, em alguma medida, temos em nosso imaginário, certo? Coisas que nos ensinam quando somos crianças e vão moldando nosso padrão de relacionamentos.

Entretanto, houve outras respostas menos convencionais. Ouvi sobre como a amizade depende não só do quanto duas pessoas se fazem bem, mas também dos momentos que elas estão vivendo. Reciprocidade de sentimento e de momento de vida importam para construção de uma relação. Disseram também que é preciso uma compatibilidade de intensidade relacionada a esse sentimento, já que às vezes as pessoas podem se gostar em intensidades diferentes, aceitar e não condicionar seu amor à intensidade dos sentimentos (ou maneira de demonstrá-los) do outro é essencial para que uma amizade amadureça, mantendo dessa forma o respeito pela individualidade do amigo.

É interessante notar como todas essas concepções a respeito da amizade valem para vários outros tipos de relacionamentos saudáveis. Esperamos sempre estar cercados de pessoas que nos respeitem, nos tratem com carinho, compartilhem suas vidas conosco e nos permitam compartilhar as nossas com elas. Por esse ponto de vista, qualquer boa relação humana deveria ser, antes de tudo, uma amizade, até mesmo as relações românticas/sexuais. Se pararmos de colocar nosso afeto em caixinhas delimitadas por rótulos isso faz ainda mais sentido. Encarar namorados e namoradas como amigos torna tudo mais leve. É estranho pensarmos no quanto exigimos mais perfeição dos nossos parceiros e parceiras do que exigimos de amigos e amigas.

Isso explica um pouco o fato de não existir uma cena estereotipada de “término de amizade”, mas existirem inúmeras relacionadas ao “término de namoro”. Quando vemos esse tipo de situação em novelas, filmes ou músicas parece que eles precisam ser, necessariamente, dramáticos. Com playlist triste, lágrimas rolando enquanto alguém escorrega pela parede em direção ao chão e portas batidas. Parece que aquelas duas (ou mais) pessoas nunca mais se falarão ou se cruzarão na rua, sendo completamente estranhos um para o outro no dia seguinte, de forma que toda intimidade construída desaparecerá.

Será que isso deve ser sempre assim? Quando um envolvimento romântico termina a relação de amizade também precisa terminar? Não existe resposta certa para essa pergunta. A realidade é que ninguém nos ensina a lidar com términos, e mesmo que alguém tentasse fazer isso, as histórias de fim de relacionamentos românticos são tão diversas que provavelmente não conseguiria. Às vezes, duas pessoas que se gostam muito percebem que não querem/podem/conseguem ficar juntas em um envolvimento romântico e/ou sexual e decidem continuar suas jornadas de um jeito diferente. Às vezes, uma das pessoas se apaixona por uma terceira. Às vezes, as expectativas em relação ao futuro não são as mesmas e não faz sentido permanecer nesse relacionamento, para um dos envolvidos. Enfim, inúmeras coisas podem culminar em um término de namoro, mas se as pessoas forem transparentes e se tratarem com respeito dificilmente isso precisará ser tão dramático quanto as obras de ficção insistem em retratar.

Considerando isso, será que não está aqui uma daquelas situações em que a gente só reproduz o que vê por aí, colocando todo “ex” em uma mesma posição em nossas vidas, sem parar de fato para pensar no que é melhor para o nosso caso individual? Veja bem, todos temos quase a mesma concepção sobre o que é amizade, todos temos a noção de que não é fácil ser e encontrar um amigo, mas assim que nossos parceiros e parceiras deixam de se relacionar romanticamente conosco nós os expulsamos das nossas vidas independentemente do quanto eram bons como amigos. Essa é uma lógica um pouco cruel e bastante perigosa. Descartar pessoas ao invés de ressignificar o seu papel no nosso cotidiano, através da compreensão, é com certeza mais fácil, porém nem sempre nos fará mais feliz.

Os desafios de assumir um novo papel na vida de quem um dia desejamos, passam pela tristeza, pelo sentimento de rejeição, pela comparação com novos parceiros do outro e pela incerteza sobre os próprios sentimentos em relação àquela pessoa. Isso é comum e humano, faz parte do percurso se afastar em um primeiro momento, até se sentir confiante, para voltar a lidar com um ex, ou mesmo se sentir estranho na posição de amigo, mas precisamos nos lembrar que, na maior parte dos casos, se uma pessoa foi tão interessante a ponto de nos apaixonarmos por ela, provavelmente é interessante o bastante para ser nossa amiga.

 

(Querida pessoa que leu esse texto, se seu ex-parceiro ou parceira abusou de você física, psicológica ou emocionalmente saiba que o elo de amizade entre vocês foi quebrado por ele ou ela durante esses abusos. Você não deve de forma alguma se sentir mal por não manter essa pessoa em sua vida. Você está apenas se respeitando e fazendo o melhor por você, isso é admirável! Esse texto é válido apenas para términos e relacionamentos saudáveis.)

 

Ester Borges
  • Colaboradora de Educação

Desde 1997, Ester anda pelo mundo e o experimenta de forma curiosa. Talvez seja por isso que estuda relações internacionais na USP e tenta se convencer que é uma pesquisadora. Frequentemente considerada otimista, ainda não tem grandes conquistas, porém acredita que descobrirá entre o amor ao próximo e a militância política algo que fará a humanidade se relacionar melhor. Provável que já tenha lido ficção demais.

  • André Seiki Aragaki

    ESTER, QUE TEXTO SENSACIONAL

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