6 de junho de 2016 | Ano 3, Edição #27 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Amor de fã, seu poder e suas bizarrices

“Eles nem sequer sabem o que é ser um fã. Sabe? Amar verdadeiramente alguma música boba, ou alguma banda, tanto que chega a doer.”
Sapphire, Quase Famosos (2000)

Amor já é uma coisa, até certo ponto, inexplicável: por que, exatamente, nós desenvolvemos afeição por uma pessoa ou coisa em particular? O que determina o tempo de duração dessa afeição? Essa bagunça toda adquire uma natureza ainda mais estranha quando o alvo de todo esse amor – e acredite, é muito – são pessoas com as quais você não tem contato e muitas vezes nem existem.

O famigerado fandom existe há séculos, por mais que muitos queiram pintá-lo como um fenômeno recente de uma sociedade moderna obcecada por ícones (blá-blá-blá), e já foram encontradas uma penca de cartas discutindo minuciosamente trabalhos de grandes autores como Shakespeare, outras falando sobre como Keats era a melhor pessoa no planeta Terra, e que ela (a remetente da carta) guardaria com carinho até uma folha de árvore se soubesse que ele tinha pisado ali. Soa familiar? Pois é.

Baseando-me na minha experiência, só existem dois tipos de pessoa no mundo quando se trata deste assunto: as que entendem por completo e passam pelo mesmo que você e as que não fazem a menor ideia de como alguém pode sentir tanta coisa por pessoas, histórias, músicas… Enfim, arte. Existem muitas maneiras de apreciar algo como fã – alguns se envolvem na produção de trabalhos derivativos (fanfics, fanarts, análises profundas sobre determinado conteúdo), outros preferem que seu hobby seja mais relacionado a listar e catalogar informações (episódios, performances ao vivo, frases, fotos…) – mas uma constante inegável é mesmo a relação de proximidade que você sente com seu objeto de adoração.

A arte foi feita para transmitir sentimentos, sensações e pensamentos – essencialmente, as impressões, a visão de uma pessoa do mundo ao redor ou de universos completamente desconhecidos. Ambos cenários são igualmente empolgantes, a meu ver, pois têm o potencial de te levar a lugares – tanto físicos como figurativos, no sentido de conhecimento e descoberta – que você nunca pensaria em visitar normalmente. É como ter alguém te guiando pelo próprio mundo, quer ele seja composto pela cena noturna jovem do norte da Inglaterra ou dos inúmeros reinos de Westeros. Ver algo – quer seja físico, real, tangível ou não – pelos olhos de outra pessoa – novamente, real ou não (o caso de personagens narradores) – é sempre enriquecedor, cujo potencial é amplificado pelo nível de disposição de um fã.

Quantas vezes eu não tracei as influências dos meus artistas favoritos e acabei agregando ainda mais arte à minha vida? Quantas coisas sobre a cultura de um determinado país cada história que eu li já não me ensinou? Quantas palavras de línguas estrangeiras eu já não aprendi por todas essas experiências? Algumas coisas aleatórias que eu conheci por meio do amor inicial que eu senti por um único artista: Soren Kierkegaard, David Bowie, e.e. Cummings, Princestarta (um bolo), Paradise Lost…. Eu compreendi os malefícios de governos totalitários em um nível pessoal por causa das narrativas em primeira pessoa de romances distópicos.

Nesses inúmeros caminhos pelas mentes alheias, você acaba encontrando maneiras de ver que diferem completamente da sua, mas têm uma beleza hipnotizante e até mesmo algumas que são tão parecidas com a sua que chegam a assustar.

Ser fã é, para mim, antes de tudo, essa sensação de poder adentrar por universos infinitos e conectá-los entre si. Sempre foi uma maneira incrivelmente satisfatória de buscar conhecimento e conexão sem deixar de me divertir no processo – e a imersão que naturalmente envolve esse ato de ser fã te deixa viver com tudo isso dentro de você, numa mistura que acaba sendo sua e das pessoas que a produziram simultaneamente. Um dos meus artistas favoritos, Win Butler, do Arcade Fire, diz que álbuns de música sempre tiveram a função, para ele, de abrir mais a sua mente para o mundo e “meio que me dar as ferramentas para ser humano”.

Vendo por essa ótica, dá para entender facilmente porque o amor de fã às vezes passa dos limites e se converte em assédio e outras coisas feias que nada se assemelham ao amor. No processo de compartilhar do universo alheio, muitos acabam acreditando serem donos integrais dele ou se iludindo sobre o quanto realmente conhecem sobre aquela determinada pessoa.

Em seu modo mais comum – saudável – o relacionamento de um fã com a arte que ama (e, claro, aquele que a produz) envolve preocupação acerca de como lidam com ela (e com seu produtor – novamente, falando da minha experiência: eu sou uma fangirl particularmente materna), identificação, curiosidade, inspiração e, em suma, uma noção de estar um pouco menos sozinho no mundo. Muitas vezes, ela é uma maneira de expressar desejos que não são bem vistos em outras ocasiões: é só pensar em como a loucura gerada por Elvis Presley (the pelvis…) permitiu, de certa forma, que garotas adolescentes fugissem das rígidas regras que ditavam a expressão sexual feminina – cujos ecos existem até hoje – de forma massiva pela primeira vez na história.

No fim, é aquela coisa: love lifts us up where we belong (o amor nos eleva até onde nós pertencemos – espero que você tenha lido o verso na voz do Ewan McGregor). O amor tem o poder de nos levar além do que conhecemos – sobre nós, sobre o mundo, sobre os outros – e é isso que faz dele um sentimento tão fascinante. Ser fã é sobre a curiosidade, idealismo e necessidade de conexão humanos em seu estado mais ingênuo. Dar a si mesmo a liberdade de se entregar às mais diversas realidades, explorá-las minuciosamente (e arranjar companheiros no percurso – ser fã raramente é uma experiência solitária) e encontrar-se nas palavras de outra pessoa é estar em constante expansão.

Bárbara Reis
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos