9 de julho de 2016 | Relacionamentos & Sexo, Sem categoria | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Amor incondicional

Na época do orkut, além de comunidades com nomes estranhos, bombavam os depoimentos, geralmente declarações de afeto meio padrão, que incluíam esta bomba: “Eu te amo incondicionalmente.” Ideia estranha, porque o amor precisa de condição. Pregar que o amor deve ser incondicional é dizer que o sentimento vale mais do que a boa convivência, o cuidado, o respeito mútuo. O amor precisa estar condicionado a muitas coisas e, se não estiver, vira uma obrigação perigosa.

Esse conceito de amor é muito parecido com a posição compulsória da mulher como devotada à relação, que ama independente de qualquer coisa, mesmo que seja violência. Vinicius de Moraes disse que “A mulher foi feita para amar, para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão”. Esse poema escancara o absurdo que permeia as relações e as declarações de amor incondicional, porque se o perdão for independente do erro, não é perdão, mas submissão.

Não é só no amor romântico que a incondicionalidade aparece no universo da violência contra a mulher. A maternidade compulsória e seus desdobramentos na amizade feminina também são cheias desses conceitos. Porque pensamos nas mulheres e meninas como mães, achamos sempre que vão nos amar, aceitar e perdoar, independente do vacilo. Assim, priorizamos as relações românticas, por acharmos que, não importa o que aconteça, as amigas estarão lá. E assim segue na prática uma desvalorização da amizade feminina, apoiada no amor incondicional.

O nosso amor precisa ter condições: que não gritem, não batam, não manipulem, não tratem como loucas, não despertem os piores sentimentos, não deem insegurança, não acabem com a autoestima, não façam nos sentir menores. Em todas as relações – românticas, de amizade, familiares – o amor precisa ver no tratar bem o seu limite. Amor incondicional é abuso, e precisamos parar de confundir as duas coisas.

Teresa Soter Henriques
  • Audiovisual
  • Vlogger
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Teresa tem 18 anos, estuda ciências sociais na UFRJ, é professora voluntária de geografia e assistiu a todas as temporadas de Law&Order SVU. Em seu tempo livre faz yoga, planos pra revolução e comida vegana. É principalmente má, mas aprendeu alguma bondade com Harry Potter.

  • Andreia Domingues

    Não concordo na integra com este artigo. Não creio que o amor incondicional seja sempre um abuso. Numa relação existe necessidade de haver amor incondicional. E dele fazem genuinamente parte o respeito, a aceitação incondicional, preocupação genuína e a autenticidade. Isto significa que a pessoa deve ser respeitada por aquilo que ela é e que de ambas as partes deve haver flexibilidade suficiente para se adaptarem uma à outra. O que acontece é que muitas das vezes acabamos por querer que o nosso parceiro/a seja da forma que nós queremos, em prol das nossas necessidades. Isto relaciona-se com as nossas próprias projeções, expectativas e idealizações. Quando isso acontece, começam a haver cobranças e dinâmica da relação acaba por deixar de funcionar. No entanto, penso que seja fundamentar que as relações se baseiem num amor incondicional. O problema é que isso não acontece. Aliás, o amor quando é amor é sempre incondicional. A questão é que cada um tem a sua própria interpretação de amor. E é baseada nessa interpretação que as pessoas acabam por se envolver em relações amorosas. Concordo absolutamente quando foi abordado que o amor precisa ter condições, que a mulher se submete em relação ao amor. Quero acrescentar apenas que não acho que seja por isso que o amor deve ser condicionado nesse sentido, porque o mal está na forma como as relações são estabelecidas. Já que muitas destas relações são baseadas na falta de amor próprio e na cedência de pressões por parte da sociedade que acabam por tornar as relações violentas, abusivas e insuficientes.

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