20 de setembro de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Amor na era virtual

Muito se fala sobre como as relações amorosas estão ficando mais vazias nesse mundo atual. Normalmente, quando leio ou escuto algo sobre isso, vejo que as pessoas culpam, em geral, a internet (mas também o feminismo, que, em tese, libertou as mulheres sexualmente, e o consumismo). O argumento costuma ser que toda essa facilidade que a internet proporciona para se conhecer gente teria contribuído para as relações físicas se tornarem mais rápidas, fáceis, sem depender muito de amor entre o casal, nem promessas de um relacionamento mais prolongado.

Tem até um filósofo polonês, o Bauman, que fala que, atualmente, as sociedades são voltadas para o consumo, prezando sempre pela novidade. Isso significa, na prática, que estamos sempre trocando televisões, aparelhos celulares, computadores, tablets, entre outros produtos, por algo que parece melhor – mesmo que o anterior ainda esteja em perfeitas condições. E, mesmo assim, nem sempre os aparelhos anteriores estão em perfeitas condições, já que, hoje em dia, as coisas não são feitas para durarem muito tempo, pois o consumo é estimulado dessa forma. Por isso, esse filósofo acredita que essa relação que temos com produtos é transferida pra nossa vida pessoal: as pessoas e nossas relações com elas, segundo ele, se tornaram descartáveis também, pois estamos sempre em busca de algo melhor.

O Bauman também fala (em um livro muito bom chamado Amor Líquido) que as relações não requerem intimidade e envolvimento, porque vivemos em uma era que, quando cansados, basta apertar o botão de deletar. Muita gente, hoje em dia, não se preocupa em terminar um relacionamento com uma conversa; se contenta em excluir ou bloquear das redes sociais ou simplesmente para de responder. Isso não rola pessoalmente, né? Imagina deixar a pessoa falando sozinha ou virar as costas e ir andando. Seria, no mínimo, falta de educação. Até já ouvi uma história de um namoro que terminou assim: o casal estava no ônibus, o cara achou que aquilo não estava mais dando certo, e o que ele fez? Puxou a cordinha e desceu. E deixou a menina lá. Essa história me soa muito absurda. Sei lá a quantas andava o relacionamento dos dois, mas que maldade fazer uma coisa dessas. O que acontece é que, na internet, muita gente acha normal o equivalente a “puxar a cordinha e descer do ônibus”.

Mas será que isso tudo é verdade mesmo? Estamos deixando de nos importar com as pessoas?  Nossas relações estão vazias de significado? Nós usamos e somos usados por outros como se todos fôssemos produtos descartáveis? Hmm, acho que há uma forma mais positiva de se falar disso.

Não vamos negar que certas facilidades dos dias de hoje tenham provocado algumas mudanças na sociedade e nas relações, de jeito nenhum. Mas podemos enxergar essas mudanças de maneiras diferentes. Vamos à discussão de duas afirmações:

 “As pessoas se conhecem pela internet, por aplicativos e por sites para encontrar alguém, como se fossem carnes expostas no açougue, ninguém se valoriza.”

Olha, não existe nenhuma ligação direta entre conhecer alguém por uma dessas formas e o valor dos indivíduos envolvidos nessa relação. Considero uma afirmação extremamente preconceituosa. Primeiro, porque, normalmente, quem diz isso não foi lá tentar e ver qual é. Segundo, porque esses meios de se conhecer alguém são muito produtivos para pessoas mais tímidas ou mais caseiras. Uma pessoa muito tímida nem sempre tem coragem de se aproximar de alguém pessoalmente, mas por trás da tela do computador ou do smartphone, se sente mais à vontade. Igualmente, pessoas que não saem muito para festas, shows e coisas do tipo acabam tendo oportunidades limitadas de conhecer outras, pois ficam restritas a meios que já frequentam e onde já conhecem todo mundo.

Também considero essa afirmação hipócrita, pois o que acontece nesses meios é o mesmo que acontece na rua, no shopping, na balada: olhamos as pessoas em volta, refletimos sobre se as achamos interessantes e atraentes e sobre se vale a pena tomar uma iniciativa etc. O meio virtual não é diferente do que acontece no dia a dia quando estamos de corpo presente. É só um facilitador.

 “Mas, antigamente, as relações duravam mais. Hoje em dia, todo mundo só quer saber de ficar e ninguém permanece em um relacionamento sério por muito tempo.”

Acho que existe uma grande confusão por trás dessa afirmação. Parte-se de uma premissa de que, antigamente, as relações duravam mais porque as pessoas se empenhavam mais, se amavam mais, eram mais românticas e tal. Só que, na verdade, anos atrás, o costume era ter um relacionamento amoroso só, casar e ficar junto pra sempre, independentemente do sucesso da relação e da felicidade do casal. Além disso, as mulheres eram especialmente julgadas (hoje em dia, menos, mas ainda) se não fossem mais virgens. Sendo assim, as pessoas ficavam mais tempo juntas, não porque o amor era mais valorizado do que é agora, mas, muitas vezes, porque elas simplesmente não tinham outra opção.

Visto por esse lado, acho que a tal facilidade de se terminar relacionamentos hoje em dia e de poder se relacionar com outras pessoas sem a necessidade de se comprometer tem um aspecto muito positivo: sendo livres, as pessoas podem manter relacionamentos amorosos porque estão a fim, porque gostam do/a parceiro/a, porque se sentem bem naquela relação… Não vejo sentido em valorizar a duração de um relacionamento que só durou porque os envolvidos se sentiam presos. É assim que, muitas vezes, desenvolvemos relacionamentos abusivos ou mantemos relações que não nos satisfazem .

Então, ok, o Bauman até tem razão e, hoje em dia, é tudo mais fácil mesmo e isso pode fazer com que as pessoas valorizem menos as coisas. Mas, focando no positivo, acho muito mais legal, significativo e até mesmo romântico, saber que estou com uma pessoa que, mesmo sendo livre pra fazer outras escolhas, mesmo vivendo nesses tempos em que é tão fácil terminar com alguém, prefere estar comigo. Pensando assim, as relações estão muito mais “preenchidas”, na verdade. Não estão mais vazias, apenas não se sustentam mais em mentiras e sentimento de obrigação e prisão – quando é o caso, podem se romper. E é isso que deve ser realmente valorizado em uma relação: não a obrigação, mas a escolha de ficar.

+Livros do Bauman sobre o assunto

Vida para consumo
Amor líquido

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Laura Pires
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Vlogger

Usa seu vício em séries e Facebook como inspiração para os textos, para a vida e para puxar assunto com os outros. Adora ouvir histórias e conversar sobre gênero, sexualidade, amor e relações amorosas – gosta tanto desses temas que deu até um jeito de fazer mestrado nisso. É professora de inglês, cantora e pianista amadora de YouTube, fala muito, ri de tudo e escreve porque precisa. Ama: pessoas e queijo. Detesta: que gritem.

  • Natália

    Lembrei de uma história lendo teu texto. Não era pra ser tão pessoal e pedante, mas será:
    Ano passado conheci uma garota num desses apps e a sintonia foi instantânea. A gente conversou todo dia, mais e mais, eu até viajei pra encontrá-la. Só que não deu certo, as coisas mudaram e meses depois descobri que ela falava com várias garotas, dava em cima de todas, do jeitinho que fazia comigo. Até que ela conheceu alguém mais interessante, mais loira, mais branca, mais magra, sabe? E começou a gostar da outra, enquanto eu comprava passagem pra visitá-la e não era mais do interesse dela. Me senti péssima na época, depois, até hoje quando paro pra pensar nisso. A facilidade com que a gente se achou foi a mesma que ela teve pra nunca mais falar comigo. Hoje ela namora com outra – nem eu, nem a loira.
    Não há outra forma de resumir o tanto de sentimento que parecia ter nascido entre a gente e o tanto que isso não significou mais nada pouco tempo depois, como: é fácil. Na era da internet é muito fácil fisgar e se livrar, seguir, deletar, não responder. Mais do que concordar com o Bauman, arrisco dizer que não há nada mais raso que um jovem hedonista. E olha que essa garota fez 30 anos ano passado. A internet facilita a leviandade de todo mundo mesmo.

    • Laura Pires

      Que triste, Natália! =/
      Mas, olha, acho que a vida te livrou de um problemão, porque isso poderia ter sido muito pior se vocês tivessem se envolvido por mais tempo. E, sobre a internet, acho que foi no seu caso como considero em outros (sejam negativos ou positivos): um facilitador. Gente mau caráter ou que simplesmente não se importa com a gente vai existir em qualquer contexto. Em outras palavras, acho que, infelizmente, ela poderia ter feito isso com você em qualquer outro contexto em que vocês tivessem se conhecido. E acho que a gente merece mais do que gente que nos trata com esse tipo de descuido.

  • Victor Schultz

    Achei a discussão das duas afirmações PERFEITA. Só faltou dar o primeiro nome dessa entidade chamada “O Bauman”, né? XD

    • Laura Pires

      Haha, Zygmunt é feião. 😛

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