20 de março de 2015 | Ano 1, Edição #12 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Amy & Keith, Lindsay & Charlie: como julgamos as vidas pessoais de artistas?

O guitarrista da banda britânica Rolling Stones, Keith Richards, tem cinco décadas de carreira, milhares de discos vendidos desde os anos 1960 e hits que ainda vão tocar por muito tempo em rádios, filmes e televisão. Um dos nomes mais famosos do rock ainda hoje, ele carrega uma pose cool de despreocupado, as roupas com botões abertos e calças rasgadas, um visual pouco comum para um senhor de sua idade. A lenda de Keith Richards não é só feita de grandes momentos seus como músico, mas também pelo seu conhecido vício em drogas. É possível que Richards não se lembre de anos seguidos de sua vida – afinal, se a lenda faz jus à realidade, nenhuma pessoa pode usar tanta substâncias ilícitas por tantas décadas sem ter nenhum efeito colateral. Tem quem diga que o fato de ele continuar vivo é praticamente um milagre.

Charlie Sheen, filho do lendário ator Martin Sheen e irmão do astro de filmes adolescentes Emilio Estevez, é mais conhecido pelo papel de Charlie Harper na sitcom norte-americana Two and a Half Men, onde ficou por oito temporadas. A produção sempre teve bons índices de audiência, se mantendo entre o top 20, apesar do teor misógino. Depois de ser demitido do seriado, estrelou no canal FX a série Anger Management, que foi ao ar entre 2012 e 2014, até ser cancelado no seu centésimo episódio. Sheen tem um histórico de violência doméstica, abusos, uso de drogas e falta de comprometimento com seu trabalho. Apesar de tudo isso, sua carreira nunca chegou de fato a ficar debilitada: Charlie Sheen continua fazendo filmes e estrelando seriados na televisão.

Apesar das diferentes carreiras, Keith Richards e Charlie Sheen têm mais em comum que apenas o vício em drogas, as vidas pessoais conturbadas e prisões: ambos conseguiram, de certo modo, passar por tudo isso e ter carreiras quase que intactas. Pode-se argumentar que eles são bons no que fazem: Richards criou alguns dos riffs mais famosos da música do século XX e Sheen estrelou junto a Michael Douglas o filme de Oliver Stone, Wall Street – Poder e Cobiça, que deu, entre outros prêmios, o Oscar a Douglas. A grande questão não é ter talento ou não, ou ter feito coisas relevantes ou não, a questão é que homens brancos de sucesso frequentemente se safam do julgamento público e não passam a vida toda tendo que dar satisfações e responder perguntas de jornalistas sobre seus atos, principalmente os que são considerados ruins.

O canal FX não deixou de contratar Sheen mesmo que a Warner Brother tenha despedido ele no ano anterior, alegando problemas com o ator. Nenhuma gravadora recusaria um contrato com os Rolling Stones, o estilo sexo, drogas e rock n’ roll nunca impediu a banda de gravar ou se apresentar – ainda que capengamente.

Quando pegamos esses dois exemplos e colocamos ao lado de mulheres como a cantora Amy Winehouse e a atriz Lindsay Lohan, vemos que as coisas são um pouco diferentes para as mulheres.

Lohan protagonizou um dos mais conhecidos filmes da Disney da década de 1990, Operação cupido (The Parent Trap, 1998), no qual interpretava duas irmãs gêmeas que foram separadas e se encontram ocasionalmente quando participam de uma colônia de férias. Era uma estrela em ascensão no começo dos anos 2000, com sucessos como Sexta-feira muito louca (Freaky Friday, 2003), Confissões de uma adolescente em crise (Confessions of a Teenage Drama Queen, 2004) e Meninas malvadas (Mean Girls, 2004) (em maio do ano passado, na sessão de Cinema, TV & Música, fizemos um mês inteiro sobre Meninas malvadas, comemorando os dez anos do filme, que hoje já é um clássico absoluto). Ela era um nome cada vez mais conhecido e tinha tudo para ter uma carreira longa, mas com o passar dos anos as manchetes relacionadas a LiLo passaram a ser cada vez menos sobre coisas inofensivas como sua briga com Hilary Duff e Aaron Carter, e mais sobre o uso abusivo drogas e álcool, problemas com a justiça e a polícia, além de um péssimo relacionamento com a família. A carreira como atriz também foi afetada por sua tumultuada vida pessoal: seus filmes não rendiam tanta bilheteria e ela frequentemente arranjava problemas com as produções.

É inevitável que depois de tudo que tenha acontecido em sua vida todos esses anos tenha tirado todo seu crédito como atriz. Parece até lógico que produtores não queriam contratar ela, afinal ela dá trabalho, mas isso parece não acontecer com seus colegas atores. Charlie Sheen conseguiu seu próprio programa de televisão depois de todas as polêmicas em que se envolveu e ainda é capaz de ser tirado pra ídolo por muitos. A apresentadora e magnata Oprah Winfrey em 2014 lançou Lindsay, um reality show sobre a atriz, por seu próprio canal de televisão. Nos oito episódios temos uma ideia de quão caótica é a vida da atriz e de como ela ainda tem muita coisa a superar para poder ter sua carreira novamente, mas de uma maneira quase sádica assistimos ao reality show movidos pela curiosidade, pela vontade de saber o quão no fundo do poço ela está. Essa curiosidade é maior do que a impressão de que aquele programa pode ser um passo de volta a Hollywood.

O questionamento é: por que Charlie Sheen ganha uma segunda chance e muitos torcem pra isso, enquanto Lindsay Lohan é tachada de “louca”?

Um outro exemplo é Amy Winehouse, cuja obra vem sempre atrás da vida pessoal. Parece que quando morreu em 2011, aos 27 anos, todos tinham uma opinião sobre ela, uma opinião que muitas vezes não tinha nada a ver com sua música. Não que as pessoas não possam ter opiniões sobre artistas, mas ela não chegou aonde chegou por conta de seu vício, mas pelo belíssimo disco Back to Black, de 2006.

Em 2008 se apresentou no Grammy direto de Londres – já que teve o visto recusado para entrar nos Estados Unidos – e ganhou em uma mesma noite cinco prêmios, um feito fora do comum. Amy era pequena, mas tinha um voz monstruosa e suas músicas falavam na maior parte do tempo sobre desilusões amorosas. Winehouse não vai ser a primeira mulher a ter problemas de relacionamento e certamente não vai ser a última a ter problemas de saúde e vícios, mas por que nos atemos a esses pontos e deixamos a música ficar em segundo plano? Afinal, ela era uma cantora e compositora, fazia arte em forma de música e suas músicas não foram apenas aclamadas pela crítica, mas também pelo público.

Será que quando Keith Richards morrer vamos lembrar o tempo todo de como ninguém sabe exatamente como ele durou todos esses anos? Certamente vamos fazer piada disso e aí lembrar de seus feitos como músico, mas vamos reagir da mesma maneira com que reagimos à morte de Amy Winehouse? Como se ela de algum modo merecesse a morte que teve por causa da vida que levava? Quantos artistas viveram uma vida similar a dela e quantos tiveram todo esse julgamento público?

Entendo que muitas vezes é complicado distanciar o artista de sua obra, mas questionar o porquê de deixarmos passar alguns e condenarmos outros – sendo que eles não são muito diferentes – é necessário.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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