18 de dezembro de 2014 | Ano 1, Edição #9 | Texto: | Ilustração:
Ancestralidade: O sol que iluminou nossas raízes também nos ilumina

O processo de conhecimento de quem somos, que começa a partir do momento em que chegamos ao mundo, não tem fim, mas todas podem confirmar que é durante a adolescência que nos deparamos com mais frequência com a clássica pergunta “quem sou eu?”.

Diante da pluralidade de nomes, cores, tamanhos e formas de pessoas que conhecemos nesta fase, nossa cabeça fica confusa e, além de não termos certeza sobre quem somos, não sabemos quem queremos ser. Procuramos a resposta para essa pergunta que não sai da nossa cabeça no futuro – nos imaginando como o tipo de pessoa que admiramos no mercado de trabalho, adultos que vemos na TV ou nas revistas – e acabamos esquecendo do poder gigantesco que o passado exerce sobre nós, mesmo que não vejamos inicialmente.

Você já parou pra pensar sobre os seus antepassados e os caminhos que eles percorreram até que a família chegasse onde você está? Nossas colaboradoras refletiram sobre ancestralidade e a influência que aqueles que vieram antes de nós têm, até hoje, na construção de quem somos e quem nos tornaremos futuramente.

 

Ilustração: Dora Leroy

Ilustração: Dora Leroy

Luciana:

Pensar no passado da minha família é algo que eu sempre fiz e sobre o qual eu sempre tive interesse, mas foi há pouco tempo atrás que eu comecei a refletir sobre isso de verdade. Eu cresci com a minha família materna, uma família gigantesca: ou seja, com gente de tudo quanto é cor. Meu avô é branco e minha avó era da minha cor (que hoje eu reconheço como preta), e juntos eles tiveram 9 filhos, alguns brancos, outros amarelos, outros negros. Minha mãe é uma das que saíram de pele clara, e eu cresci ouvindo que era a cara do meu pai, que é negro. Durante a infância, por não ter convivido com ele, ouvir sobre a nossa semelhança era meio frustrante – eu queria ser igual à minha mãe, poxa! Por que eu tinha que parecer tanto com esse homem que mal vem me ver? Meus tios me davam apelidos pela cor da minha pele e traços (“morena cor de jambo”, “feijãozinho”, “índia Paiacã”) e eu cresci querendo clarear, não me sentindo confortável naquela pele cuja cor as pessoas usavam pra fazer piadas comigo. Minha mãe sempre me disse que eu era linda do meu jeito, que não precisava mudar por ninguém, mas eu me sentia frustrada.

Durante a adolescência, então, quando comecei a usar a internet e quase não saía de casa, acabei “clareando”. Minha pele, antes marrom, estava amarelada. Sentia orgulho quando alguém apontava que eu estava “quase branca”, sem nem perceber o que aquilo significava! Às vezes, porém, quando alguém me perguntava se eu era negra ou índia, eu negava com frio na barriga, como se fosse algo que tinham descoberto sobre mim e eu tivesse que esconder.

Em casa, com os meus avós e minha mãe, porém, a situação era diferente: minha avó, mulher muito espiritual, ligada à natureza e conhecedora de todo tipo de remédio caseiro com plantas que você pudesse imaginar, sempre demonstrou orgulho de ser quem era. Durante o ensino médio, quando normalmente adolescentes se afastam dos mais velhos, eu me aproximei dela. Conversávamos a manhã inteira sobre como a vida dela era no interior do nosso estado, Amapá, e ela me contava histórias que uma vez tinham sido contadas a ela também. Nessas conversas que tínhamos, eu comecei a reparar nos traços dela – olhos pequenos e puxados, boca carnuda, bochechas altas, pele escura – e a reconhecê-los em mim. Quanto mais eu admirava aquela mulher, mais sentia orgulho de me ver nela.

Minha avó morreu há muitos anos atrás, mas com a lembrança dela ficou também o impacto das palavras que as pessoas me diziam e eu tentava ignorar: o apelido de índia que meu tio havia me dado na infância, a quantidade de gente que me perguntava se eu era descendente de japoneses ou chineses por causa dos olhos e os inúmeros comentários sobre como eu tinha uma beleza exótica foram fincando-se, e eu demorei, relutei, mas finalmente reconheci que eu não era “quase branca”, não tinha que me envergonhar se alguém apontasse que a minha pele era escura e que quando alguém me chamava de indiazinha era um orgulho pra mim e pra memória da família da minha avó, que era descendente de índios.

Descobri, depois de muito tempo, que a família do meu pai é toda composta de negros e descendente de escravos alforriados, e a realização do orgulho que isso me deu me encheu de felicidade. Crescer como uma criança negra ou indígena é algo que, por mais que vejamos gente de todas as cores nas ruas do nosso país, ainda é muito difícil. O mundo tenta nos mostrar que bonito é ser claro, nos ensina a enaltecer qualquer tipo de traço branco que encontramos em nosso rosto e empurra abaixo nossa goela uma vergonha da cor que a nossa pele tem, quando na verdade existe todo um passado de luta e resistência por trás dessa pele escura ou desse cabelo enrolado.

Durante a minha adolescência, se alguém me perguntasse quem eu era, eu provavelmente pediria um tempo pra pensar e, no final das contas, acabaria dizendo algo bem genérico sobre como eu era complicada, mas especial, diferente. Hoje, quando alguém me pergunta quem eu sou, eu sei que posso encher o peito pra dizer que sou o resultado do que a minha família foi no passado; posso dizer que tenho não só consciência de quem eu sou perante a sociedade graças à minha avó, mas mais importante, que gosto disso – e essa é uma característica da qual, hoje, eu não permito que me façam sentir vergonha e pela qual eu não permito que me diminuam.

 

Ilustração: Dora Leroy

Ilustração: Dora Leroy

Clara:

A raiz de minha família vem das frias terras do Norte, numa grande mistura germânica-britânica-portuguesa-francesa, mas eu nasci sob o Cruzeiro do Sul – e tudo que é meu está aqui.

Minha família é muito grande e confusa. O que sei é que saíram uns europeus fugidos e acabaram no Brasil, se encontraram aqui e foi assim que começou a família que conheço. Sei também que minha tataravó (ou alguma parente distante desse naipe) era uma índia e foi laçada e forçada a se casar. Sei também que Karl Marx (sim, o tal barbudo que escreveu O Capital) é também meu parente. Mas tudo isso é distante demais, nebuloso demais. Ninguém sabe ao certo como essas histórias se encaixam em minha árvore genealógica.

Se eu sou nascida sob o Cruzeiro do Sul, a história de minha família, para mim, não poderia ser diferente. Então, tudo começou num carnaval na praia de Icaraí, quando meu bisavô, Adão, se apaixonou por essa mulher que estava vestida de diabinha em papel crepom: Alaíde, minha bisavó. Se foi de fato paixão ou se foi tesão, não se sabe ao certo; mas fiquemos com a lenda, pois é ela que me é contada.

Meu gênesis começa assim: Adão se apaixona pela diabinha durante o carnaval. E tudo o que sei depois são fragmentos de uma história de amor e luta que é o tronco de minha família. Pois acontece que Adão era Adão Pereira Nunes, um médico e político comunista que lutou contra a ditadura e se refugiou em milhares de cidades pelo Brasil afora e que, depois de sua morte, ganhou nome de hospital no Rio de Janeiro. E minha bisavó, desde sua adolescência, lutou ao lado do marido, lutou até mais do que o marido.

Não conheci Adão. Mas conheci bisa Lalá, uma velhinha elegante que vivia falando que “além de debochada, você é cínica”. E apenas depois de sua morte eu soube que, no dia em que os militares bateram na porta dela para prender seu marido, ela respondeu: “Ele não está, mas vocês entrem que eu faço um café para os senhores; mas as armas ficam do lado de fora, em minha casa não entram armas”. E, assim, os militares de fato se desarmaram, entraram e tomaram café na sala em que passei parte de minha infância.

Foi apenas quando minha bisavó morreu, uma semana antes do meu aniversário de dezessete anos, que descobri a sua, a minha história. Uma das fundadoras do partido comunista no Rio de Janeiro, exilada, cidadã ilegal, mãe de quatro filhas, uma em cada canto do país. Traída por seu marido, lia as cartas que a amante dele mandava e as admirava. “Alaíde, Adão está te traindo!”, dizia uma de suas irmãs. “Ela não tem alcance…”, minha bisavó se lamentava com sua outra irmã.

Depois de meus bisavós, ainda houve muito terreno. Muitas mulheres, sim, especialmente as mulheres, guerreiras em lutas sem tamanho. Houve coisa demais para contar em um único relato, coisa demais para saber ao certo. Guerrilhas, amores, festas, torturas, silêncios. Histórias nunca contadas, porém jamais esquecidas. Histórias sempre contadas para não caírem no esquecimento. Minhas origens vêm daí, junto com a luta por um outro lugar. Junto com decepções e medos, mas também com muita união, festas e amores.

E ao conhecer toda essa história, entendi o caminho que corre em minhas veias. E que venho da gigante ironia de Adão ter se apaixonado pela diabinha de papel crepom. E ela ter dado à luz tantas outras mulheres. Incluindo eu mesma.

Tudo acontecido sob o Cruzeiro do Sul. Essa constelação que nos guia toda noite por águas de sal e mistério.

 

Ilustração: Dora Leroy

Ilustração: Dora Leroy

Amanda:

”A voz da minha bisavó ecoou
criança nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e fome.

A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.”

(Vozes-mulheres, de Conceição Evaristo)

Acredito que esse poema grite tudo aquilo que eu gostaria de saber falar. A trajetória do meu povo, de minhas raízes e minha luta. Do quanto de nós foi ficando para trás, e do quão grata eu sou nesse momento por poder, aos poucos, recolher em mim toda essa força e consciência de minha identidade e negritude. Essa é a trajetória da minha e de milhares de outras famílias negras nesse país. Esse é um círculo que nem sempre acaba com empoderamento. Às vezes nossos pais e irmãos só são mais um número nas graves estatísticas. Mas eu tenho em mim um sonho, sonho de poder manter viva a memória de meu povo, o sonho de conseguir honrar nossa história e nossas vozes. Um sonho de reconstruir nossos caminhos e de não ser apenas mais uma pessoa invisibilizada e distante de minha raiz.

 

Ilustração: Dora Leroy

Ilustração: Dora Leroy

Lorena:

Ancestralidade nunca teve a menor importância para mim. Cresci nos confins do mundo, numa área mezzo rural, mezzo suburbana, e estava mais interessada em encontrar amiguinhos que curtissem Senhor dos Anéis do que explorar minha herança cultural. Quando você é uma criança branca de classe média, sua identidade normalmente se resume às coisas de que você gosta. Antes de uma menina hispânica/brasileira, eu era uma bruxa, uma elfa, uma jedi, a Avril Lavigne. Comecei a desbravar a Internet bem cedo e finquei minha bandeirinha nos fóruns e no Livejournal – uma espécie de avô do Tumblr. Aquele pedaço de terra virtual era bem mais relevante e palpável para mim do que a montanha distante de onde meus parentes vieram. Lá, nós amávamos as mesmas coisas; éramos crianças soltas no playground absorvendo a cultura alheia e compartilhando curiosidades. Aos 14 anos, eu sabia tudo sobre o movimento separatista do País Basco por causa da Lucía, minha amigona fã de Lost. Ela também me ensinou a falar “borboleta” em euskara. Tinha a Yolanda da Coréia e a Sherry dos Estados Unidos. A gente comemorava todos os feriados, arriscava todos os idiomas e vivia em um fuso horário muito louco. Como os meninos perdidos de Peter Pan, éramos nossa própria pátria e criávamos nossas próprias tradições. E não somos exceção. Culpe a pós-modernidade, culpe a globalização. A identidade cultural de todo mundo anda um tanto fragmentada.

Embora meus pais aceitassem essa ovelhinha desgarrada, acho que decepcionei bastante meus avós. Minhas famílias paterna e materna vieram exatamente do mesmo lugar: Galícia, lá no norte da Espanha. Papai e mamãe foram a primeira geração a nascer no Brasil e se conheceram por uma dessas coincidências loucas da vida. Seus respectivos familiares eram quase vizinhos em outro continente! Resumindo: tem mais Espanha do que hemácia no meu sangue. As casas das minhas avós eram decoradas com mapas, lenços, castanholas e bonequinhos de touro. Eu aprendi a jogar dominó dizendo “uno” e “blanco”. Precisava catar pacientemente todos os frutos do mar da paella porque era uma criança enjoada. Canto La Barca direitinho até hoje. Mas apesar de tudo isso, a herança espanhola não era parte da minha identidade. Era só algo que existia; pedaço de um passado que não era o meu. Nunca gostei da língua, nunca gostei da música, nunca quis dançar flamenco. A minha família sempre se agarrou a algo que eu rejeitava.

Só que aí minha avó morreu. E, de repente, todos aqueles lencinhos e quadros e castanholas ganharam novo significado. Se um pouco dela estava neles e eu a amava, também não deveria amar tudo aquilo? Comecei a ler sobre a Espanha à procura de qualquer coisa que me tocasse e arrebatasse meu coraçãozinho globalizado. Nada. Não adianta forçar. Foi só quando finalmente me resignei e aceitei minha total indiferença à ancestralidade que tive um estalo: a Galícia não é muito parecida com o resto da Espanha. Por que eles têm uma língua própria? Por que meu avô toca gaita de foles? As histórias deles sempre tinham como cenário um povoado pequeno, caracterizado pela pesca e habitado pelas mesmas famílias; ninguém falava de touradas e coisas do gênero. Aí eu descobri que antes da chegada do Império Romano, ao norte do rio Douro, a ocupação era Celta. O pedacinho de terra da minha família era tão diferente do que eu entendia como Espanha por sua própria herança cultural singular. Até hoje, a Galícia é cheia de trísceles espalhados por cada cantinho, ruínas de castros e um forte misticismo que permeia as práticas cotidianas. Fogueiras são acesas para celebrar o solstício de verão e a Queimada é servida para espantar os espíritos ruins. Eu lembro da Queimada; no quarto da minha tia ficava um quadro com os dizeres e o caldeirão, duas coisas que sempre me encantaram e eu não imaginei que estivessem relacionada às minhas origens. Nunca pensei que minha família tão católica teria vindo de um lugar cheio de práticas pagãs disfarçadas. Conhecer esse outro lado de algo que parecia tão familiar me ajudou a entrar em contato com coisas incríveis pelas quais eu já nutria admiração.

A questão é: ancestralidade não é prisão e também não é poção mágica. A sensação de pertencimento não vai brotar automaticamente no seu coração quando você entrar em contato com sua herança cultural. Talvez um dia você descubra que não dá a mínima importância para sangue e resolva viver de presente e futuro. Não há nada de errado com isso, afinal, ancestralidade é uma bagagem que não pedimos e não escolhemos. Mas é nossa, de qualquer forma. Então, sem pressão, encare isso como uma forma de descobrir mais sobre pessoas queridas e coisas que eram importantes para elas. Quem sabe no meio de tudo isso você não encontra um pouco de si?

 

Luciana Rodrigues
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Artes

Luciana tem 20 anos e é de Macapá, no Amapá, no extremo norte do Brasil. Cursa Letras na universidade federal do seu estado e é apaixonada por artes em geral, sendo a dança, o desenho e a pintura suas favoritas. Sonha em mudar o mundo com a ajuda dos seus gatos e tem certeza de que nasceu, além de índia, sereia de água doce.

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