13 de junho de 2014 | Ano 1, Edição #3 | Texto: | Ilustração:
Androginia
Ilustração: Jordana Andrade.

Ilustração: Jordana Andrade.

Na primeira vez que entrei na sala da turma de espanhol, sentei diretamente em frente a uma pessoa… E digo “pessoa” porque de cara não soube dizer se era do sexo feminino ou masculino. Tinha o cabelo bem curto, raspado, talvez máquina 2, e usava roupas normais, daquelas que podem ser de homem ou de mulher. Não conhecia ninguém lá e portanto não tinha pra quem perguntar. Também tinha chegado atrasada e as apresentações já tinham rolado. Me vi numa fria, diante de um ser humano ao qual não sabia como referir-me. Era ele ou ela? Devia construir a frase no diálogo do exercício com “dele” ou “dela”? Pensava que era bonita ou bonito? Fiquei muda e só falei depois que alguém referiu-se a ela com um nome muito feminino. Mas aquilo me impressionou muito. Em menos de dois dias, fui e cortei meu cabelo também.

Alguns meses depois, com o cabelo ainda super curto e super feliz com a recém-conquistada liberdade do pente e do condicionador, fiquei de molho num saguão de hotel por algumas horas, esperando dar a hora do meu vôo para ir ao aeroporto. Em duas ocasiões diferentes, duas crianças referiram-se a mim com pronomes masculinos. A mãe de uma delas também o fez, e o choque foi generalizado quando respondi que “sim, pode mudar o canal, não estou vendo esse programa na televisão não” com a minha voz pra-lá-de-soprano. Vi o desconforto que senti naquela primeira aula do curso de espanhol refletido nos olhos das pessoas. Mas depois, principalmente nas crianças, vi o mesmo fascínio que me fez sair aquele dia e marcar um horário no cabeleireiro para dar fim a minha juba. Por um instante, a linha entre o feminino e o masculino ficou completamente apagada, as coisas deixaram de ser preto no branco e passaram a ser como tudo na vida de fato o é: paradoxais, múltiplas e até meio esquisitas.

Vim a viagem de avião inteira pensando no assunto. Lembrei de como eram as ilustrações em livros do ensino fundamental: meninas de cabelo longo, meninos de cabelo curto. Professoras da pré-escola sempre de coque ou rabo de cavalo. Mães com cabelos longos, pais com cabelos curtos… Claro, sempre vemos um ou outro que foge à “norma”. Mas em geral é assim. E o mais engraçado é que o comprimento do cabelo não é nem uma característica sexual, nem primária nem secundária (ufa, ainda lembro bem das aulas de biologia do colégio). Então por que nos incomoda tanto ver alguém que tem cabelos curtos ou outros traços andróginos, a ponto de passarmos a ter dificuldade a classificar aquela pessoa como homem ou mulher?

Não sei, sinceramente (se alguém souber ou souber de alguém que saiba, me fala?), mas sei que foi muito importante começar a me questionar sobre como essas categorias homem/mulher e masculino/feminino não são estáveis – elas são tão fixas quanto um corte de cabelo e um certo tipo de roupa. Só porque aquela pessoa do meu espanhol tinha cabelos curtos, não soube como me dirigir a ela. Não pude lhe falar o que tinha que falar no exercício. Não tinha palavras neutras a minha disposição (algumas línguas tem, sabia?) nem sabia direito fazer construções de linguagem neutras.

Isso acontece porque vivemos num mundo completamente heteronormativo. O que isso quer dizer? Hetero, aqui referindo-se a sexo, quer dizer diferente; normativo é de norma, lei. O nosso mundo é heteronormativo porque ele pressupõe que as pessoas são diferentes e podem ser separadas em dois grupos: ou são homens ou são mulheres – e toda nossa vida é construída com esse pressuposto: a linguagem, separações de alojamento, banheiros, as ilustrações nos livros do fundamental, o mercado de roupas e até mesmo o de brinquedos. Tudo na nossa cabeça é meio separado assim, para só pra pensar um pouco. As pessoas andróginas desafiam isso. Elas colocam o dedo bem onde dói, porque classificamos sempre pelo que é visível e as características físicas dessas pessoas nos levam a duvidar de nossas categorias de classificação.

Já aconteceu isso com você? Ficar travado diante dessa dúvida se a pessoa deve ser tratada como senhor ou senhora, ele ou ela, bem-educado ou bem-educada? Experimente perguntar, mas com jeitinho: “oi, desculpa, mas seu nome é?”. Geralmente esse é um bom indicativo do modo como a pessoa prefere ser tratada – já que ela pode te dar o nome social, caso seja transexual. Se a pessoa for não-binária (aquela que não se identifica com nenhum dos gêneros), ela geralmente também não vai ter problema em te explicar como referir-se a ela de maneira respeitosa. E é assim, com base na conversa e na convivência, de cabeça bem aberta, que vamos conseguindo superar essas dificuldades no dia-a-dia. Não é pra deixar de falar com a pessoa só porque você se sente desconfortável por não saber como se referir a ela. Com respeito e paciência, conseguimos construir um mundo mais inclusivo para todos – não importa se identificam-se como homens, mulheres ou pessoas não-binárias.

Ah, por sinal, aquela pessoa do espanhol? Super valeu a pena superar a barreira do não-saber-como-classificar, porque é um amor de pessoa, que vem me ensinando muito sobre como superar essas barreiras – linguísticas e físicas – que encontramos diariamente. E o mais importante: aprendi que não importa se tenho cabelo longo ou curto. O que importa é que ele esteja no comprimento que eu desejar.

Ana Paula Pellegrino
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Ana Paula tem vinte e poucos anos e a internet opina demais sobre sua vida. Mora com sua família no Rio de Janeiro. Prefere ficar em casa tomando chá sem açúcar a sair para lugares barulhentos. A não ser que o programa envolva comprar roupas. Ou livros. Apesar de destrambelhada, faz ballet; segue tumblrs de yoga e pensa demais. Ana Paula, mesmo sendo estranha, é feliz.

  • Letícia Sá

    Excelente texto! Identificação máxima, já escutei buxixos de “isso é menino ou menina?”,já até me perguntaram se eu era transformista!

    http://shesahe.tumblr.com/

    • Ana Paula Pellegrino

      Muito louco isso, né? Achei engraçada também a reação dos meus amigos quando contei. Uma delas falou: “mas poxa, você tem feições tão femininas” – o que só ajuda na confusão, não resolve hahaha

  • Verônica Vilela

    nossa Jordana, essa ilustra puro amor?

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