30 de dezembro de 2015 | Ano 2, Edição #21 | Texto: | Ilustração: Natália Schiavon
Ano novo: o carregador de bateria coletivo
EDIC?A?O #21 - PAUTA 29 - NATA?LIA SCHIAVON

Comer lentilha, pular sete ondinhas na praia depois da meia-noite, vestir branco pela paz ou vermelho para atrair uma paixão. São infinitos os rituais que fazemos na virada do ano. Uma festa que, se pararmos para pensar, não faz tanto sentido assim, não é mesmo? No fim das contas, é uma virada de mês, é um dia que antecede o outro; nosso ano muda quando fazemos aniversário! Se formos olhar ao longo da história, ou mesmo em outros países ou culturas, o 1º de janeiro nem marca o início do ano. Esse ano novo famosão que começa depois do dia 31 dezembro ganhou força com a dominação do ocidente cristão sobre o resto do mundo. Para a galera aqui no Brasil é a festa que conhecemos em que todo mundo faz contagem regressiva quando dá 23h59. Então, por que nos importamos tanto com essa data?

Uma das muitas histórias de origem do ano novo é de que foi Júlio César quem decretou pela primeira vez que 1º de janeiro começaria um novo ano, e os romanos comemoravam essa virada homenageando Jano, o deus dos portões. Ele teria duas faces, uma apontada para o futuro e outra para o passado. Acho essa história muito representativa sobre o que é o ano novo, porque a primeira coisa que fazemos quando o fim de ano está chegando é “olhar para o passado”, fazer um balanço geral e pensar o que foi esse ano para gente; é a bendita retrospectiva. Essa reflexão geralmente leva às expectativas para o próximo ano e às promessas, que podem ser quebradas já na primeira semana de janeiro! Mas não tem problema, o importante é que esse é um momento de parar, pensar e se erguer, se reestruturar para continuar seguindo. E é muito importante ter um momento para respirar e refletir com a vida louca que a gente leva.

A vida muitas vezes é um ciclo; nós gostamos de ciclos. Ciclos são muito bons para pessoas como eu, que gostam de controlar as coisas, saber que elas têm começo, meio e fim (por mais que às vezes o fim seja ruim); isso nos deixa mais à vontade. Acho que parte dessa comoção em volta do ano novo é esse controle coletivo, é saber que algo está terminando e que um novo ciclo vai começar. Aqui esbarramos em uma outra questão: a tal da esperança. Sempre achamos que o ano que vai chegar será melhor; por mais pessimistas que sejamos, sempre temos aquela pontinha de otimismo. Não importa se o ano foi bom ou ruim, quando bater meia-noite vai chegar algo melhor. Na grande maioria das vezes é o acaso que vai decidir tudo isso: já tive anos que foram melhores, já tive anos que foram piores, já tive anos que foram iguais, mas sempre acho que vai ser melhor.

E essa festa só tem esse impacto todo porque é uma grande parte do mundo desejando um ano melhor; é o mundo quase inteiro carregado de esperança, e eu acho que isso traz um poder coletivo bem louco! É uma quantidade de energia tão forte sendo focada em uma só ideia que isso deve significar alguma coisa, não? Cada um acredita no que quiser, mas para mim, mesmo em diferentes fusos horários, essa quantidade de gente tão forte tendo esperança e desejando coisas boas gera uma corrente, gera algo que faz bem e faz a gente respirar fundo e ter mais forças para encarar o que vem por aí. Acho que isso nos deixa mais leves também, porque também estamos deixando muita coisa para trás e pode ser um bom momento para nos livrarmos das coisas negativas, para a gente renovar as baterias.

Só que é bom lembrar que tudo que é comemorado coletivamente também pode gerar uma pressão para que todos participem da festa de um determinado jeito. Como essa nossa sociedade adora julgar as coisas quando algo é muito comum, ou você participa da festa ou você simplesmente não gosta dela, e só isso é motivo para julgamentos que incomodam e podem ser cruéis. Eu estou considerando de verdade passar o ano novo sozinha em casa com uma garrafa de espumante vendo séries, porque diversas coisas levaram a isso e realmente acho que seria um bom ano novo para mim, mas quando conto isso para qualquer pessoa, já vejo aquela reação de surpresa ou aquela cara de triste, me lançando o olhar de “tadinha”. Essa pressão do ano novo coletivo faz qualquer outro tipo de comemoração parecer triste e estranha, quando, na verdade, pode ser bom e a melhor opção a se fazer. A velha história de respeitar a escolha de cada um – por que não tentar, né?

Então, mesmo sendo uma festa muito louca que bem aleatoriamente foi decidida que seria comemorada nesse dia, é bom ter um dia focado na troca de energias. Um dia todo para se recarregar. Seja sozinha jogando videogame, seja com as migas em uma viagem muito louca, seja com a família na casa da avó, seja com a ou o mozão na praia, vamos aproveitar esse momento. Assim, sendo bem clichêzona, vamos deixar para trás as coisas ruins e vamos canalizar toda essa esperança mundial em coisas boas: vamos recarregar nossas baterias!

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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