24 de setembro de 2014 | Tech & Games | Texto: , and | Ilustração:
Ao infinito e além: entrevista com Adriana Valio
Ilustração: Dora Leroy

Ilustração: Dora Leroy

Texto e entrevista elaborados por Carolina Stary, Dora Leroy e Natália Lobo

Hoje a Capitolina foi longe, assim, pralém do planeta Terra.  Entrevistamos a Adriana Valio, astrofísica, professora universitária e pesquisadora – daquelas mulheres inspiradoras que nos provam que a ciência não cabe só na ficção. Ela tem bacharelado em Física pela UNICAMP, trabalha na área da Física Solar desde 1991 e com planetas extrassolares desde 2002.

Conversamos sobre carreira, espaço (da mulher e sideral) e, é claro, extraterrestres. I WANT TO BELIEVE!

Capitolina: Para você, o que é vida? Você acha que a vida tem um sentido?

Adriana: Esta pergunta é bastante complexa, e tem sido bastante estudada pelos cientistas da área. A definição de vida envolve várias facetas, mas pode ser definida como: “Vida é um sistema químico autossustentável capaz de evolução Darwiniana.”

C: O que você acha que levou o ser humano a buscar vida fora do planeta Terra? Quando essa ideia surgiu?

A: Imagino que sempre houve a curiosidade de saber se estávamos sós no Universo, desde o primeiro homem ou mulher que olhou para o céu noturno.

C: Aqui na Terra nós sabemos como os seres evoluíram e os fatores que são necessários para que haja vida. No entanto, sempre nos deparamos com novidades, como organismos que vivem em situações que já foram consideradas inóspitas. A vida em outros planetas pode depender de coisa­s totalmente diferentes do que a vida daqui depende. Sendo assim, como procurar vida em outros lugares?

A: Este é o verdadeiro desafio. Por enquanto, nos limitamos a procurar vida como a que conhecemos aqui na Terra, ou seja, onde a água na forma líquida é fundamental. Daí o foco na busca de planetas que estejam na “zona habitável” em torno da estrela, ou seja na distância certa para ter água líquida em sua superfície, logo o planeta também tem que ser rochoso como a Terra.

C: Quais medidas estão sendo tomadas para buscar vida em outros lugares? Existem providências específicas para a busca de vida inteligente? O que o Brasil tem feito?

A: Existem várias buscas de vida dentro do nosso Sistemas Solar em Marte, na lua Europa de Júpiter onde acredita-se exista um oceano recoberto por uma calota de gelo, ou em Titã, a lua gelada de Saturno. Linhas espectrais de água e oxigênio também têm sido procuradas nas atmosferas dos exoplanetas. O projeto mais conhecido e antigo de busca de vida inteligente extraterrestre é o SETI, que busca por sinais de ondas de rádio.

C: Quais sinais poderiam ser soltos pelos humanos para que, se existir vida inteligente em outro planeta, nós sejamos percebidos?

A: Nós já emitimos várias ondas eletromagnéticas nas emissões de rádio e TV. Também a presença de oxigênio molecular e a camada de ozônio são sinais da existência de vida no planeta Terra.

C: Muitas teses suportam a ideia de que extraterrestres já teriam visitado a Terra. Essas teorias costumam surgir de análises históricas de povos antigos, como os Maias, os Incas, e alguns relatos da Bíblia. Você acredita que isso realmente pode ter acontecido? 

A: Cientificamente não há nada comprovado.

C: Você sofre preconceito do mundo acadêmico por defender o seu ponto de vista em relação a vida fora da Terra? 

A: Não. Eu acredito que a vida do tipo extremófilos é abundante pelo Universo, mas nada ainda foi detectado.

O microscópico tardígrado, por exemplo, é o animal mais resistente conhecido. Pode sobreviver, inclusive, no vácuo do espaço! Imagem por: Bob Goldstein e Vicky Madden

O microscópico tardígrado, por exemplo, é o animal mais resistente conhecido. Pode sobreviver, inclusive, no vácuo do espaço! Imagem por: Bob Goldstein e Vicky Madden

C: Você acredita que o mundo científico está mais tolerante e menos conservador ao tratar desse assunto? Acha que há diferença em como os jovens cientistas e os cientistas do passado veem essa questão?

A: Sim, principalmente devido às novas descobertas de exoplanetas dos mais variados tipos e também das bactérias extremófilas que vivem nas condições mais inóspitas possíveis.

C: Quais figuras te inspiraram a seguir carreira em Astronomia? O que você acha que podemos fazer para estimular crianças e adolescente a se interessarem pelo assunto?

A: Eu decidi que queria ser astrônoma aos 15 anos, no segundo ano do ensino médio ao ler um livro de Astronomia. A primeira mulher não soviética astronauta, Sally Ride, que era também astrofísica foi quem primeiro me fez pensar nesta carreira. No Brasil, no mestrado em Astronomia na USP, tive a professora Beatriz Barbuy (IAG/USP) como “role model”.

C: A produção cientifica feita por mulheres aumentou na área de uns tempos para cá? 

A: O número de mulheres na área tem crescido, embora ainda haja maior evasão por parte delas do que dos homens na carreira. Não fiz uma estatística recente, mas acredito que sim.

C: Como é ser uma mulher cientista? 

A: É ser cientista, só que mulher. Na verdade, não vejo diferença a não ser pelo fato de ter filhos. Para mim, aí é que está a diferença pois os anos férteis da mulher ocorrem simultaneamente aos anos de pós-graduação. Mas com um bom parceiro que divida as tarefas e uma boa creche ou escola, dá para levar numa boa.

Pois é… Pelo menos por enquanto,  parece que a gente vai ter que se contentar com os E.T.s da ficção mesmo. Mas quer saber mais sobre astronomia? A Capitolina já comentou sobre a participação de diversas mulheres na área, tanto dentro quanto para além do nosso planetinha azul. No Brasil, por enquanto, apenas duas universidades (a UFRJ e a USP) possuem cursos de graduação em astronomia, mas é possível, como a própria Adriana, formar-se na faculdade de Física e se especializar durante o mestrado ou doutorado. É só querer e se dedicar muito!

E já que estamos em Tech & Games, aproveitamos para indicar um jogo: Universe Sandbox é um simulador espacial no qual você cria buracos negros, colide galáxias e manipula a gravidade com meia dúzia de cliques. Nada mal para um hobby.

Carolina Stary
  • Ex-colaboradora de Tech & Games

Dora Leroy
  • Coordenadora de Quadrinhos
  • Ilustradora

Dora Leroy tem 21 anos e acredita que o universo é grande demais para não existir outras formas de vida inteligente por aí. E, enquanto espera uma invasão alienígena acontecer, gosta de ler livros que se passam em universos mágicos e zerar séries do Netflix.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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