24 de fevereiro de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Profissão de homens e profissão de mulheres? Apenas: profissões

Outro dia, Emma Watson foi notícia na internet ao responder um tweet de uma menina que dizia: “Meu pai diz que não posso ser uma engenheira porque é uma ‘profissão de homens’. O que faço para mudar isso?” Com a hashtag #HeforShe, que é a campanha da ONU encabeçada por Emma a favor da igualdade de gênero, o tweet de Ane recebeu de Emma a única resposta que cabia: “Torne-se engenheira.”

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 Antes de mais nada, acho que vale fazer a ressalva. Não é como se as mulheres realmente só tivessem começado a trabalhar lá pela década de 1950. Isso tem muito mais a ver com a classe média, quando muitas começaram a entrar no mercado de trabalho. A gente só precisa ter em mente que mulheres sempre trabalharam: afinal, as escravas negras eram responsáveis por grande parte dos trabalhos domésticos realizados nas casas dos senhores na época da escravidão e, libertas, eram elas que na maior parte das vezes garantiam, com seus trabalhos, o sustento de si mesmas e dos filhos.

Mas o curioso é que até hoje em dia ainda há quem pense que certas profissões são para homens e outras para mulheres. É curioso que, ainda hoje, muitas mulheres ganhem menos do que seus colegas homens exercendo as mesmas funções. Isso acontece em áreas como engenharia, mas também naquelas que a gente acha que são mais abertas, como as relacionadas às artes . Muitas vezes, rola um processo meio estranho envolvendo profissões que pertencem à mesma área. Pode parecer, para algumas pessoas, que profissões ditas femininas — como enfermagem — tem menos prestígio do que profissões em que a maioria dos profissionais é composta por homens — comomedicina. Uma coisa não tem relação alguma com a outra, mas por isso que é muito difícil que certas profissões tenham equiparação de gêneros. Além disso, o preconceito que ronda as práticas escolares — em que meninas que vão bem são entendidas como esforçadas, enquanto os meninos são bons em matemática — reitera os espaços de atuação.

Nós da Capitolina decidimos entrevistar três pessoas que tem que lidar com o desafio das profissões ditas masculinas ou femininas para entender um pouco mais sobre o assunto. Mayra Siqueira é repórter de esportes, Shin Hatagima é estudante de Pedagogia e professor e Yasmin Lopes, estudante de Terapia Ocupacional.

Capitolina: Como você decidiu sua profissão?
Mayra: As coisas aconteceram meio sem querer. Eu não pretendia trabalhar com esportes, sonhava com jornalismo político, ser correspondente internacional e coisas assim,apesar da minha ligação inegável com esporte desde sempre — era atleta e fanática pelo meu clube de futebol. Acabou que no meu primeiro estágio na área — no site e revista Trivela— eu me apaixonei e nunca mais deixei de atuar no jornalismo esportivo.
Shin: Foi por acaso. Depois de me formar em Design Gráfico, tinha vontade de voltar a estudar e acabei prestando Pedagogia, porque tinha em mente aquele clichê “a educação muda as pessoas e o mundo”. Acabei me encontrando totalmente sem querer. A decisão de mudar de profissão e me dedicar à Pedagogia e ao campo da educação se deu no fim do primeiro ano de graduação, quando fiz meu primeiro estágio em escola. Mesmo sem nunca ter cogitado ser professor de crianças, naquele momento acabei compreendendo que era aquilo que eu queria para a vida.
Yasmin: Quando terminei o Ensino Médio, eu não tinha ideia do que fazer. Estava muito enraizado em mim um interesse em pessoas e, ainda, uma vontade de ajudá-las. Mas ao mesmo tempo não me via vestindo branco, em um hospital, sendo enfermeira ou médica. Não sabia nada de exatas e nem de biológicas — e não tinha o menor interesse (estudei em escola pública e tive um ensino precário a vida toda). Foi então que vi, na Terapia Ocupacional, um tanto de mim. Achei incrível poder trabalhar com pessoas em situações tão distintas e olhar para o que elas fazem e o que precisam. Meus primeiros contatos foram com a saúde mental e com a deficiência física, mas foi ao conhecer as áreas no campo social e nas artes que tomei minha decisão. A profissão está muito ligada às questões de políticas públicas, de garantia de direitos, de ocupação, inclusão e participação social e cultural, e tudo isso tem muito a ver comigo.

Capitolina: Você acha que trabalha em uma área masculina?
Mayra: É uma área masculina pelo simples fato de que muito mais homens estão nela, simples assim. Não é uma questão de exclusividade ou aptidão, e justamente por isso muitas mulheres estão conseguindo se inserir — além das repórteres de televisão, que sempre tiveram espaço de uma forma ou de outra no esporte. Hoje a maioria dos lugares contrata uma mulher jornalista esportiva por sua competência igual ou melhor que de qualquer homem, e não por ser esteticamente interessante ao seu canal de televisão.

Capitolina: Foi difícil se acostumar sendo homem em um ambiente que dizem ser feminino?
Shin: Um pouco, especialmente porque muitas escolas não desejam ter em seu corpo docente um homem. Existe um certo medo, creio eu. Curiosamente, nas escolas abertas aos homens, tanto alunos como pais e mesmo a equipe acabam gostando muito. Acredito que justamente porque é um ambiente extremamente feminino. Institui-se, nesse caso, um contraponto.

Capitolina: Você vê vantagens ou desvantagens em ser mulher e fazer o seu tipo de trabalho?
Mayra: Sem dúvida tem um pouco dos dois. Vantagens por existir uma abertura maior natural quando você é uma mulher em uma abordagem, com um jeito mais sutil, e a desvantagem de você estar cercada por homens, especialmente no futebol, e não ser inserida no “mundo” deles nos debates, discussões e “resenhas”, como adoram falar os jogadores. Uma mulher na área do jornalismo esportivo precisa de desdobrar muito mais pra maioria das coisas, mas isso no geral só te torna uma profissional melhor e mais preparada.

Capitolina: Qual é a coisa mais legal do seu trabalho?
Mayra: A coisa mais legal é trabalhar com o que se gosta, por ser um “tema” lúdico. O que eu faria por prazer eu faço profissionalmente, na maior parte dos casos. Jornalismo é uma profissão extremamente mal remunerada, mas apaixonante. Jornalismo esportivo é ainda mais empolgante, e estar em contato com isso é adrenalina pura para quem gosta da coisa. E eu gosto.
Shin: Acredito que seja a combinação do contato e das relações com as crianças e do trabalho com o conhecimento. Não gosto de ser professor apenas porque passo inúmeras horas do meu dia com crianças ou só porque gosto de ensinar; é uma combinação desses fatores.
Yasmin: Como estou no segundo ano do curso, não tenho experiência com o exercício da profissão de fato. Mas, como pesquisei muito por dois anos (só passei no vestibular na segunda vez em que prestei), posso dizer que o que mais me surpreende na área é que não encontrei algo que não gostasse. Eu sei, pode parecer falta de experiência e não descarto essa possibilidade. Quando entrei tinham áreas que não me interessavam , como as de reabilitação física. Hoje até elas me animam, porque vi que independentemente do que se esteja fazendo, se tem um compromisso político e social, pois isso perpassa toda a formação que temos (que, aliás, é bem voltada para o sistema público e fico feliz com isso).

Capitolina: E qual é a coisa mais chata?
Mayra: O excesso de trabalho. Por mais que ajude a mente trabalhar com algo tão divertido como esporte, o corpo também cansa com as horas extras e com o trabalho sacal que muitas vezes pode se tornar o nosso. Sendo mulher, o preconceito também é um incrível desestimulante. Mas, claro, isso hoje em dia já é cada vez menor.
Shin: Difícil responder. Acho que são vários fatores relacionados ao desprestígio da profissão (amplo, não apenas relacionado ao fato de eu ser homem). Essa desvalorização acaba nos corroendo: há o fato de todos se acharem na condição de falar sobre educação e há a pouca perspectiva de crescimento salarial, por exemplo.

Capitolina: Como você sente a coisa do prestígio ou do desprestígio dentro da sua profissão?
Mayra: Um dos meus primeiros chefes e tutores sempre dizia que jornalismo esportivo é o mais importante dentre todas as coisas menos importantes. Acho que é bem por aí. Existe um preconceito externo com a importância do esporte, até por motivos óbvios. É muito mais lazer do que qualquer outra coisa. Mas, de todas as coisas menos “essenciais” e nobres do jornalismo, é a que movimenta mais dinheiro, politicagem e temas que interessam ao público. Futebol e esporte são paixões. E poucas coisas podem mobilizar tanto o nosso público-alvo como isso.
Shin: Existe um desprestígio com relação a outras profissões consideradas masculinas que foram historicamente constituídas. Enquanto indivíduo, percebo que muitas vezes, quando falo que sou professor (e professor de crianças pequenas), as pessoas ficam sem saber o que dizer e como reagir. O fato de eu ser descendente de japoneses, imagino, aumenta esse desconforto no outro: o comum é esperar que eu seja engenheiro, dentista ou tenha alguma profissão masculina, de prestígio e bem remunerada.
Yasmin: É inegável a falta de reconhecimento da população, ou mesmo dos outros profissionais da saúde, com a Terapia Ocupacional, e pode ser em parte atribuída às suas áreas de atuação que fogem desse modelo tradicional de se pensar a saúde. Contudo, acredito que ser uma profissão formada majoritariamente por mulheres (o corpo docente na USP é composto unicamente por mulheres e raramente se vê mais de dois garotos por turma — quando há) é a grande causa da invisibilidade profissional e científica. Além disso, dentro da área da saúde existem perspectivas dominantes, tradicionais, que logo atraem mais reconhecimento, sim, e deixam de lado questões importantes.

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Bárbara Carneiro
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Ilustradora
  • Fotógrafa
  • Colaboradora de Esportes

Bárbara Carneiro mora em São Paulo, curte narrativas cíclicas, tem como gosto mais constante a cor amarela e cria um cacto no jardim.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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