5 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
Aprendendo a ouvir

Nessa edição, uma das coisas que pretendemos deixar clara é o poder e capacidade imensos que a linguagem tem de formar, transformar e manipular aquilo que pensamos. Sempre que ouvimos falar nesse assunto, a minha impressão é de que nós absorvemos de forma meio distante, como algo que analisamos e que não está bem presente em nossas vidas – aquela velha armadilha do todo mundo é horrível, menos eu.

A verdade é que a nossa linguagem – a maneira com a qual falamos das coisas, as palavras e o tom que usamos – “trai” totalmente a nossa forma de pensar. A linguagem é política e tem uma carga simbólica que muitas vezes só percebemos quando escutamos ou lemos atentamente. Você nunca conheceu alguém que fala Estado-Unidense em vez de americano? Ou, pegando um caso recente, alguém que se refere a Caitlyn Jenner com pronomes masculinos ou pelo nome Bruce? Uma mudança que parece tão simples de um ponto de vista gramatical pode fazer toda a diferença na hora de determinar o sentido de uma frase.

Veja bem, todos realmente têm direito a uma opinião própria e a expressá-la. No entanto, é necessário reconhecer os limites do nosso próprio universo – e o dos outros – na hora de discutir e refletir sobre essas mesmas opiniões.

Qualquer pessoa que para um pouco e olha para o seu grupo de amigos – o Facebook e outras redes sociais deixam isso mais claro do que nunca – percebe que, em geral, existe certa homogeneidade de opiniões e vivências. Eu, por exemplo, estudei a vida inteira em colégios particulares, algo que, devido à realidade social brasileira, me fez ter pouquíssimo contato com pessoas negras. Meu círculo social consiste quase inteiramente de pessoas brancas de classe média.

Por esse exato motivo, não sei nadinha sobre o que é ser negro ou negra, ou o que é ter condições menos favorecidas do que as minhas. O máximo que posso fazer é ler sobre as suas vivências. E, mesmo assim, seria fácil para alguém como eu diminuir a intensidade dessas vivências – afinal, nunca as senti na pele.

Sempre que o meu professor de literatura dá aulas sobre o livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que trata da trajetória de retirantes do sertão brasileiro, ele diz que, por mais que ele nos conte e tente nos explicar sobre a situação da família que o livro retrata, sobre a fome que eles passam, ele nunca conseguiria nos fazer entender por completo, porque nós simplesmente nunca estivemos nem perto desse quadro.

Talvez seja mais fácil aceitar a nossa ignorância sobre um assunto quando se trata de algo tão físico como a fome, mas essa relação se aplica a toda e qualquer vivência que não experienciamos, principalmente quando nós estamos numa posição privilegiada em relação a essa mesma pessoa. Não é fácil reconhecer que às vezes a nossa voz tem obrigatoriamente uma importância menor do que a dos outros. Seria eu a porta-voz ideal para o movimento Black Lives Matter? Seria um homem o representante perfeito do movimento feminista? Poderia uma pessoa cisgênera representar o movimento trans? É claro que não. A pessoa mais adequada para falar sobre certa realidade sempre será aquela que está inserida em determinada realidade.

Quando esse mesmo professor fala sobre outro livro da lista da Fuvest, Til (que eu detesto, aliás), de José de Alencar, ele sempre faz questão de ressaltar como o retrato que o autor pinta dos escravos – pessoas humildes, de vidas puxadas, porém felizes, que encontram honra em seu trabalho – foi profundamente influenciado pelo fato de este ser um defensor ferrenho da escravidão. Nessas horas, percebemos que nem sempre se trata de orgulho ou engano – um retrato distorcido da realidade pode e irá ser usado para defender opiniões, e muitas vezes de maneira muito mais sutil. Se pensarmos ainda que, em 1872, a disparidade social da alfabetização e alcance de meios de expressão era ainda maior, percebemos o perigo embutido na linguagem desse autor.

Refletir sobre suas opiniões e a origem inevitável delas é essencial para ter uma visão mais completa sobre o mundo em que vivemos. Nunca te direi que é possível virar alguém super correto, sem nenhum preconceito, que sempre age da maneira certa do dia pra noite – até porque isso é impossível mesmo durante uma vida inteira. Desconstruir a sua visão de mundo e se autoquestionar é e deve ser um processo constante e que dá bastante trabalho.

A mesma web que explicita quão fechados podemos ser nos nossos próprios mundinhos é também aquela que, como nossa editora Sofia Soter conta neste texto para a Revista Pólen, está dando a muitos a novíssima oportunidade de contar a própria história. Uma história que não tem que passar pelos filtros daqueles que sempre detiveram o poder de fala, como os modernos Josés de Alencar da vida.

Desapegar-se da sua vaidade e dar lugar (e ouvidos) aos protagonistas da história que você pretende entender é o primeiríssimo passo para expandir o nosso universo. Às vezes, precisamos reconhecer que já falamos demais.

Bárbara Reis
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

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