8 de abril de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: , and | Ilustração: Clara Browne
Estudo & Profissão: Apresentação #1

Foi dada a largada à coluna semanal de Estudo & Profissão (também conhecida como Escola, Vestibular e Profissões, a qual carinhosa e preguiçosamente chamamos de EVP). Aqui, neste canto todo nosso, falaremos sobre os infinitos assuntos relacionados a essas áreas, as quais não podemos negar que são uma parte importante na vida de toda garota.

É durante esta fase que a gente dá nossos primeiros (e segundos e terceiros e quartos…) passos para a formação de nós mesmas. É quando vivemos muitas das nossas histórias, onde conhecemos muitos amigos e também gente que não gostamos. Aprendemos a lidar com autoridade, com desafios, com fofocas e com outras inúmeras coisas – tantas que poderíamos até escrever um texto inteiro só disso!

Mas ao invés de ficarmos aqui lembrando das coisas boas e ruins da escola (isso vocês já sabem e vivem quase todo o dia), decidimos estrear nossa coluna semanal contando das nossas próprias experiências na trajetória escolar e profissional. Assim, vocês conhecem um pouquinho mais da gente e das histórias de quem está aqui juntas todas as terças. Nosso time será composto por seis garotas: Ana Paula Pellegrino, Bárbara Carneiro, Clara Browne, Dé Albu, Gabriella Beira e Taís Bravo. Hoje, 3 de nós vamos nos apresentar e, semana que vem, as outras 3. Prontas ou não, aí vamos nós!

 

Clara Browne:

Quando eu estava na terceira série (na época ainda era entitulado “série”  ao invés de “ano”), meu pai disse que, se eu fizesse as lições de casa, eu aumentaria a minha nota 9 para um 10. Eu, muito sabiamente, respondi para ele: Mas eu não quero tirar 10. Para mim, esta nota era sinônimo de perfeição e eu bem sabia que o perfeito, por mais que a gente busque, é uma ilusão. Eu gostava dos erros, das coisas que ainda poderia melhorar, do que hoje descobri que é a construção contínua de mim. E eu realmente preferia brincar, ver TV, ler, desenhar e até mesmo ver mosca voando do que fazer lição de casa. E foi por isso que, na quinta série (atual sexto ano), meus pais me mudaram de colégio e me colocaram em uma escola particular que tinha o lado clássico da educação (algo que eles achavam importante), mas que também tinha um lado das artes.

clara_18Mas a verdade é que, ao longo do tempo, aquele colégio foi se tornando uma verdadeira máquina de vestibular, daqueles que se orgulha da posição no ENEM, e os professores e diretores vêm dizer aos alunos que ano-que-vem-vocês-farão-melhor-ainda sem nem perceber a pressão absurda que colocam em nossos ombros quando dizem essas coisas com um sorriso maléfico no rosto. E, assim, ao longo dos meus anos na escola, minha alma foi sendo consumida a ponto de eu desabar no choro por causa das guerras no Oriente Médio, quando tudo o que minha mãe tinha me perguntado era como havia sido o meu dia. Eu me sentia sufocada. E completamente fora daquele ritmo surreal, que, aparentemente, todos os meus colegas acompanhavam.

Eu me sentia burra, sem energia, completamente desiludida com o mundo todo.  No fim da escola, eu já contestava os exercícios que os professores passavam, os métodos que eram utilizados, os motivos de ter que seguir tão estritamente uma vida inteira que não fazia sentido para mim.

Apesar disso, os professores gostavam de mim. E eu também tinha um pequeno grupo de amigos o qual não era muito bem quisto pelo resto do nosso ano, mas tudo bem. A gente se divertia com isso.

Com tanto sofrimento, tentei mudar de escola, mas não consegui. E, assim, acabei por terminar o Ensino Médio no mesmo colégio, tendo desenvolvido alergia ao estresse e com a consciência de que toda aquela experiência horrível seria um contra exemplo para tudo o que eu fizer na minha vida.

Ao mesmo tempo, a escola me proporcionou o projeto da minha vida: o teatro do nono ano. Aos 14 anos, tivemos que montar uma peça escrita pela minha professora de História para aprendermos melhor a matéria. Os 140 alunos juntos. Neste mesmo projeto. Isto mudou a minha vida. Mudou minha relação com as pessoas, me colocou em contato com uma forma de ensino em que eu realmente me sentia aprendendo algo, me apresentou uma energia única e mágica: a coxia.

No meu terceiro ano do Ensino Médio, meu professor me chamou para ajudar neste projeto, agora como ajudante de direção, junto com alguns outros alunos e professores. Eu não tive dúvida: deixei para lá todas as horas extras que devia passar estudando para o vestibular para me dedicar 100% àquele projeto tão magnífico. Esta experiência me deu um fascínio por trabalhar com educação e também fez com que eu me apaixonasse por essa idade dos 14-15 anos.

Passei para a faculdade de Letras na USP, o que mudou a minha vida. Depois do período sombrio do Ensino Médio (em especial o terceiro ano), eu estava na faculdade! Finalmente! A terra que tanto me prometeram! Conheci inúmeras pessoas interessantes (e outras bem bobas também), fiz amizades incríveis que me transformaram de formas que nunca poderia imaginar. Também passei a ter contato com movimentos sociais que só abriram mais ainda os meus olhos e que só me faziam ter mais certeza: quero trabalhar com educação.

Durante a faculdade, continuei por mais um ano no projeto de teatro da minha antiga escola (e até hoje faço umas visitinhas surpresa). Além disso, já tive experiência em dar aula particular, revisar textos em editoras e fazer preparação de originais.

Descobri também que não sirvo para o mundo acadêmico. Escrever trabalhos, ler uma quantidade exorbitante de textos teóricos, seguir à risca as regras para formatação de documento… Nada disso é comigo. Prazos, notas, provas e todas essas outras coisas que rondam o meio acadêmico me dão crise de ansiedade, por mais que eu sempre tenha aquela sensação gostosa de dever cumprido e bem feito no final das contas.

Agora, estou no terceiro ano da minha faculdade, estudando Português e Espanhol. Com todas as crises, defendo meu curso com unhas e dentes e tenho certeza absoluta de que não estudaria outra coisa que não Letras. Junto à literatura, a mim somam-se as artes plásticas e o teatro. Não vejo a hora de juntar tudo e colocar a mão na massa.

 

Gabriella Beira:

Estudei o Ensino Fundamental todo em escolas particulares de médio porte. No Ensino Médio, prestei vestibulinho para fazer escola técnica na ETEC São Paulo. De longe, uma das melhores experiências da minha vida – nem tanto no âmbito acadêmico, mas, principalmente, no âmbito pessoal.  Mais do que para ter me formado no Ensino Médio, esse tempo serviu para minha formação como indivíduo, processo que contou com a participação de colegas de classe, professores e amigas e amigos que conheci na ETESP. Só posso dizer que sou completamente diferente daquela que era antes de entrar no colégio.

Como a ETESP tem um estilo bem diferente dos colégios tradicionais (não precisa usar uniforme, não tem sinal, estudamos numa espécie de campus, que dividimos com os estudantes da FATEC), lá eu pude desenvolver aspectos da minha personalidade mais livremente, num ambiente onde a pressão por notas e resultados era matizada pela maior preocupação com a humanização da educação – não que tudo fosse só flores: lá eu peguei minha primeira recuperação.

Lá percebi que, diferentemente do padrão disseminado de escola e de educação, estudantes podem ter mais espaço e autonomia no próprio processo de aprendizagem (uma coisa, aliás, pela qual acho que devemos lutar em qualquer tipo de escola). Eram promovidas, a despeito da falta de incentivos do Governo Estadual (que gere as escolas técnicas), muitas atividades extra-curriculares, tanto pelos professores, como pelos estudantes. Organizávamos cine-clubes com debates, grupos de estudos, saraus, eventos… O mais incrível da ETESP é que a gente sai de lá sabendo olhar tudo de um jeito diferente, a gente aprende a questionar os porquês das coisas.

Além disso, diferentemente de todas as escolas em que estudei, a diversidade de pessoas com que a qual eu me deparei lá foi uma das coisas mais interessantes e enriquecedoras da minha experiência. Gente de todo o tipo, de bairros e até de cidades diferentes, com os mais diversos gostos e preferências… Nem preciso dizer que lá conheci as pessoas que escolhi levar pra vida e onde fiz as amizades mais sólidas que já pude construir.

E essa tendência de não me conformar diante das regras de funcionamento do mundo tradicional só foi crescendo em mim desde então, e por isso eu escolhi fazer faculdade de Relações Internacionais: um curso multidisciplinar, porque eu não suportava a ideia de fazer uma graduação que limitasse meus horizontes a uma só área de estudo e de atuação.  Foi um curso tão idealizado por mim antes de entrar na faculdade que, quando comecei a cursá-lo e a perceber como a universidade realmente funcionava, me decepcionei um pouco. Porque eu esperava da faculdade aquela liberdade de aprendizado que a gente não experimentava na escola, e que eu poderia estudar somente aquilo que de fato gostasse. Quanta inocência… Apesar de ser um espaço supostamente diferente de ensino, a universidade ainda guarda muito dos traços da educação tradicional, como a preservação do mérito acadêmio (ou seja, nota) como principal objetivo e a cobrança excessiva pela produção de trabalhos e leitura de textos gigantes e teóricos demais.

gabi_13Nesses três anos de curso, fui aprendendo a me adaptar a esses moldes, mas sem perder o horizonte de que não é essa a forma como quero lidar com minha própria formação acadêmica. Por isso, mais uma vez, me envolvo em projetos extra-curriculares (até mais do que deveria!) para complementar a graduação com uma maior humanização do conteúdo visto em sala de aula. Faço parte de instituições estudantis  como forma de articular o conhecimento teórico aprendido com a nossa realidade  vivenciada como estudantes, cidadãos e, principalmente, agentes de mudança social.

E dentro dessas muitas atividades além da universidade, me deparei com o lindo projeto da Capitolina! Portanto, nada mais lógico do que juntar minha vontade de transformar a educação e todo o processo de formação escolar e profissional num caminho mais autônomo  e emancipador  com  a nossa coluna semanal de EVP. Espero que daqui pra frente possamos criar juntas alternativas criativas de lidar com essa fase que dura tantos anos em nossas vidas. Espero que gostem dessa experiência que estou ansiosa para dividir com vocês. Sejam benvindas! 🙂

 

Taís Bravo:

Minha história é um pouco incomum. A maioria das pessoas vive aquele momento dramático da infância que é o primeiro dia de escola. O meu primeiro dia de escola pra valer só foi aos 14 anos, porque até essa idade eu estudei no colégio em que meus pais trabalham. Essa experiência me rendeu problemas; é bastante complicado crescer tão próximo de seus pais, basicamente qualquer mínima bagunça que eu fizesse chegava em questão de minutos aos seus ouvidos. Mas crescer nesse ambiente me permitiu observar o que acontece em um colégio de uma perspectiva diferente. Eu conseguia entender que os alunos se sentissem entendiados e detestassem a escola, mas tinha um respeito e uma admiração inabalável pelos meus professores, porque entendia – a partir dos meus pais – que a educação era algo da maior importância. Hoje em dia mantenho o mesmo sentimento em relação aos professores, mas mudei minha concepção sobre o que é educação e sobre qual é seu valor. Eu só poderia perceber o quanto um colégio é também um ambiente opressor, quando não podia mais confundir esse espaço com a minha casa.

No Ensino Médio eu fui estudar no Anglo Americano, um colégio que tem o lema “formando empreendedores”. Lembro bem da coordenadora contando sobre como o colégio tinha uma proposta diferente e que não pretendia formar os alunos apenas para o vestibular, mas para a vida. É bem irônico como essa promessa se concretizou, porém de um modo completamente diferente do esperado. Eu estudei por dois anos nesse colégio e foi um caos. Os professores sofriam bullying intenso dos alunos – e não preciso nem dizer que o ataque entre alunos era ainda pior. Tiveram casos quase incríveis em que uma turma fez um piquete e prendeu uma professora do lado de fora quando ela saiu para comprar giz. A verdade é que foi um período em que eu me sentia infeliz, mas do qual não me arrependo nem um pouco, porque realmente me ensinou muito sobre a vida – e foi nesse colégio dos infernos que conheci minha melhor amiga, a pessoa que mais me entende no mundo.

Meus pais ficaram meio desesperados com essa experiência e decidiram que eu precisava mudar de colégio para poder passar no vestibular – no Anglo eu quase não estudava e estava sempre com boas notas. Então, meu terceiro ano foi em um desses colégios integrados ao cursinho de vestibular GPI. Foi um período intenso em que eu passava a maior parte dos dias e às vezes o final de semana no colégio. Não tinha tanta certeza sobre qual curso eu queria, alternava entre História e Comunicação. Sabia apenas que queria estudar algo que me fizesse entender mais sobre o mundo e sobre mim, queria que minha faculdade não fosse apenas um meio de alcançar um diploma para entrar no mercado de trabalho. Eu gostava muito de ler e de escrever. Na verdade, quando eu tinha 15 anos decidi que seria escritora. Não conseguia pensar em outra profissão para mim, porque naquela época a literatura era como uma necessidade em meio ao tédio e à confusão da adolescência. Amava os escritores, porque eles me apresentavam outras realidades e possibilidades de criar a vida. Amava meus livros, porque eles me acolhiam no meio de aulas chatas ou em momentos difíceis. E logo comecei a escrever para também poder criar, para organizar minhas ideias ou para fugir da minha realidade. Eu pensava em estudar comunicação e ser jornalista, mas não tinha o menor interesse em escrever para a mídia tradicional, porque queria poder escrever de um modo criativo e livre. Eu gostava muito de estudar História no colégio, achava que seria um curso onde aprenderia muito e ser professora me parecia uma profissão admirável (além disso, meu pai estudou História, foi uma influência definitiva). Então, eu fui estudar História na UFF, porque essa universidade era conhecida por ter o melhor departamento de História de toda a América Latina.

taís_17A verdade é que não aprendi nada em sala de aula no meu primeiro período da faculdade. Logo no início percebi que detestava o que é mesmo estudar História. Quem realmente me ensinou muito foram as pessoas. Aquele primeiro semestre foi transformador e acho que nunca vai acabar dentro de mim. Mas o segundo período chegou e eu precisava assumir que não queria continuar estudando História. Foi um tempo de crise em que eu me sentia pressionada para tomar a decisão certa, ao mesmo tempo que me parecia injusto reduzir meus interesses a um único curso. Preciso dizer que foi mais por acaso do que por certeza que acabei mudando de curso para Filosofia. Até hoje essa escolha me perturba em termos de futuro profissional, mas sei que foi um curso que me transformou muito. As aulas (boas) de filosofia não só me ensinavam em termos de conteúdo, mas me faziam pensar e me inspiravam. Além disso, foi nesse curso que conheci um grupo de amigos que mudou meu modo de pensar e de agir mais do que qualquer filósofo é capaz.

Ao contar sobre essa trajetória percebo como tudo aconteceu fora do meu controle e contrariou as minhas expectativas. No entanto, enquanto escrevo esse texto para a Capitolina sinto que estou exatamente onde quero estar. Não que eu esteja completamente satisfeita, a vida acadêmica ainda me deixa muito insegura e ansiosa, mas sei que independente de todas essas pressões, estou seguindo o que faz sentido para mim. E agora ainda mais, pois posso compartilhar essas minhas descobertas e dúvidas com vocês, leitoras da Capitolina. Tenho certeza que vamos crescer e nos transformar juntas! 🙂

 Ficou com vontade de mais? Não precisa esperar! Quer falar conosco? Bota a boca no trombone! Queremos ouvir o que vocês têm a dizer!

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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