Estudo & Profissão: Apresentação #2

Depois de todo esse tempo (sete dias, para sermos mais exatas), mais um turno de apresentações da área de  Estudo & Profissão (ou Escola, Vestibular e Profissões, ou ainda EVP) para vocês sacarem um pouco qual é a nossa por aqui. Hoje escrevem Bárbara Carneiro, Ana Paula Pellegrino e Debora Albu. Pra quem perdeu as introduções da semana passada, elas estão muito bem guardadas e prontas para serem lidas e relidas clicando aqui.

Bárbara Carneiro:

Em geral, prefiro fazer tirolesa a 10 metros de altura a escrever sobre minha trajetória de vida. Nunca sei o que realmente dizer porque, já diria Charlie Brown Jr, “cada escolha uma renúncia, essa é a vida” e cada vez que seleciono uma parte pra contar, me pergunto “e por que não aquilo outro?”.

O que eu decidi contar pra vocês é que eu era uma pessoa bem esquisita na minha época de escola. Achava que em algum momento Carrie, a Estranha, entraria na minha sala, daríamos a mão e esperaríamos alguém nos buscar na esquina do colégio. Carrie nunca apareceu, mas foi sendo esquisita que fiz amigos que em alguma medida desafiavam os padrões da escola. A gente descobriu que ser esquisito era normal e que era ainda melhor ser esquisito acompanhado.

A escola, para mim, funcionou muito bem como um grande laboratório de técnicas de sobrevivência. Não me lembro mais tanto daquela época, já faz sete anos (de sorte ou de azar?) que terminei o terceiro ano. Resolvi, então, me esforçar para lembrar coisas de que eu gostava e coisas que eu detestava entre aqueles muros.

O que eu achava legal na escola:

  1. O primeiro dia de aula
  2. Meus amigos
  3. Discutir com os professores quando eles falavam abobrinha
  4. Quando a mãe de alguma amiga fazia um lanche incrível para a filha levar pro recreio e mandava um a mais pra eu experimentar
  5. Ser contra-regra no teatro
  6. Escrever cartas durante aulas chatas
  7. Fazer histórias em quadrinhos sobre os conteúdos da aula de História
  8. Exercícios de Genética
  9. Imitar o jeito como a professora de Biologia falava
  10. Quando acertava de primeira os exercícios de Matemática

O que eu achava uó na escola:

  1. O primeiro dia de aula
  2. Ficar 5 horas sentada no mesmo lugar
  3. Discursos sobre termos que estudar todos os dias para passar no vestibular (e só assim ser alguém na vida)
  4. O professor machista que dava aula de Física
  5. A professora homofóbica que dava aula de Química
  6. Levar bronca porque estava “pescando” na primeira aula depois de ficar acordada até tarde pra ver um jogo de futebol do meu time
  7. Ter ido parar na sala da Direção porque quis jogar futebol com os meninos ao invés de fazer relaxamento com as meninas
  8. Nunca ter entendido o que é logaritmo
  9. O preço da comida da cantina
  10. Gente que julgava os colegas

Ana Paula Pellegrino:

Desde que me entendo por gente, pululo de colégio em colégio. Não que fosse por querer, tampouco porque era expulsa… era só porque minha família se mudava muito. Desde a Alfabetização (o atual 1º ano do fundamental), estudei num total de (um segundo, estou contando nos dedos) 8 colégios, em 2 países e 4  cidades diferentes. E era sempre a mesma ladainha: toda vez que chegava numa sala nova, encontrava uma turma que convivia junta desde a pré-escola, que já tinha suas amizades e dinâmicas; que eu, como forasteira, teria que descobrir, aprender e manobrar. Demorei um bom tempo até entender como isso funcionava – acho que até hoje não sei muito bem. Mas sou especialista em primeiros-dias-de-aula-no-colégio-novo.

Na verdade, o que me salvou foi ter sempre sido uma boa aluna. Desde cedo tomei gosto pelo estudo. Isso, ao final, funcionou como moeda de troca: quebrava o gelo com amigos em potencial deixando que copiassem meus deveres, aquela coisa bem de criança. O esquema dava certo em quase todas as matérias, exceto português. Essa sempre foi um parto – eu fui aprender a ler e a escrever na nossa língua só quando tinha 10 anos e esse atraso rendeu muuuuuuita dor de cabeça na hora de correr atrás do prejuízo. Quando junto isso com todos os outros atritos que tinha em sala de aula – desde discriminação institucional por ser estrangeira, até gente me dizendo que eu não sabia falar – realmente não sei como pessoas acreditam que vida de criança e adolescente é mole.

Já mais velha, e também mais ambiciosa, acabei estacionando em um colégio por mais tempo que os demais. Estava para entrar no Ensino Médio quando resolvi, após um ano nesse colégio, experimentar um novo, mais puxado e focado em vestibular. Achava que queria entrar para Medicina ou algo relacionado a ciências biológicas na faculdade e precisaria desse reforço para conseguir uma das concorridas vagas. Arrependi-me redondamente e em menos de um ano voltei correndo para o colégio antigo. Descobri com essa experiência que escola é muito mais do que apenas a matéria dada e aprendi a valorizar, com isso, todo o pacote de aprendizado que ela te oferece.

Foi nessa época que descobri uma vocação para além das matérias, que sempre foram meu refúgio. Meu colégio promovia diversos projetos sociais e participei de vários. Aprendi naquele contexto que gosto de trabalhar com gente, com relações humanas. Mas, desde que deixara a outra escola, mais focada em vestibular, não tinha pensado com seriedade sobre qual curso me candidataria. Aos 45 do segundo tempo, decidi por Filosofia. Tivera aulas sobre o tema desde o primeiro ano e confesso que me encantei pela ambição de pensar todas as questões da humanidade e além. Mas tive medo de conversar sobre isso com meus pais…porque Filosofia não é lá o curso mais bem quisto e com maiores chances de emprego após a formatura – uma das milhões de variáveis com as quais nos deparamos quando temos que fazer esse tipo de escolha.

Decidida a fazer Filosofia, já com tudo conversado em casa, relaxei. Sem a pressão dos cursos mais concorridos, dei-me ao luxo de participar de atividades extra-curriculares – e uma delas acabou alterando completamente a minha escolha, já na prorrogação da partida final do campeonato. Foi numa simulação de Relações Internacionais que tudo mudou. Para uma pessoa tímida, chegar na frente de vários desconhecidos e discursar defendendo os interesses nacionais de um país, como sua representante, foi uma experiência surreal – mas libertadora. Gostei tanto da coisa que resolvi fazer as duas faculdades: Filosofia e Relações Internacionais, um curso super desconhecido na época, fora do eixo tradicional de Medicina-Direito-Engenharia. Não que sair do eixo fosse um problema pra quem já estava crente que faria Filosofia, mas essa foi uma daquelas contingências que alteram a vida da gente. Resolvi aceitar o desafio e, ainda na tranquilidade, passei para os dois cursos.

Por causa de outras contingências – vi um professor ser espancado em sala de aula e entrei num grupo de estudos que demandava muito tempo – abandonei Filosofia. Formei-me em Relações Internacionais e estou no último ano do mestrado na mesma área. Confesso que mesmo assim ainda não sei 100% o que quero fazer na vida…mas não deixo de ser ambiciosa com meus sonhos. Assim como no colégio, continuei encarando a faculdade como uma experiência para além da sala de aula, que não deixava, por isso, de ser importante. Depois conto a história das minhas peripécias universitárias. O que queria deixar com vocês dessa minha experiência é isso: não é fácil ser adolescente, mas tem muita coisa boa. A escola é mais do que a matéria dada e, se você der oportunidade ao inesperado, pode descobrir em você coisas que jamais poderia imaginar.

Espero que nas colunas daqui em diante a gente consiga, juntas, falar mais sobre tudo que acontece nessa área da nossa vida que toma tanto do nosso tempo e da nossa preocupação. Vai ser um prazer embarcar nessa nova empreitada com vocês!

Debora Albu:

A primeira lembrança que me vem à cabeça quando penso em escola é uma experiência mini-trágica no jardim III (sim, quando eu tinha cinco anos). A atividade era colorir um patinho em amarelo. Eu resolvi que, além do amarelo, usaria laranja – para colorir o bico e as patas, afinal, eles são laranjas. A professora me deu uma bronca, disse pra eu seguir à risca a tarefa da próxima vez… Isso me marcou, pois sinto que, a partir daquele momento, tive necessidade de ser um pouco mais reflexiva com o que desenvolvia na escola.

Fui uma dessas alunas que se dedicava 100%, mantinha deveres e tarefas sempre em ordem, estudava muito pra todas as matérias, mesmo para aquelas de que não gostava. Eu cabia dentro de um “quadradinho-modelo-imaginário” dos professores e coordenadores. Apesar disso, via como as pessoas que não se espremiam dentro desse quadrado se sentiam. Do lado dos alunos, sofriam bullying. Do lado dos professores/coordenadores, sofriam com provas, notas e recuperação.

Minha experiência com educação mudou bastante a partir do momento em que me tornei monitora em um movimento juvenil. Nessa organização, desenvolvíamos atividades e dinâmicas para jovens por meio de educação não-formal, ou seja, usando brincadeiras, jogos, rodas de conversa para debater – e não ensinar – sobre temas importantes, como Direitos Humanos, meio ambiente, política. Comecei a pensar sobre educação sob outra perspectiva: a de quem não só era “educada”, mas de quem também educava. Aprendi que educação não é como uma moeda a ser “depositada” dentro de alguém (busquem por “educação bancária” no Google). Pedagogia foi, inclusive, uma das minhas opções no vestibular, mas acabei optando por Relações Internacionais.

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Minha experiência com educação ficou mais “formal” um tempo depois. Virei professora de inglês e tive que aprender vários jeitos diferentes de ensino de línguas. Muitos deles não faziam sentido pra mim, porque eu achava que eram pouco criativos e reflexivos. Eram justo um “depósito” de informações no aluno, e não abriam espaço para criarem suas próprias percepções e visões. Até eu mudar de curso e dar aula para crianças de 3 anos. Podia usar tantas ferramentas não formais quanto quisesse: fantoches, música, desenho, jogos. Isso foi reconstruindo a minha própria ideia sobre escola e educação.

 

Sinto que na época que ia pra escola eu representava um quadradinho que hoje não acredito mais. Sem dúvida me trouxe alguns benefícios ter tido disciplina para estudar e seguir fórmulas. Mas hoje vejo que teria ganhado mais com outras experiências extra-escolares. Foi na faculdade que fiz isso e busquei experiências fora da sala de aula, em que pudesse desenvolver outras competências que não só acadêmicas.

Foi assim que me envolvi com temas que não faziam parte da faculdade em si, como políticas sociais, direitos das juventudes e das mulheres, e que hoje são os que mais me motivam. A Capitolina  será, sem dúvida, um lugar em que vou poder colorir o “patinho” com todas as cores e é também o espaço em que oferecemos para vocês fazerem o mesmo. Coloquem suas ideias e opiniões de forma livre, sem amarras e padrões. Porque somos o que quisermos!

 ***

A novidade que deixamos para o final do post é (escutem os tambores rufando) que semana que vem teremos a última etapa de apresentações de nós mesmas. Só que dessa vez com um único relato: o de Maria Clara Araújo, vestibulanda e ativista da causa trans*. Curiosas? Próxima terça tem mais!

Ah! Vale também lembrar que pra falar com a gente por e-mail nosso endereço eletrônico é contato@revistacapitolina.com.br e estamos aí para receber sugestões, depoimentos, dúvidas, críticas (sem ódio, hein?) vindas de vocês!

Bárbara Carneiro
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Ilustradora
  • Fotógrafa
  • Colaboradora de Esportes

Bárbara Carneiro mora em São Paulo, curte narrativas cíclicas, tem como gosto mais constante a cor amarela e cria um cacto no jardim.

Ana Paula Pellegrino
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Ana Paula tem vinte e poucos anos e a internet opina demais sobre sua vida. Mora com sua família no Rio de Janeiro. Prefere ficar em casa tomando chá sem açúcar a sair para lugares barulhentos. A não ser que o programa envolva comprar roupas. Ou livros. Apesar de destrambelhada, faz ballet; segue tumblrs de yoga e pensa demais. Ana Paula, mesmo sendo estranha, é feliz.

Debora Albu
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Debora é mestra em Estudos de Gênero e é formada em Relações Internacionais. É carioca, apesar de ter passado uma temporada da vida em Paris e todo mundo a chamar de "francesinha" - por vezes acredita ser verdade. Faz parte da gestão da Agora Juntas, um rede de coletivos feministas no Rio de Janeiro. É ciberativista e feminista antes mesmo de entender o que essas palavras significam.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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