26 de julho de 2016 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Isadora Carangi
Aquilo que ninguém ensina sobre profissão e trabalho
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Escola, cursinho, supletivo, aula de reforço, aula particular, aulão preparatório para vestibular X, Y, Z, e por aí vai. Tudo isso e um pouco mais para omitir um detalhe crucial: escolher uma profissão não significa que você é apta apenas para exercer esse ofício. Não, não estamos sugerindo o clássico jogar tudo para o alto, prestar vestibular novamente ou pedir reingresso em outro curso da faculdade.

Nós somos incentivadas a escolher uma profissão desde pequenas, e o que há de mais perigoso nesse discurso talvez nem seja o juízo de valor sobre carreiras “melhores” e “piores” que outras, mas, sim, o engessamento de que só saberemos fazer uma coisa na vida e nada mais. Com essa crença nas entrelinhas, toda a nossa capacidade de adaptação, flexibilidade e combinação de aptidões vai para o ralo.

Essa multiplicidade é descoberta eventualmente, seja na necessidade de sobreviver, seja no flerte com outras áreas correlatas à sua escolha profissional. Vou me usar de exemplo para explicar melhor: a sociedade me sonhou “médica”, fiz a #diferentona me tornando historiadora, mas, nesse meio-tempo, me fiz tradutora e intérprete de conferências. Há dois anos tirei do fundo do baú uma terceira profissão, quiçá a primeiríssima, e me intitulei “escritora”. Hoje, jogo nas onze e esse malabarismo de personagens profissionais se retroalimenta, me tornando um pouquinho melhor em cada área pelo simples fato de que rola essa troca. E quando olho para trás e lembro da Carolina aos quinze, desesperada para atender a todas as expectativas de ser um prodígio, abro um sorriso sereno e penso que não consigo conceber uma confluência de atividades mais gostosa e satisfatória para mim. Eu de fato me sinto realizada profissionalmente por estar, graças a Deus, a mim e aos meus privilégios (vamos colocar as cartas na mesa sempre, gente), trabalhando com as coisas que mais gosto de fazer.

Essa seria a deixa perfeita do texto para estampar aquela máxima confuciana “trabalhe com aquilo que gosta e não terá que trabalhar um dia sequer na vida”, mas não. Porque apesar de concordar com ela, a acho um tanto quanto injusta e dúbia.

Por que injusta? Porque ela só serve para uma minoria privilegiada.
Por que dúbia? Porque ela serve de subterfúgio para a glamourização do trabalho, nos deixando cada vez mais viciados em trabalhar e desequilibrados, pois todo vício leva ao desequilíbrio. Chega a ser irônico eu estar escrevendo sobre isso, pois sou reconhecidamente apaixonada pelo meu trabalho e muito engajada nas novas tendências cool, como o home office (escritório em casa) e o coworking (co-trabalhar).

O coworking é uma prática recente, fruto de um mundo globalizado e virtualizado, onde as relações humanas e laborais estão em constante metamorfose. Em suma, é um espaço que reúne profissionais liberais de diferentes áreas, que trabalham dividindo o mesmo espaço físico e os custos de infraestrutura dele. Trabalham cada um por si, tocando o próprio barco, mas acompanhados uns dos outros. As principais capitais brasileiras já contam com suas dezenas de espaços de coworking que, em geral, têm um visual descontraído e convidativo, para que as horas ali gastas não sejam penosas e restritivas.

Isso é ótimo, afinal, quem não quer trabalhar em um espaço confortável, rodeado de gente bacana, com todos fazendo o que gostam? É o melhor cenário laboral que há. Mas, repito, além de ser privilégio de poucos, essas práticas da nova ordem do trabalho (virtual, global e remota) vestem a roupagem da liberdade, mas, no fundo, nos aprisionam no vício do trabalho. Porque, no final das contas, apesar dos filtros moderninhos do Instagram, ainda continuamos viciados em trabalhar.

Porque é isso, gente: por mais legal que o nosso trabalho seja, ele tem um forte potencial de nos escravizar de forma a acreditarmos piamente que somos definidos por ele, ou pior, que só somos boas e dignas de respeito por causa dele. Entretanto, há uma luz no fim do túnel: quando falamos abertamente sobre toda sorte de concepção sobre o que é trabalho, nós conseguimos colocar as coisas em seus devidos lugares e, com isso, alimentamos uma mudança de atitude ou trocamos as lentes pelas quais enxergamos quem somos e o que fazemos.

Nosso trabalho diz, sim, muito sobre quem somos, mas ele não nos define e nem define a nossa felicidade. Se isso acontece, cuidado: profissões e empregos não são perenes e ficam ao sabor das mudanças da vida, logo, é muito arriscado se sustentar apenas sobre esses pilares. É claro que remar contra essa maré é extremamente difícil em um mundo capitalista, com padrões de sucesso e satisfação pessoal tão enraizadas no conceito de trabalho, mas não é impossível. Deixo aqui o meu mantra pessoal para ajudá-las, que repito semanalmente para não esquecer de quem eu sou ao definir o que eu não sou: a minha profissão e o meu trabalho são uma parte de mim, mas não o meu eu todo.

Carolina Walliter
  • Revisora
  • Colaboradora de Esportes
  • Colaboradora de Literatura

Beatlemaníaca que gosta de sambar diferente com o Molejão, gosta de carnaval e de futebol mais que o recomendado pela OMS. Carioca da gema e cidadã do mundo, tradutora, intérprete, historiadora, mochileira, nômade digital, rabiscadora compulsiva em moleskines (não necessariamente nessa ordem) mas, antes de tudo, uma contadora de histórias, sobre si e sobre os outros. Escreve sobre o cotidiano da tradução em: http://pronoiatradutoria.com/

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