15 de novembro de 2015 | Colunas, Estilo, Se Liga | Texto: | Ilustração: Julia Oliveira
Arco-íris crespo

“Cabelo crespo não combina com tintura.”

“Vai acabar com seu cabelo!”

Meninas, são tantas e tantas pretas que tenho visto nas ruas e nas redes sociais com os cabelos coloridos, que decidi falar de nós, mulheres negras: minha pauta preferida!

Uma reflexão importante para escrever sobre isso partiu do fato de que eu, mulher negra, apesar de já ter tido interesse diversas vezes, nunca consegui colorir meus cabelos. Mas o destaque é que isso não parte de algo individual. É preciso pensar no que a liberdade de poder chamar atenção e usar o cabelo como forma de expressão e estética significa para as mulheres negras. Pois, apesar de usada há décadas nesta sociedade, a coloração capilar fora das cores convencionais para esconder os fios brancos (um outro tabu) sempre nos trouxe inseguranças.

Nas revistas, sites e blogs tradicionais, editoriais ensinam como fazer tinturas diversas em cabelos lisos, exibem galerias de fotos com referências de beleza em que não nos enxergamos, ou ainda, insistem em dizer o que pode ou não para cada tipo de cabelo. Essa e outras ações são mais uma das páginas do livro do padrão de beleza imposto na sociedade, que nos bombardeia de todos os lados.

Os padrões de beleza, apesar de atingirem todas nós, não representam especialmente as negras. São padrões que costumam fragilizar e impor ditos a todas as garotas, mas que fazem um abalo ainda maior em quem passa longe da linha do que é considerada perfeição.

Essa semana a tendência chamada “efeito rainbow roots”, que é uma mistura de cores nas raízes dos cabelos, destacada em diversos sites de beleza, me chamou atenção. Mais uma vez, os padrões expostos na mídia tradicional não contemplam a imagem que nós, mulheres negras, olhamos todos os dias no espelho.

E, convenhamos, cabelo crespo e colorido são sim combinações incríveis. E repito, vejo por aí cada vez mais negras com cabelo colorido dando show! Entre elas, Renata Alves, que topou contar um pouco de sua experiência como uma crespa colorida para Capitolina. Renata, assim como muitas meninas negras com cabelo crespo, começou a fazer alisamento capilar aos 10 anos e apenas no ano passado, com 24 anos, conheceu seus fios naturais novamente, ao resolver fazer um processo de transição. “Foi um processo muito doloroso, que particularmente chamo de ‘nascer de novo’, pois eu não lembrava mais como eu era meu cabelo”, contou.

Ela, que sempre gostou de cabelos coloridos, depois da transição resolveu fazer coloração em seu black power: “Eu nunca me senti tão bem fisicamente como agora, o meu cabelo expressa muito sobre mim, sobre minha ancestralidade, e de alguma forma, colorido remete à alegria que a gente mantém mesmo com tantas dificuldades. Além de ser uma afronta um cabelo crespo colorido, ele chama atenção e isso pode incomodar muito.”

Poder ter a liberdade de pintar ou não o cabelo é ter simplesmente a liberdade de poder fazer dele algo que a faça sentir bem consigo mesma, o que nos é estruturalmente barrado: “Tenho o black há menos de um ano, ele já foi ruivo (laranjinha), roxo e agora está azul, vai ficar até eu enjoar. Estou pensando em arriscar um rosa depois, vamos ver!”. Hoje a tonalidade usada por ela é o azul.

Conversando com diversas meninas, pude ver que o mais bacana dos variados processos é poder relacionar-se com o cabelo de uma forma diferente, testar tons, experimentar coisas e cores novas, enfim, sentir. É poder usar e abusar das tranças coloridas, é poder pintar os fios em degradê, mudar o estilo quando quiser, ter nos fios os tons mais inusitados. É como Renata disse, se sentir alegre por ser simplesmente o que é.

Simone Nascimento
  • Colaboradora de Estilo

Simone Nascimento, 22 anos, Negra, Mulher, Feminista e Umbandista! Ama suas raízes, dos fios da cabeça ao toque do atabaque. Leonina da Terra da Garoa (SP), apesar de amar o sol! Estudante de Jornalismo, formada em Figurino, Estilismo e Coordenação de Moda, — vê a comunicação como um direito e a Indumentária como arte. Militante anticapitalista, quer viver num mundo livre de opressões.

  • Cora Reynolds

    Mensagem bem atrasada, mas: vc sabe quem é a moça do cabelo multicolorido? Não sei se foi de propósito, mas o cabelo dela tá nas cores da bandeira bissexual e eu tô apaixonada.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos