1 de setembro de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Arquitetura é pra mulher e Engenharia pra homem?

Na hora de tomar a decisão de que curso prestar no vestibular um mundo de coisas passa pela nossa mente: se é aquilo mesmo, quais portas aquele curso pode abrir, quais as possibilidades reais de emprego, se há boa remuneração etc. No meio disso, às vezes, ainda vêm as vozes dos familiares tentando te dar todas as respostas como se o resto da sua vida (que não precisa ser o resto da sua vida) fosse ser decidido por alguém que não você. E você acha que acabou? Tem mais! “Mas, menina, você vai fazer engenharia? Mas é curso de homem!”, “Mas, menino, você vai fazer belas artes? Trocou de time, é? Hehe” “Medicina, mulher? Vai se especializar em dermatologia, né?”

Se tem uma voz que eu te aconselho a não ouvir em um momento como esse, é essa última. Quem começa separando qualquer tipo de atividade por gênero (ou sexualidade) precisa desconstruir muita coisa ainda, né? Não dá pra ser um bom conselho! É, o problema é que tem muita gente que ainda pensa assim. E o problema maior ainda é que tem muita gente que pensa assim nas próprias faculdades e profissões. Muitas vezes há, realmente, uma predominância de mulheres ou homens em certos cursos, mas por que isso acontece? Quais as consequências disso (desse pensamento que nos divide em tarefas específicas de acordo com o nosso gênero ou sexualidade) no dia a dia da universidade e da profissão?

Eu estudo arquitetura e urbanismo e a minha profissão é um grande exemplo pra essa reflexão. De qualquer forma, eu quis ver se era só na minha área ou se certas coisas aconteciam em outras áreas também. Conversei com amigas e amigos que fazem outros cursos. Descobri que na medicina a proporção é bem maior de mulheres do que homens mas que, na hora de escolher a especialização, há uma expectativa de que mulheres sigam mais em áreas como a dermatologia e a pediatria, enquanto homens devem seguir a ortopedia ou cirurgia, por exemplo. E que quando uma mulher resolve seguir um caminho “tradicionalmente masculino”, ela acaba não sendo muito bem vista no meio.

Depois, refletindo sobre o espaço do hospital (agora como observadora/paciente e não como trabalhadora), percebi o quanto a maioria absoluta de enfermeiras é mulher, enquanto os médicos são homens. Ou seja, a relação mais constante e direta das/dos pacientes é, principalmente, com mulheres. Nas engenharias, assim como na física, aparentemente a coisa fica feia pro nosso lado. Há maioria de homens em todos os cursos. O que se aproxima mais de alguma proporção mais igualitária seria a engenharia ambiental, mas, mesmo assim, há relatos de empresas que contratam mulheres ou trabalhadores que gostam de ter mulheres em seu ambiente de trabalho por pura objetificação, ou seja, porque ela é bonita, agradável de se estar por perto. Levar em consideração a capacidade de trabalho da mulher, jamais né?

Em cursos como psicologia e direção teatral, há predominância de mulheres, mas, no primeiro, apesar de sermos maioria no mercado de trabalho, muitas vezes, os homens são mais celebrados/reconhecidos, e há, ainda, um estigma da psicóloga como a mulher conselheira. Nas áreas de comunicação social, há grande maioria de mulheres no início do curso. Mas ao escolher a sua habilitação, há uma predominância de mulheres indo para jornalismo ou publicidade. Em cinema a coisa fica mais equilibrada, porém, a maioria das referências estudadas, professores e pessoas no mercado de trabalho são homens.

Por fim, na arquitetura: sempre ouvi que só tinha mulher em arquitetura e que homem que faz arquitetura “não foi homem suficiente pra fazer engenharia e nem gay o suficiente para fazer design”. Eu não sei nem por onde começar a falar dos absurdos dessa frase. Fato é que, realmente, a grande maioria das pessoas que estudam arquitetura e urbanismo são mulheres. Porém, depois de quase seis anos de faculdade, eu consigo contar nos dedos da mão o número de mulheres arquitetas usadas como referência nas minhas salas de aula. Se perguntarmos nos corredores poucas pessoas saberão dizer mais de três ou quatro. Além disso, como é um curso que pode te direcionar para muitas áreas diferentes, há uma regra velada de que as mulheres não devem seguir as áreas que se relacionam diretamente com o espaço da obra, a mulher tem que ficar no escritório, na decoração, nas áreas teóricas.

Ora, vamos tentar entender todos esses relatos. Antes de qualquer coisa, é importante observar o mundo universitário e trabalhista através de diferentes recortes. A deficiência no acesso e permanência faz com que somente uma parte privilegiada da população, essencialmente de classe média alta e branca, esteja nesse espaço e, portanto, esteja sendo contemplada por essa reflexão. E aí, dentro desse recorte específico, há ainda o de gênero, que é o que estamos falando aqui.

Dá pra perceber que as profissões mais voltadas para o cuidado, a arte e as teorias aparecem como áreas mais femininas, enquanto profissões de mais esforço físico ou de exatas aparecem como mais masculinas. A mulher é vista sempre como o lado frágil e sensível e, nessa lógica, deve lidar com trabalhos que tenham essas mesmas características. Acho que não preciso nem dizer que todos esses estereótipos são uma grande mentira. Nós todas e todos temos as mesmas capacidades e não há motivos para dizer que uma mulher pode mais ou menos exercer tal atividade. O que precisamos é quebrar com essas divisões.

Infelizmente, porém, isso não é fácil. Se há algo em comum em todos os relatos e também em minha vivência na universidade, são os casos de machismo nos cursos e profissões. A mulher é sempre objetificada, julgada menos capaz ou invisibilizada pelos seus companheiros de trabalho. Hoje, no Brasil, uma mulher que exerce as mesmas funções que um homem recebe, estatisticamente, 30% a menos. E, como se não bastasse as dificuldades reais de cada profissão, temos que conviver ainda com os preconceitos e opressões no dia a dia, na vida acadêmica e profissional. Definitivamente se torna mais difícil a ascensão em uma área não esperada para uma mulher pela sociedade dessa forma e, por isso, algumas das predominâncias acabam se tornando reais, já que as oportunidades não são as mesmas.

Por que tanta diferença? A real é que não deveria ter diferença nenhuma e o que mais a gente pode fazer para que elas diminuam é ignorá-las, se precisar, ir contra elas e fazer o que acreditamos que seja melhor pra gente. Se fortalecer em outras mulheres naquela mesma área e procurar referências femininas também ajuda. Não importa se dizem que é de homem ou de mulher, o que importa é que seja pra você.

Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

  • Karol Alencar

    Eu inicialmente queria fazer jornalismo mas depois de pensar (há algum tempo atrás) sobre o assunto do texto eu tô pensando em fazer Engenharia.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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