4 de agosto de 2014 | Cinema & TV | Texto: e | Ilustração: Isadora M.
A arte perdida de ir ao cinema
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Durante o século XIX, muita gente tentou fazer o que seria o passo seguinte da fotografia: conseguir capturar imagens em movimento. Com esse desejo de ver as coisas um pouco mais “reais”, pessoas como Thomas Edison e os irmãos Skladanowsky trabalhavam em mecanismos e trucagens para tentar conseguir registrar, de algum modo, figuras em ação. Mas a criação do cinema é normalmente relacionada aos irmãos Auguste e Louis Lumière.

28 de dezembro de 1895 em Paris, na França. Essa é considerada a data de nascimento da sétima arte. Foi quando houve uma das primeiras projeções públicas de uma imagem em movimento. A filmagem dos irmãos Lumière mostrava a chegada de um trem em uma estação, mas foi a exibição do ano seguinte, ao custo de um franco, que realmente entrou para a história do cinema mundial. A lenda diz que quando a pequena gravação foi exibida, as pessoas entraram em pânico e começaram a correr para o outro lado da sala, achando que aquele trem viria em suas direções – afinal, para todos os presentes, aquela experiência era completamente diferente e nova.

O cinema desde seus primórdios foi uma atividade em conjunto. Existem milhões de razões que fazem as pessoas saírem de suas casas para assistir a um filme em uma sala escura com dezenas de desconhecidos. Assim como cada um tem sua razão de ir ver alguma coisa, a reação das pessoas ao que é apresentado na tela também varia.

Quem já foi ao cinema provavelmente já deve ter presenciado alguma situação inusitada. Dos casais que não param de se beijar, aos roncos alheios e passando por risos descontrolados e altos, salas de cinema podem ser cenários de situações inesquecíveis – pro bem e pro mal.

Mas para a nossa geração, as telas estão ficando cada vez menores. Fomos da televisão ao computador, do computador ao celular. Se antes nos distraíamos com velharias da Sessão da tarde e precisávamos esperar alguns meses para encontrar aquela fita empoeirada na estante da locadora, agora os filmes brotam na internet tão rapidamente que fica até difícil acompanhar. E a preguiça sempre fala mais alto: por que nos infernos você iria se arrumar, pegar dois ônibus e gastar um bom dinheiro com ingresso quando pode colocar uma pipoquinha no micro-ondas e curtir o catálogo do Netflix de pijamas? Pois eu te digo o porquê.

Primeiramente, há aquele argumento óbvio: qualidade. O filme a que você está assistindo no computador, com imagem precária, ruídos bizarros e formato de tela mutilado, não é o mesmo longa que está sendo projetado nas salas de cinema. Uma equipe imensa e dedicada pensou em cada detalhe que pudesse tornar aquela narrativa mais rica e envolvente; o mínimo que podemos fazer é contemplar o resultado final do jeito que esse pessoal pretendia. A sala de cinema foi concebida para criar uma experiência imersiva, para que você seja transportado a outro mundo. Para isso, ela conta com recursos que o seu tablet nem sonha em possuir. E não dá para pausar e fazer um lanche ou checar o seu Facebook. Por cerca de duas horas, aquele filme é a única coisa que importa.

Mas esse não é meu argumento favorito. O cinema é fascinante de verdade por ser uma experiência comunal. Toda vez que você reúne um bando de gente em torno de um único objetivo, a mágica acontece. Não importa que você seja uma garota de 14 anos e seu vizinho de cadeira seja um senhor de 67. Enquanto a sessão durar, vocês estarão juntos, no escuro, dividindo uma experiência única.

Parece besteira, mas é bem poético: esses companheiros de jornada anônimos vão rir com você, chorar com você, gritar com você. E, às vezes, eles vão fazer tudo isso nas horas mais impróprias e vão te irritar bastante, mas essas são as dores e as delícias de atividades em comunidade. Você não pode controlar ou prever a reação do outro, mas pode observar como cada pessoa interage de forma diferente com o mesmo conteúdo e pode extrair novos significados de tudo isso. A cena que te leva às lágrimas faz um desconhecido gargalhar. Além das vidas dos personagens na tela, você leva de brinde uma espiada nas mentes de toda essa galera. Para quem curte histórias, é um prato cheio. E se você gosta de filmes, eu imagino que goste de histórias.

E isso porque estou falando de uma sessão normal, nem mencionei pré-estreias. As saudosas exibições de Harry Potter à meia-noite, em que fãs com fantasias de todas as casas de Hogwarts se cumprimentavam e mal conseguiam conter a ansiedade. É quase como estar no show da sua banda favorita. É claro que é possível vivenciar o aspecto comunal da atividade através da internet. Estamos sempre comentando filmes, séries e livros com amigos e desconhecidos no Twitter, no WhatsApp e em qualquer cantinho que satisfaça nossa sede por interação. Como defensora número um da web, acho a experiência absolutamente válida. Mas não há nada que nos impeça de viver as duas coisas, certo?

As salas de cinema não vão morrer. Seja oferecendo 3D, IMAX, lanchinhos requintados ou assentos reclináveis, elas vão continuar a atrair um certo público. Mas eu queria que esse espectador fosse você. Caso sua cidade não tenha cinemas com preços acessíveis que disponibilizem opções dubladas e legendadas, eu entendo. Caso aquele filme pelo qual você estava ansiosa nunca entre em circuito aí, eu também entendo. Caso você só encontre sessão em 3D e aqueles malditos óculos te deixem com dor de cabeça, eu entendo demais! Mas se você tiver a opção de assistir a algo bem legal pela primeira vez no cinema, não deixe de ir. Os irmãos Lumière agradecem.

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Lorena Piñeiro
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Lorena tem 26 anos e mora no Rio, embora tenha crescido nos subúrbios da Internet. Trabalha com análise de roteiros televisivos, avalia manuscritos literários, traduz e revisa obras em inglês e escreve por aí. É igualmente fascinada pelo gracioso e pelo grotesco. Adora filmes de terror, livros de fantasia, arte surrealista e qualquer coisa que não carregue o mínimo semblante de realidade. Tem empatia até por objetos inanimados e queria ser um urso ?•?•?

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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