4 de outubro de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração:
A arte de marcar um encontro

É uma arte marcar um encontro. Não é assim tão simples. Talvez, se não houvesse tanta regra social/amorosa em relação às primeiras conversas, a coisa seria mais fácil. Pode ser um(a) colega de classe, um(a) amigo(a) de sua amiga, alguém que trabalha com você… Esta pessoa precisa parecer interessada para que vocês se adicionem em alguma rede social, para então rolar uma conversa, para, aí sim, alguém (a regra diz: o ser em questão) a convide para sair. O frio na barriga é grande, até porque o regulamento diz que as mulheres em geral precisam se fazer de difíceis para que a criatura não se assuste. O que dizem que deve ser feito é não aceitar assim, de cara, e sim rodear até aceitar de vez. Entenderam por que marcar um primeiro encontro é tão complicado?

Mas, para que qualquer coisa comece, é necessário dar o primeiro passo, certo? Então você escolhe seu melhor vestido, usa sua melhor maquiagem, lembra mais um pouco das “normas do amor segundo todo mundo” e vai para o seu primeiro encontro.

A primeira saída é um bom momento para ver de verdade como a pessoa é. Comentam sempre: a primeira impressão é a que fica. Com este pensamento na cabeça é comum criarmos uma fantasia, um personagem, para que o(a) fulano(a)  se sinta impressionado(a). Ele(a) também está fazendo isso. É algo comum, fazemos isso nas entrevistas de estágio, em encontros familiares, em festas e em acampamentos, por exemplo. É a uma casca protetora que nós temos, para alguns mais grossa, para outros mais fina, e que naturalmente cai conforme aquela pessoa se mostra disponível para isso.

Às vezes acontece de neste primeiro encontro sair um beijo na boca no fim. Natural, se os dois querem, por que não? Não há convenção social que impeça isso. E, na hora de ir embora, fica a promessa: “Vai ter mais.” É como se fosse um capítulo do seu seriado favorito: ao se despedirem para a volta às suas casas, um “to be continued” (continua) imaginário povoa as nossas mentes, principalmente se o encontro foi de fato incrível.

O dia seguinte chega e nada do(a) moço(a) aparecer. Faz três dias e ele(a) não te mandou mensagem no WhatsApp até agora… Já fez uma semana. E nada. Ele(a) não te curte mais, não comenta nas suas fotos e você desconfia que ele(a) tenha parado de te seguir no Instagram. O que aconteceu? O que você fez de errado? Você seguiu todas as convenções sociais/amorosas… Ou não. Será que você foi muito assanhada? Ou muito acanhada? Será que aquele beijo foi ruim? Será que sua saia estava muito curta? Será que você devia ter sido você mesma? Ou não, deveria ter incorporado mais o personagem? Você até chega a mandar um “oi” no WhatsApp, porém a criatura visualizou e não te respondeu. Ou se te respondeu foi com um outro “oi” e não há conversa que se sustente com isso. O seu pensamento, depois de algumas investidas e um bom primeiro encontro, é na verdade o mesmo: “O que eu fiz de errado?” A resposta é simples, mas de tão simples a gente se recusa a ver: nada. Isso mesmo, nada.

Isso aconteceu recentemente na minha vida e perguntei para algumas pessoas por que elas não retornavam depois de um ótimo primeiro encontro. As respostas foram muitas e diversas, mas não menos sinceras. A pessoa com a qual supostamente você esteve envolvida pode estar enfrentando um momento confuso na vida, daqueles de não saber o que quer exatamente, e se envolver com uma menina (ou com um sapo, ou com uma árvore, ou com uma bicicleta) não é das melhores soluções.

Pode ser também que ele(a) esteja quase namorando outra pessoa, resolve sair com você para ter certeza do que quer e sim, escolhe aquela com quem tem um quase relacionamento sério. Não é pessoal, não se ache feia e desinteressante porque ele(a) fez uma escolha e não foi você, neste momento, a escolhida. As pessoas fazem escolhas e ele(a) fez a dele(a): a pessoa com quem tem mais envolvimento. Não te falou porque ninguém tem tanta coragem de, na lata, dizer: “Não quero mais te encontrar porque vou namorar fulana.”

Outro possível motivo do desaparecimento é o medo de se envolver. Quando a pessoa terminou recentemente, ou quando está triste e decepcionada com outras pessoas, ou até mesmo quando está criando expectativas de um novo relacionamento inexistente com um ideal, este sentimento é comum. Quando temos medo, nos escondemos. Fugimos. É a maneira mais fácil de enfrentá-lo e a forma mais segura de fingir que este medo — que às vezes está tão escondido no inconsciente que não é perceptível — não existe.

E para todas as repostas, a única verdade é que você não fez nada de errado. Você não é feia, não é chata, não é escrota, não usou uma saia curta, não beijou mal, não transou, transou, não foi você, foi você, foi você demais, chegou atrasada, não chegou atrasada, pareceu muito a fim, pareceu fria…………………………………… Você é maravilhosa e quem não quis outro encontro contigo com certeza não merece um relacionamento duradouro. A pessoa não pode te oferecer (e não importa o motivo) mais do que deu naquelas poucas horas. Não queira correr atrás, entender o motivo, sofrer (sei que é difícil, é um bom exercício) por tão pouco. Pegue seu melhor vestido, use sua melhor maquiagem e saia por aí, se divirta sozinha. O mundo tem 7 bilhões de pessoas, o céu está lindo, para que sofrer por menos?

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

  • https://www.facebook.com/NinhoDeVespaQuadrinhos Ninho De Vespa Quadrinhos

    Você saiu com um grande idiota. Foi isso.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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