21 de novembro de 2014 | Ano 1, Edição #8 | Texto: | Ilustração:
A arte é a fome devoradora
Ilustração: Clara Browne

Ilustração: Clara Browne

Ainda no colégio, minha professora de história nos passou um texto de Eric Hobsbawn com a seguinte frase: “Os inúmeros ‘ismos’ mudaram para sempre todas as formas da arte, guerra, revolução […]”.  Intrigada, anotei o que só viria a entender com clareza anos depois. A arte nos movimenta, somos sedentos dela. É a arte que nos rasga o peito, nos apunhala pelas costas, invade nossas mentes e nos toma por completo. A arte é a fome devoradora. Quando chega, não há quem escape, pois ela vai no mais fundo da alma, mesmo quando você logo de frente a rebate. Ela nos envolve e nos modifica – no âmbito pessoal e social. A arte é o combustível de nossas vidas e, por causa disso, não poderíamos deixar de falar sobre ela nesta edição. Assim, algumas capitolinas contam aqui um pouquinho sobre seus movimentos artísticos preferidos!

 

Má Dias – Romantismo

Em meados do Ensino Médio, quando descobri que a literatura era definitivamente uma das paixões da minha vida, dei de cara com um movimento artístico chamado Romantismo. Por mais clichê que possa parecer, foi um tremendo amor à primeira vista; também, não era para menos: quando estamos no auge da adolescência, aos quinze, dezesseis anos de idade, tudo o que queremos e fugir das regras tão racionais da escola e tudo o que sentimos é aquela paixão, aquele nó, aquela sensação de contramão e muita, muita, muita melancolia. E isso era um pouco do que os artistas românticos sentiam e refletiam em suas obras. Como, então, não amar?

O Romantismo surgiu como um movimento cultural lá na Europa do século XVIII, mas a Alemanha, em especial, tem um papel fundamental nessa repercussão: é que quando o escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe publicou seu livro, “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, em 1774, houve muito pano para a manga sobre o movimento na imprensa. O livro, que é considerado o marco inicial do Romantismo, conta a história de um jovem que se apaixona pela noiva de seu melhor amigo e, não podendo realizar seu amor e desejo, acaba mergulhando em um mar de tristeza que o leva a dar fim à sua própria vida. Já imaginou o quanto esse livro foi tachado de má influência para os jovens, né? E foi aí que o movimento finalmente tomou forma e impulso para se desdobrar arte afora, e é com esse livro que podemos sintetizar porque o Romantismo veio para ficar: as emoções e os sentimentos vinham acima de qualquer ato de racionalidade.

É legal saber que o Romantismo conseguiu trabalhar esse tema se desdobrando em três gerações de seu movimento, tanto na Europa, quanto no Brasil – uma das gerações, inclusive, se chama mal-do-século, e foi assim alcunhada por conta da tristeza e depressão que eram abordadas nas obras desse período. Encontrar esse movimento, para o meu eu adolescente, foi como encontrar melhores amigos dentro dos livros: Goethe, Lord Byron, Gonçalves Dias e Álvares de Azevedo. Anote esses nomes caso você queira encontra-los também.

 

Nathalia Valladares – Surrealismo

O Surrealismo foi um movimento literário e artístico, nascido em Paris na década de 1920, que compôs a vanguarda modernista. O movimento se propunha a produzir uma arte livre do racionalismo, baseada no preceito de que o inconsciente era uma ferramenta forte na atividade de criação. Em 1924, André Breton, poeta que era principal líder do movimento, lançou o Manifesto Surrealista. No Manifesto são projetados os princípios surrealistas da ausência de lógica e a adoção de uma realidade superior e diferente daquela vivida. O surrealismo permeou em três áreas distintas: no teatro; no cinema, e nas artes plásticas, com o meu favorito de todos e de quem vou falar aqui: Salvador Dalí.

Salvador Domingo Felipe Jacinto Dalí i Domènech, ou apenas Dalí, foi um artista Catalão de grande importância não só para o surrealismo, mas para as artes plásticas em geral. O que mais me emociona e atrai na obra dele é a forma como ele permeou em diversos campos artísticos enquanto vivo. Tanto na confecção de Um Cão Andaluz, com Luís Buñuel – um dos maiores expoentes do cinema surrealista – em 1928, na concepção de Destino (2003), curta animado que idealizou em com Walt Disney, mas que só foi finalizado depois de ambos estarem mortos, ou na construção do sonho no filme de Alfred Hitchcock, Spellbound (1945), quanto nos seus desenhos para a indústria da moda, perfumes ou colaborações com fotógrafos importantes como Man Ray, Dalí consegue passar por todos os meios das artes e fazer com perfeição todas as tarefas que se propôs a realizar.

 

Bárbara Fernandes – Tropicalismo

Eu nunca consegui escolher uma banda ou uma comida ou um filme ou um lugar favorito. Desde sempre fico me remoendo pra escolher entre tantas coisas e acabo nunca encontrando algo que contemple tudo o que gosto. Acho que é por isso que o Tropicalismo é um dos meus movimentos artísticos favoritos – ele mistura várias coisas maneiras e no final fica tudo mais maneiro ainda!
Lá no final da década de 60, rolou um Festival de Música Popular Brasileira e, em seguida, uma galera se juntou e lançou um álbum chamado Tropicália ou Panis et Circencis. No meio dessa galera estavam o Caetano, o Gilberto Gil, Os Mutantes, o Tom Zé etc. É claro que não dava pra dar errado, né?! Foi aí que surgiu o que a mídia chamou de Tropicalismo.

Como disse, o Tropicalismo mistura várias coisas, é um movimento meio sincretista. Tinha influência de rock, bossa nova, pop art, Brasil, exterior etc. Ele reviveu um pouco daquilo que o Oswald Andrade chamou de Manifesto Antropofágico, lá na Semana de Arte Moderna de 22. Na época, até rolou uma passeata dos mais conservadores musicalmente contra o uso da guitarra elétrica. Alguns falavam que os tropicalistas eram meio alienados porque não eram tão ativos no meio cultural militante em uma ditadura militar que ameaçava a liberdade artística dos brasileiros. Eu acho que não é bem assim e que era preciso um pouco de sensibilidade pra entender o conteúdo

 

Beatriz Quadros – Década de 70 (porque não dá pra escolher apenas uma especificidade dessa década)

Imagina estar no mesmo lugar onde o Warhol, Haring e Basquiat estão juntos, se misturando entre o punk e o disco, com músicos do naipe de Lou Reed, Debbie Harry, Mick Jagger e David Bowie? Esse lugar existia, se chama Nova York e essa junção astral aconteceu na década de 70.

Nova York sempre foi o coração cultural do mundo, mas na década de 70 havia algo estratosférico. Era uma adição de estilos, novidades e, se você fosse um artista e estivesse mostrando pelas ruas novaiorquinas o que tinha a oferecer, com certeza alguém prestaria atenção. E te transformaria em alguém de fato importante. Foi o que aconteceu com Basquiat, o qual antes de ser um dos maiores artistas do século passado era mendigo. Enquanto vendia a sua arte pelas ruas, Andy Warhol se encantou pelos seus desenhos e o levou para o se atelier (apelidado de Factory). E caso você fosse músico você poderia ser descoberto nos dos muitos clubes nos subúrbios da cidade. O mais famoso era o Studio 54, onde bandas como Ramones e Blondie foram descobertas. Até se você desenhasse roupas para alguma banda punk suja você poderia ser uma estilista extremamente importante (caso da Vivianne Westwood). Nessa década transbordando arte, estava começando também hip hop. Nunca numa época e num lugar tinha tanta coisa boa junta!

 

Jordana Andrade – Neoplasticismo (The Stijl)

O Stijl (ou Neoplasticismo) surgiu baseado na teosofia (movimento do qual Piet Mondrian fazia parte) e no protestantismo holandês, trazendo seu idealismo e auteridade. O Neoplasticismo era um movimento com base na pesquisa, a arte era uma tentativa de organização das ideias com o objetivo de ressaltar seu aspecto artificial, por ser uma criação humana.

Artistas notórios desse movimento foram Mondrian e Theo Van Doesburg, o qual criou a revista The Stijl (que se confunde com o nome do movimento) e depois abraçou o Dadaísmo, levando consigo várias influências do Neoplasticismo ao Dadá.

O Neoplasticismo foi um movimento das artes plásticas, principalmente da pintura, do design (contribuindo muito para o desenvolvimento da área, assim como a escola Bauhaus) e da arquitetura, em que até hoje mostra uma forte influência.

 

Luiza Vilela – Pós moderni[dade]smo

O que fazer e para onde ir, artisticamente falando, depois de esgotadas as vanguardas e as possibilidades de representação do homem e da natureza? Misturar com sal, pimenta, uma pitada de virtualidade, outra de cultura pop e chacoalhar bem. Risos. Mas é um pouco por aí mesmo. A minha obsessão com o Pós-modernismo decorre muito dessa possibilidade de quebrar barreiras entre alta cultura e baixa cultura, entre o que poderia e deveria ser considerado arte, entre realidade e ficção, real e virtual. O que também não significa que a pós-modernidade seja o fim de toda a diferença e a ausência total de um norte estético, apenas que ideias como originalidade, vanguarda e novo não fazem mais sentido em uma sociedade em que tudo é pastiche, tudo é repetição. Pra mim, nenhum conceito explica melhor a condição humana na contemporaneidade que o Pós-modernismo e as suas respostas muitas maravilhosamente bizarras à crise da representação. E sejam bem-vindas ao deserto do real.

 

E aí? Curtiu o que as meninas contaram? O meu movimento artístico preferido é a poesia marginal,e o seu? Conta pra gente nos comentários!

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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