30 de abril de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração: Heleni Andrade
Arte feia e ridícula

“Uma coisa que realmente não existe é aquilo a que se dá o nome de Arte. (…) Conservemos em mente que tal palavra pode significar coisas muito diferentes, em tempos e lugares diferentes, e que Arte com A maiúsculo não existe. Na verdade, Arte com A maiúsculo passou a ser algo de um bicho papão e de um fetiche.” — “Sobre Artes e Artistas”, introdução do livro A História da Arte de E. H. Gombrich.

A arte é, e acredito que sempre será, um assunto que rende muita discussão. Muitas pessoas já tentaram definir o que é a arte. E muitas outras tentaram subverter essas definições. Muita gente acredita que a Arte — aquela com A maiúsculo — deve ser bonita. Bobagem. A arte como beleza começou a perder força há um tempinho — uns 152 anos, coisa pouca — quando foi realizado o Salão dos Recusados. Essa exposição reunia diversas obras recusadas (tã-dãn) pelo júri do Salão de Paris, a mostra de arte oficial da Academia Real. Essa tal de Academia era responsável por um estilo de pintura e escultura conhecido como arte acadêmica ou academicismo. Este tipo de arte “tradicional” e “correta” foi incorporado em uma série de convenções a serem seguidas por todos os artistas. As obras de arte deveriam seguir um padrão estético, além de conter uma mensagem de “mentalidade elevada” — como as pinturas históricas, por exemplo. Pra resumir, a Academia era uma forma de controle cultural que tentava impor sua autoridade sobre o ensino, a produção e a exposição de obras de arte. Uma grande novidade, o Salão dos Recusados atraiu um extenso público, que ridicularizou obras de artistas como Cézanne, Courbet e Manet. Apesar disso, a exposição foi um sucesso. Sim, um sucesso! Porque ela prejudicou o poder da Academia — e da arte acadêmica como um todo — ao mostrar a necessidade de exibições de arte alternativas para evitar que órgãos altamente conservadores moldassem não só a estética, mas também o gosto do público pela arte. Além disso, ela abriu caminho para mostras ainda mais chocantes, como as Exibições Impressionistas em Paris e, mais tarde, movimentos artísticos como o Dadaísmo.

Todo movimento artístico que vai contra os padrões — sejam eles estéticos, culturais ou políticos — corre o risco de ser ridicularizado. Hoje em dia consideramos as pinturas impressionistas muito bonitas, mas imagine só o alvoroço causado, sei lá, em 1874, quando o bicho papão da Academia ditava a estética — e ela não era nada parecida com aquilo pintado pelos — e pelas! — impressionistas. Isso ocorre porque muitas vezes as atribuições de beleza e feiura ocorrem seguindo critérios políticos e sociais. Mas é importante lembrar que nem sempre o objetivo de uma obra é ser bonita. Às vezes ela é criada com a intenção de ser ridícula — ou feia, ou feia e ridícula. Esse foi o caso do Dadaísmo, movimento de vanguarda que tem como principal representante Marcel Duchamp. Certa vez esse tal de Duchamp pegou um mictório, assinou e mandou para a primeira exibição da Sociedade de Artistas Independentes de Nova York, como qualquer outra obra de arte, só para ela ser recusada. Isso porque o Dadaísmo tinha como objetivo ser o oposto de tudo aquilo que era considerado arte — o que é conhecido como anti-arte. Ao utilizar uma peça pronta (ready-made), Duchamp tinha como objetivo criticar o conceito de arte da época, que priorizava a técnica em vez das ideias contidas em uma obra.

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“A arte é bonita?” diz Jane.
“Não”, diz mamãe, “Beleza não é importante”.
Da série We Go to the Gallery, por Miriam Elia.

O Dadaísmo foi importante para a criação daquilo que chamamos de arte subversiva, normalmente associada com o que é considerado feio e ridículo. A arte subversiva critica a noção de arte como mercadoria, mas, principalmente, vai contra alguns valores sociais e políticos hegemônicos. A arte com temática feminista, por exemplo, pode ser considerada subversiva. Mas nem sempre esse tipo de arte é feia, ou ridícula, ou feia e ridícula. E as obras de Romero Britto, por exemplo, são consideradas feias e ridículas. Mas não são nada subversivas. Porque nem sempre a arte “feia e ridícula” é subversiva. E é aí que está a ~mágica~. Não existe um padrão ou um guia a ser seguido. Sempre é uma questão de contexto. Mas uma coisa é certa, ou quase, porque nada é lá muito certo quando o assunto é arte: para quem produz, definir-se como “feio e ridículo” é, na verdade, libertador. Porque isso tira a cobrança de produzir obras-primas e seguir determinadas regras. Proporção, perspectiva, nada disso importa. Muitas vezes, quando jogamos isso no lixo, conseguimos trabalhos com características únicas — e isso não é nada feio e ridículo.

Recentemente surgiu no Facebook um grupo chamado “Arte feia e ridícula”, para o compartilhamento de… arte feia e ridícula (com foco nas artes visuais). O grupo levanta algumas questões importantes sobre a arte, mesmo sem querer. Os adjetivos “feio” e “ridículo” não são levados ao pé da letra, por exemplo. Eles são uma ironia sobre como é enxergada a arte subversiva e independente. Mas é engraçado — na verdade triste — como esse tipo de arte, que tenta ser um tipo de resistência e/ou protesto sobre a arte “padrão” — que é produzida e comercializada na maioria das vezes por homens cis, de classe média/alta, brancos etc. — acaba sendo apropriada e transformada pelo sistema político-social em que vivemos. Um exemplo, já antigo, é o urinol de Duchamp. Essa peça de baixo custo, que despertou uma grande discussão sobre aquilo que era considerado arte, subvertendo alguns conceitos, com a assinatura de Duchamp vale hoje em dia quase US$ 4 milhões. A arte como resistência ou protesto, inevitavelmente, torna-se mercadoria, ou fetiche — porque é essa a especialidade do capitalismo: pegar aquilo que pode o ameaçar e transformá-lo em uma ferramenta de manutenção. Mas não é só a arte subversiva que transforma-se em mercadoria. Assim como não é só de arte subversiva que se trata a arte “feia e ridícula”. Voltando ao exemplo de Romero Britto: suas obras, sempre coloridas, lembram diversos movimentos artísticos passados. Tem gente que gosta? Tem sim. Tem gente que não gosta? Também. Mas, nada subversivas — e muito menos independentes — suas obras entram em um conceito chamado “kitsch“, que nada mais é do que o brega, ou cafona, você escolhe. E se é brega, então é feio e ridículo. Mas o “kitsch” é o brega com marketing. É um jeitinho de pegar aquilo que veio de baixo — o brega é normalmente associado às classes sociais mais baixas — e transformá-lo em mercadoria de luxo. Muita treta, né?

Além da arte subversiva e brega também entram no “leque feio e ridículo” algumas coisas como o vaporwave (ou, segundo a Laura, a versão 2.0 do seapunk) e o glitch art. E como não dá pra falar de artes visuais sem imagens, listei algumas páginas bem bacanas que costumam ser compartilhadas lá no grupo do Facebook:

Heleni Andrade
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Minhas amigas me chamam de Leni. Estudo Artes Visuais mas tenho um pézinho no design. Gosto de navegar na internet, fotografar o mundão, cozinhar, descobrir músicas legais e fazer playlists.

  • Thyeme Figueiredo

    Que post lindo! Salvei aqui nos meus favoritos pra continuar lendo os outros sempre que tiver um tempinho sobrando <3

  • Gabriela S. Padilha

    Adorei o post. O livro História da arte que você cita no começo é muito bom. http://www.alemdolookdodia.com

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